23/07/2026

Em “Garota Inflamável”, cineasta Elisa Mishto toca no tabu da saúde mental

Em entrevista, diretora comenta as dificuldades de conseguir financiamento para um filme ambientado numa clínica psiquiátrica e a procura de um equilíbrio entre a melancolia e o humor



Natalia Belitski e
Luisa-Céline Gaffron, em cena de "Garota Inflamável"


Para a cineasta ítalo-alemã Elisa Mishto, falar de saúde mental é tema natural. Filha de um casal de psicólogos, nascida na Itália e radicada na Alemanha, essa é uma questão que surge naturalmente, tanto que foi o tema de seu primeiro filme, o documentário Gli Stati della menteEstados da mente, em tradução livre – lançado em 2007. Seu novo filme, Garota Inflamável, sua primeira ficção, novamente a leva para dentro de uma clínica psiquiátrica.

“Cresci ouvindo sobre esse assunto a vida toda, sobre problemas mentais, sobre instituições. Meus pais fizeram parte de um movimento com o [psiquiatra Franco] Basaglia pela reforma psiquiátrica na Itália, então esse é um assunto que sempre me foi caro”, conta em entrevista ao Cineweb.

Para seu documentário, ela acompanhou o trabalho e pacientes de quatro hospitais italianos durante dois anos. “Conheci personagens e histórias fascinantes. Mas, para criar Garota Inflamável, inventei tudo. É um filme completamente ficcional, mas que parte do real, de situações que sei que aconteceram.”

Por tratar de um tema delicado como esse, Mishto confessa que não foi fácil conseguir financiamento para seu filme, pois falar de saúde mental ainda é um tabu. “As pessoas não queriam nem ler o roteiro, ou se liam, achavam depressivo, ou um filme que ninguém ia querer ver. É um tema importante, precisa ser discutido e o cinema pode contribuir muito para esse debate.”

A protagonista do longa é Julie (Natalia Belitski), uma jovem herdeira alemã com dificuldade em se adaptar à vida social, por isso, de tempos em tempos, é internada numa clínica. Ela também tem duas outras manias: usar sempre um par de luvas de látex amarelas e colocar fogo nas coisas.

“Eu acredito que muito do que definimos como doença mental é apenas a dificuldade que as pessoas podem ter de se adaptar às regras da sociedade. As pessoas que escolhem outro tipo de vida são rotuladas como loucas, desequilibradas, mas a questão, no fundo, é outra. Eu me sinto muito conectada com elas”, explica.
































Elisa Mishto diretora e roteirista de "Garota Inflamável"


Mishto, que também assina o roteiro, fala que tem a impressão de que passou a vida toda se preparando para esse filme. Mesmo contando com a assessoria de seus pais durante o processo da escrita, depois procurou a diretora de uma instituição em Berlim para ler o texto final. “Eu conheço bem como as clínicas funcionam na Itália, mas não na Alemanha, por isso pedi que ela me desse sua opinião e ela disse que estava tudo plausível”.

Outra questão cara ao roteiro é o equilíbrio entre as questões dos problemas psicológicos das personagens e o humor. Mishto encontra uma proporcionalidade entre o melancólico e também o engraçado. “Eu acredito que isso tem muito a ver com a forma como lido com as coisas. Sou muito sarcástica. Quando algo traumático ou chocante acontece comigo, eu tendo a reagir dessa forma.”

Mishto também conta que Um estranho no ninho foi, obviamente, uma influência, “mas não tanto quanto as pessoas imaginam.” Ela viu o filme uma única vez, com o pai, quando criança, mas o longa de Milos Forman nunca a abandonou. “Foi um filme que ficou comigo desde sempre. E é muito caro ao meu pai, por ele estar envolvido com a questão da reforma psiquiátrica, por isso é um filme muito importante para a minha família”.