06/06/2026

Silvio Soldini volta com drama sobre imigrantes


Fotos de Ana Vidotti

O cineasta italiano Silvio Soldini teve de esperar até seu quarto longa-metragem, a comédia Pão e Tulipas (2000), para alcançar o sucesso. Em compensação, o filme interpretado por Licia Maglietta e Bruno Ganz tornou-se um fenômeno de bilheteria em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde foi assistido por 250.000 pessoas. Seu filme seguinte, o drama Queimando ao Vento, que competiu no Festival de Berlim em 2001, tem tudo para surpreender a grande platéia que admirou Pão e Tulipas. Num registro intenso e sombrio, o novo trabalho do diretor adapta livremente o romance Ontem, de Agota Kristof (lançado no Brasil pela Editora Rocco), acompanhando a história de Tobias Horvath (Ivan Franek). Fugido ainda garoto de um país do leste europeu, ele cresceu num orfanato na Suíça, tornando-se operário e desabafando à noite, na escrita sofrida de seus diários, traços de um passado surpreendente. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo - durante a passagem do diretor na Mostra Internacional de Cinema/2002 -, Soldini comenta as vantagens da alternância de gêneros, as dificuldades da filmagem em locações naturais, com elenco que falava língua diferente da sua, e seu próximo filme.

Cineweb - Como resolveu fazer um filme tão diferente de Pão e Tulipas?

Silvio Soldini - Na verdade, a mudança não é entre Pão e Tulipas e Queimando ao Vento, mas entre os filmes que precederam Pão e Tulipas e este filme. Pão e Tulipas é meu quarto longa-metragem. Antes dele, fiz curtas-metragens, médias-metragens, documentários e três longas-metragens: L'Aria Serena dell' Ovest, Un'Anima Divisa in Due e Le Acrobate. Depois deles, li o romance de Agota Kristof, que se chama Ontem, e decidi fazer este filme - que a princípio manteria esse mesmo título mas foi rebatizado como Queimando ao Vento.

Cineweb - Mas antes dele você filmou Pão e Tulipas.

Soldini - Sim, foi justamente quando eu me preparava para começar a escrever o roteiro de Queimando ao Vento. Já fazia alguns anos que tinha vontade de realizar um filme mais leve, expressar uma parte diferente de mim, cômica, irônica, que eu sabia ter mas não até que ponto.

Cineweb - Você nunca tinha feito comédias antes?

Soldini - Não. E Pão e Tulipas tornou-se meu maior sucesso. E se ele é meu filme mais leve e cômico, em compensação Queimando no Vento é talvez meu trabalho mais dramático, e seguramente o mais poético e passional. Creio que nesta profissão de cineasta há necessidade sempre de dar ouvidos àquilo que te apaixona ou a uma tua exigência daquele momento.

Cineweb Não há tantos diretores assim dispostos a alternar entre dramas e comédias. Geralmente, opta-se por um gênero ou outro. Não é difícil essa oscilação ?

Soldini - Não, para mim nunca foi difícil. Sinto que posso fazer os dois. Mas creio que Pão e Tulipas seja uma comédia especial, não um tipo de comédia como as que se fazem muito na Itália, ela é muito peculiar. É o tipo de comédia que consigo fazer, uma comédia diferente.

Cineweb - Em que sentido?

Soldini - Num sentido profundo, que é como encaro um filme, seja ele dramático ou cômico. Deve sempre haver nele um sentido profundo. Não conseguiria fazer uma comédia apenas para fazer rir, para entreter. Creio que Pão e Tulipas funcionou muito bem porque há nele vários níveis de leitura. Mesmo que seja difícil fazer um filme com esse tipo de premeditação. Esse processo deve ocorrer espontaneamente.

Cineweb - Por que decidiu filmar Queimando ao Vento fora da Itália, em línguas diferentes da sua (francês e tcheco)?

Soldini - No romance, o protagonista vem do leste europeu. Este era um detalhe muito importante da história. Mas não se sabe qual a nacionalidade dele. Entretanto, eu tinha que escolher uma nação, embora não a priori. Procuramos em cinco países o ator certo, porque sentia que devia ser um intérprete formidável para segurar este papel que era muito forte. Era o clássico filme em que se acontece um erro na escolha do protagonista, tudo desaba.

Cineweb - Em que países procurou atores?

Soldini - Na Hungria, Bulgária, Polônia, República Tcheca e na França. E foi em Paris que encontrei Ivan Franek, que compreendi logo que poderia ser meu intérprete. Ainda vi outros atores antes de me decidir por ele, era o único possível. Como ele era tcheco, falava essa língua, fomos a Praga e escolhemos outros atores que também a falassem. Então vi-me envolvido numa filmagem com atores que falavam uma língua que eu não conhecia.

Cineweb - Foi a primeira vez que isso lhe aconteceu? Como foi a experiência?

Soldini - Foi a primeira vez. Sempre fiz todos os meus filmes em italiano. Este aqui foi filmado em francês - que conheço, embora não seja a minha língua - e em tcheco, que não conheço nada. Mas foi muito bom, muito interessante, porque pude compreender que não há necessidade de entender o significado de cada palavra que é dita para trabalhar com um ator. Claro que é preciso saber do que se está falando mas é inútil trabalhar sobre o tom de cada palavra.

Cineweb - Mas como funciona a sua percepção sem entender tudo que é dito?

Soldini - Quando é verdadeiro aquilo que você vê diante dos olhos, é verdadeiro em qualquer língua. Talvez em japonês fosse muito diferente, porque é muito longínquo de mim, nem conheço as entonações. Mas entre italianos, franceses, tchecos, brasileiros, americanos, existe uma linguagem corporal que é muito semelhante. No final, foi muito belo. Aliás, o fato de não saber verdadeiramente o que diziam depois de um tempo tornou-se fascinante.

Cineweb - Mesmo com a necessidade de um intérprete no set.

Soldini - Sim, um intérprete era inevitável. Com Ivan, eu podia falar francês, porque conheço bem a língua. Com os outros, já não era possível. O intérprete foi um elemento fundamental, até porque era muito participante.

Cineweb - Fora isso, quais os desafios desta adaptação?

Soldini - Trata-se de um romance muito denso. A escrita de Agota Kristof é aparentemente muito simples, muito linear, muito enxuta. Ela quase não usa adjetivos e extrai sua força deste minimalismo. Então a minha preocupação maior era como reter essa potência que havia na escrita, encontrando um modo de exprimi-la nas imagens.

Cineweb - Como trabalhou a montagem e a música?

Soldini - Trabalhei muito na montagem porque é propriamente nessa etapa que se escreve o filme, a montagem dá o tom de todas as mudanças de ritmo. Na música, escalei novamente o mesmo compositor com quem trabalho há 12 anos, Giovanni Venosta. Mas a cada filme procuramos encontrar uma sonoridade diversa, com músicas que ajudam a criar uma atmosfera adequada caso a caso. Desta vez, era o leste europeu, inclusive música clássica dessa região.

Cineweb - Filmar em locações externas no inverno foi complicado?

Soldini - Sim. Aliás, este é o primeiro filme que faço em ambientação natural, em montanhas, bosques, na Suíça. Vê-se a mudança das estações, primavera, inverno. Foi difícil até por isso, porque era necessário esperar essas mudanças. Mas esta paisagem externa torna-se um pouco o reflexo da alma do personagem, usamos a paisagem externa para falar daquilo que está dentro do protagonista. Ao final, usamos um outro cenário natural, na Itália.

Cineweb - Pode falar um pouco de seu próximo filme?

Soldini - É uma outra comédia, como Pão e Tulipas, mas talvez não tão simples. A protagonista é novamente Licia Maglietta, de Pão e Tulipas, e Giuseppe Battiston, que interpreta o encanador no mesmo filme, e um terceiro ator, Emilio Solfrizzi. É uma história com três protagonistas e se chama Agata e la Tempesta (Agata e a Tempestade).

Cineweb 5-7-2004