23/07/2026

“É impossível descrever nosso presente sem olhar para as redes sociais”, diz Laurent Cantet

Em entrevista ao Cineweb, diretor de "Entre os muros da escola" fala sobre seu novo filme, "@Arthur Rambo – Ódio Nas Redes", que chega nos cinemas nessa quinta, e tem como protagonista uma celebridade da internet que vê sua carreira destruída quando vêm à tona antigos tuítes preconceituosos.



Rabah Nait Oufella, em cena de
@Arthur Rambo – Ódio Nas Redes


@Arthur Rambo – Ódio Nas Redes, novo filme do francês Laurent Cantet (Entre os muros da escola), acessa o presente com urgência, por meio de um personagem controverso. O filme é inspirado numa figura real, Mehdi Meklat, um jovem que cresceu nos subúrbios de Paris e se tornou uma estrela do jornalismo, admirado pela esquerda e por jovens de todo país – especialmente filhos de imigrantes e outras minorias. Quando o rapaz estava no topo do sucesso, seus antigos tweets com conteúdo racista, misógino e homofóbico vieram à tona. Sua vida mudou, encontrou hostilidade e seu contrato para um livro foi cancelado.

Cantet conta que acompanhava Meklat com interesse, em seus programa de rádio e em textos na internet, e ficou surpreso quando aconteceu o escândalo dos comentários preconceituosos, escritos sob pseudônimo. “Eu me perguntava como isso tudo podia estar dentro da mesma cabeça? Eu não conseguia ligar uma imagem à outra. Começou a me interessar, então, o espaço que as redes sociais tomaram em nossas vidas, e é impossível descrever o presente sem pensar nelas”, diz em entrevista por chamada de vídeo ao Cineweb.

O cineasta, que ganhou uma Palma de Ouro, em 2008, com Entre os muros da escola, em seu cinema interessa-se por questões sociais – seja sobre a juventude da periferia, numa escola com poucos recursos, no filme premiado, ou nas implicações emocionais do desemprego em seu A Agenda. Em @Arthur Rambo – Ódio Nas Redes, Cantet constrói a queda de seu personagem, aqui chamado de Karim D., no tom de um thriller, acompanhando 48 horas de sua vida, a partir do momento que seus antigos posts se tornam públicos e ele é ligado ao pseudônimo Arthur Rambo.

O diretor explica que, especialmente ao realizar o filme, percebeu existir um peso enorme das palavras, e que tudo o que se diz no Twitter, por exemplo, não é esquecido. “Há uma responsabilidade no que se diz ou escreve na internet. As coisas ficam para sempre, são resgatadas mesmo que nem você se lembre delas. É preciso ser consciente do que se publica.”

Para interpretar Karim D., Cantet trouxe Rabah Nait Oufella, que conhecera mais de uma década atrás, quando o jovem estreou no cinema em seu Entre os muros da escola. O ator, que atuou em filmes como Raw e Nocturama, encara um personagem complexo e pouco simpático mesmo antes de que seu passado seja descoberto. “Eu acredito que ele encontrou o equilíbrio entre as duas coisas. Karim D. não é uma figura agradável, mas também não é um monstro, muito menos uma vítima.”




Laurent Cantet, diretor de
@Arthur Rambo – Ódio Nas Redes (Crédito: Divulgação)

Karim D. é uma personagem ambígua – “como o Arthur Rimbaud, a quem se refere o título”, destaca Cantet – que não deixa claro se é, ao fundo, o homem civilizado alçado à fama ou o jovem rebelde, desbocado e preconceituoso dos antigos comentários no Twitter. “Foi um dilema muito grande quanto ao tipo de distanciamento que devíamos tomar do personagem. Primeiramente, não o julgamos ou damos explicações. Ele é um enigma o tempo todo, até porque ele mesmo é uma pessoa confusa. Mesmo que o filme tenha alguma empatia por ele, não o exoneramos de sua culpa.”

Cantet, que assina o roteiro com Fanny Burdino e Samuel Doux, explica que contar a história das primeiras 48 horas do escândalo é uma maneira de trazer um certo frescor à narrativa, bem como de afastar o filme de se tornar uma cinebiografia de Meklat. “Queríamos uma certa liberdade em relação à história real. Além disso, ao nos concentramos num período curto, que acompanha a queda do personagem, também pudemos transmitir algo da urgência e da velocidade das redes sociais, a rapidez de como as coisas mudam.”

Em seu longa mais conhecido, e que também revelou Oufella, Entre os muros da escola, Cantet usou um dispositivo único, combinando documentário e encenação, e isso marcou sua carreira e sua maneira de filmar. “Cada filme traz em si sua própria maneira de ser rodado, um é diferente do outro, mas, ainda assim, a gente acumula experiências. Trago comigo elementos que ajudaram a fazer aquele longa ser tão bem sucedido. Nunca mais poderia fazer um filme como aquele e, de qualquer forma, sempre estarei sob sua influência.”