Os desafios de levar o universo mágico de Maria Clara Machado para o cinema
A cineasta Rosane Svartman, que assina a adaptação de “Pluft, O Fantasminha”, que chega aos cinemas na próxima quinta (21), fala sobre a complexidade de filmar em 3D debaixo d’água e como atualizar o texto mantendo a poesia.
- Por Alysson Oliveira
- 15/07/2022
- Tempo de leitura 5 minutos

Rosane Svartman, nas filmagens de Pluft
Ao adaptar para o cinema a peça infantil Pluft, O Fantasminha, a cineasta, roteirista e teledramaturga Rosane Svartman sabia do desafio que tinha pela frente. Escrito por Maria Clara Machado e montado pela primeira vez em 1955, o texto é amado por gerações que cresceram assistindo ao espetáculo ou mesmo encenando-o na escola. “O peso da responsabilidade era enorme”, comenta a cineasta em entrevista ao Cineweb, prestes a estrear sua adaptação. “Mas, para mim, era uma obsessão, uma paixão. Eu tinha que fazer, mesmo correndo risco.”
Agora, Svartman se sente tranquila. As exibições até aqui, em pré-estreias e para imprensa, segundo ela, têm sido bem-sucedidas, “mas o termômetro mesmo vai ser só quando o filme estrear”. E a diretora parece não se importar em correr riscos, pois além de trabalhar com um texto clássico e reverenciado resolveu fazer o filme em 3D, com cenas filmadas debaixo d’água.
“Fiquei pensando na melhor forma de contar essa história, e o 3D, nesse filme em específico, creio que ajudaria muito. É um filme muito sensorial. Não dava para fazer o fantasma com um criança transparente pendurada por fios. A questão é que nosso orçamento não podia ser alto, e o 3D iria encarecer, então tentei trabalhar no menor ‘grande’ orçamento que consegui para fazer muito bem-feito.” Segundo a produtora, Clélia Bessa, o filme ficou em torno de R$ 13 milhões.
Ela também conta que não queria usar computação gráfica pesada, e diz que o filme é “uma volta às origens do cinema, algo como os truques de Méliès”. Explica-se: os atores que interpretam os personagens fantasmas – Pluft (Nicolas Cruz), sua Mãe (Fabíula Nascimento) e Tio Gerúndio (José Lavigne) – filmaram suas cenas dentro de uma piscina, num esquema especial, para dar aquele ar etéreo de fantasmas que flutuam.
Então, além da complexidade de filmar em 3D, que exige um trabalho de fotografia e da equipe técnica especializada, Svartman também filmou debaixo d’água. “Era um processo muito complexo, e também foi preciso muito preparo físico do elenco para filmar na piscina. Para isso, fizemos um trabalho muito bem organizado e planejado, para não exigir do elenco e da equipe mais que o necessário, e também pelo orçamento.”
Além disso, o elenco de personagens humanos – que inclui a menina Maribel (Lola Belli) e o Pirata da Perna de Pau (Juliano Cazarré) – e fantasmas nunca estiveram no mesmo set filmando. Toda a interação entre eles, que se vê em cena, foi feita na pós-produção. “As duas crianças [Nicolas e Lola] se encontraram apenas no ensaio, quando fizemos toda a marcação e preparação. Na piscina, Pluft interagia com bonecos [que estavam no lugar de Maribel], e Lola com um adulto [no lugar do fantasminha]”.
O roteiro, é assinado por Svartman, Lavigne e Cacá Mourthé, que, segundo Bessa, é a herdeira de Maria Clara Machado, “não apenas dos textos, mas também intelectual e artística.” Foi ela quem precisou autorizar a adaptação, e Svartman teve de a convencer de que valeria a pena um novo filme. “Foi quando pensamos no 3D, como uma maneira de manter a magia, algo sensorial, que ela aceitou a ideia de um novo filme. Ela não queria um menino transparente pendurado por um fio, que era exatamente o que eu tinha pensado originalmente”, conta a diretora, rindo.

Nicolas Cruz, como Pluft, em cena filmada dentro de uma piscina
Svartman, que tem em seu currículo também duas das mais bem-sucedidas temporadas de Malhação (2012-2013 e 2014-2015), além da novela Totalmente Demais (2015-2016), outro sucesso, explica que, mesmo respeitando-se a obra de Maria Clara, ela e os outros roteiristas fizeram algumas adaptações. “Pluft tem mais protagonismo no filme do que na peça, e Maribel se tornou mais empoderada, ela enfrenta o Pirata, por exemplo, não é uma criança passiva. Algo, talvez, pouco possível quando a peça foi escrita. Fizemos mudanças, mas, no fundo, mantendo a poesia do texto original.”
Para a diretora, tanto o filme quanto a peça trazem uma mensagem bastante contemporânea: “É preciso aceitar o diferente.” Pluft tem medo de gente e Maribel, de fantasma, mas, com o tempo, acabam se tornando grandes amigos. “É preciso tentar entender o outro. Se há um medo, num primeiro contato, é preciso enfrentar isso e se aproximar daqueles que são diferentes da gente.”
Para a legião adulta de fãs da peça, Svartman também conta que não os deixou de fora. “Eu tinha esse público em mente o tempo todo – até porque faço parte dele também. Eu fiz o filme pensando nessas pessoas. E acho que muito adulto pode ir ao cinema que não irá se decepcionar.”
Agora, com o lançamento de Pluft, a diretora embarca naquilo que Bessa chama de “uma nova obsessão”: filmar outra peça de Maria Clara, O Cavalinho Azul, de 1960, e já adaptado para o cinema, em 1984, por Eduardo Escorel. “Ela é teimosa, e só vai parar quando conseguir fazer o filme”, conta a produtora entre risos.
