06/06/2026

Delphine Gleize combina estranheza e emoção em "Estranhas Ligações"


Fotos de Luiz Vita

No seu filme de estréia, Estranhas Ligações, a premiada curta-metragista francesa Delphine Gleize não economizou talento nem ambição. Escreveu ela mesma um denso roteiro original, entremeando a vida de dez pessoas em torno das partes do corpo de um touro, morto após uma tourada. Resultou um filme impressionantemente maduro, com uma ambientação impregnada da estranheza e intensidade emocional de cineastas espanhóis, como Luis Buñuel, Pedro Almodóvar e Julio Medem - cujas influências, entre outros assuntos, a diretora-roteirista explica nesta entrevista exclusiva, concedida durante sua passagem por São Paulo, no final de 2003.

Cineweb - O que lhe deu a primeira idéia para este roteiro?

Delphine Gleize - Comecei a escrever esta história há seis anos. Assisti a uma tourada e isso me causou um choque enorme. Não sei porque me provocou essa reação. Mas comecei a pensar nesse tema. Senti necessidade cada vez mais de olhar os touros, eles se tornaram animais importantes para mim.Imaginei uma história onde todos os personagens tivessem necessidade de um touro, em que se esse touro tivesse uma "segunda vida", mudando a vida das pessoas. Escrevi o roteiro de uma vez só. Nunca reescrevo minhas histórias. Tudo que coloquei no filme já existia naquela época.

Cineweb - Com todos os personagens, a menininha, todos os detalhes?

Delphine - Sim.

Cineweb - Por que usou uma música brasileira (Valsinha, de Chico Buarque de Holanda e Vinicius de Moraes)?

Delphine - Isso fez sentido porque esse é um filme sem fronteiras. Quer dizer, os personagens passam da França à Espanha e à Bélgica rapidamente, arbitrariamente. Eles se deslocam sem nacionalidade definida, falam italiano, espanhol, francês, como se a língua fosse uma questão de momento. E Lio (que interpreta a mulher grávida) é uma cantora famosa na França, embora seja portuguesa. Um dia eu lhe disse que procurava uma canção portuguesa que contasse uma história dentro do filme, de um homem e uma mulher que não se vêem mais. E ela se lembrou de uma canção que adorava, de Chico Buarque, que era cantada por um cantor português, António Chaínho. Eu procurei várias versões da música e ela aparece na trilha do filme interpretada por três cantores diferentes. A primeira vez, é o próprio Chico quem canta. A segunda, é Chaínho, a última, Ney Matogrosso. Engraçado que os franceses não perceberam que se tratava sempre da mesma música, porque as orquestrações são diferentes. E para mim essa música foi importante porque ela dá a chave da história de Lio e Jacques, é a canção que lhes pertence.

Cineweb - Curioso que tenha se lembrado dela, porque se trata de uma canção muito antiga. Tem uns 30 anos. Vinicius morreu há mais de 20.

Delphine - É muito bonito imaginar que isso pôde acontecer. A música foi uma escolha minha.

Cineweb - Para mim, seu filme parece revelar algumas influências espanholas, de Almodóvar, Buñuel. Você aprecia o cinema espanhol?

Delphine - Estou descobrindo o cinema de Buñuel e é verdade que há nele coisas que me perturbam - porque há nelas exatamente o tom que eu gosto e procuro. A respeito de Almodóvar, creio que não. Estou aborrecida até porque ainda não vi Fale com Ela. Então, minha ligação com a Espanha vem do fato de que minha família é do sudoeste da França, que fica próxima da fronteira. Acho há qualquer coisa de espanhol no meu filme particularmente do lado das mulheres, a relação passional, a relação extrema das mulheres a respeito dos sentimentos amorosos, das crianças. Os espanhóis estão mais próximos dos órgãos, do ventre, não têm medo da carne. Penso que há cineastas espanhóis que me são mais próximos do que Almodóvar, como Julio Medem.

Cineweb - No seu filme, como nos de Medem, os fatos se sucedem numa cadeia desencadeada pelo acaso.

Delphine - Esses temas pertencem mais aos cineastas do sul. A carne, o ventre, o que há dentro dele.

Cineweb - Achei muito intenso o trabalho de interpretação da garotinha, ainda mais ela sendo tão pequena, especialmente naquela cena com a professora. Foi difícil dirigi-la?

Delphine - Foi muito difícil. No momento das filmagens ela tinha cinco anos. Ela não tinha nenhuma experiência, foi uma garotinha que vi na rua, saindo da escola. Eu a fazia voltar a cada semana para esta cena e a cada semana ela não fazia o que eu lhe dizia. Eu já estava deprimida com isto mas me dizia que havia qualquer coisa de incrível naquela menina e insistia que voltasse. Finalmente, fizemos a cena da professora e ela me disse: "Vou fazer o que você quer mas não quero nunca contracenar com outro adulto que não você". Então, ela não atua com ninguém mais, estamos somente eu e ela. Foi muito desgastante.

Cineweb - Você já está preparando um novo filme?

Delphine - Sim. Sou muito lenta para escrever, mas já estou começando. Tenho dois projetos diferentes. Um deles é em inglês, que devo filmar em 2004. É uma adaptação de Tennesse Williams, uma novela que se chama One Arm, sobre um boxeador que se torna gigolô. O outro filme será uma trama passional entre duas irmãs, na França.

Cineweb 2-7-04