06/06/2026

Drama familiar resgata peça de Maria Adelaide Amaral

Dado o fato de que Maria Adelaide Amaral é uma das escritoras de teatro e TV mais aclamadas da atualidade, acaba sendo uma surpresa que Querido Estranho seja a estréia de uma obra dela no cinema. O roteiro é baseado na peça Intensa Magia, que estreou no Rio na temporada 1995/96 e depois veio para São Paulo.

O filme conta a história de uma família, que se reúne no dia do aniversário do patriarca para um almoço. Nessa mesma ocasião, uma das filhas irá anunciar o seu noivado, o que será uma surpresa para o pai. O evento poderia ser uma alegre reunião, não fosse o temperamento agressivo e sarcástico do homem, que usa esse dia como mais uma oportunidade para humilhar os filhos e a mulher.

O que mais chamou a atenção do diretor Ricardo Pinto e Silva para levar a peça para as telas foi o fator humano presente na história. "Na peça havia muitos personagens fortes, muitas observações dos relacionamentos familiares - o que não tem sido muito explorado pelo cinema brasileiro", explica. Maria Adelaide, por sua vez, costuma relacionar Querido Estranho ao cinema argentino.

E, se depender do resultado final, esse não será o único texto da autora adaptado para a tela grande. "Gosto muito do filme. Estou encantada com a história e o trabalho do diretor", conta a dramaturga, cujo último trabalho na televisão foi a minissérie Um Só Coração, exibida no início do ano. "Esse filme me comove. Me faz lembrar de produções argentinas recentes", diz.

Para Maria Adelaide, para se falar do universo, é preciso falar da aldeia primeiro. "Estou encantada com a forma com que Querido Estranho chega ao coração das pessoas", explica. Mas para Intensa Magia se transformar em Querido Estranho, o texto percorreu um longo caminho. "Os personagens e a história são os mesmos, mas há um outro tratamento", explica o diretor e co-roteirista. "No teatro há um alongamento temporal que não dá para usar no cinema. A peça se passa durante um jantar, em um único ambiente. No filme, ampliamos a ação para o dia desse jantar e para a casa dessa família, e não só a mesa de jantar", conclui.

Em se tratando de falar de "sua aldeia", Maria Adelaide não faz rodeios para dizer que o personagem principal do filme e da peça é inspirado na figura de seu pai. "Não porque fosse meu pai, mas porque era um grande personagem", conta. A escritora revela que escrever a peça foi doloroso, mas catártico. "Fiz uma peça para me reconciliar com eles. Reuniões em família eram um calvário. Um massacre. Ele não respeitava ninguém", diz emocionada.

Mas o saldo final foi positivo. Não só porque rendeu um ótimo filme, mas também porque Maria Adelaide se sente reconciliada. "Fico muito perturbada e emocionada ao falar de Intensa Magia. Acho que agora está tudo certo", confirma.

Embora encantada com o filme e com as possibilidades de seus textos chegarem ao cinema, Maria Adelaide confessa que jamais escreveria roteiros. "Eu não teria paciência e disponibilidade para fazer 30, 40 tratamentos de um mesmo texto. Posso fazer até o pré-roteiro, se for o caso", admite.Por sua vez, o diretor e sua co-produtora Cristina Prochaska estão finalmente conseguindo levar a obra para as salas de cinema. Querido Estranho teve sua première no festival de Gramado em 2002 - onde Emílio Mello ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante - e desde então esperavam por uma chance de lançar o filme. "No Brasil temos um circuito muito pequeno. Agora, com o aumento das produções nacionais, fica cada vez mais difícil achar sala para lançar os filmes", explica.

Cristina, que interpretou uma das filhas no teatro, conta que Ricardo a proibiu de se envolver como atriz, trabalhando apenas como produtora. Também foi ela quem, desde o início, tinha Daniel Filho na cabeça para o papel do pai. "As pessoas achavam que éramos doidos, que o Daniel não aceitaria o papel", relembra. Mas ele, por sua vez, conta que aceitou fazer o filme sem saber como era o personagem. "Depois me assustei quando vi que o papel era tão grande, que tinha muitas falas", brinca.

Sem protagonizar um filme desde Romance da Empregada, de 1987, ele não se intimidou. "Atuar é como andar de bicicleta - a gente nunca esquece. Só não atuo mais porque não me chamam", conta o também cineasta, que atualmente finaliza seu segundo longa A Dona da Bola, que tem previsão de estréia ainda esse ano.