23/07/2026

Em “Diários de Otsoga”, Miguel Gomes investiga a ideia de comunidade

Diretor fala da experiência de rodar durante a pandemia e também de seu sonho de adaptar “Os Sertões” para o cinema



Miguel Gomes (com o guarda-chuva) e Maureen Fazendeiro (de capa amarela) no set de "Diários de Otsoga" (Divulgação)

Agosto é, por pura coincidência, um mês importante na filmografia do cineasta português Miguel Gomes. Seu segundo longa, Aquele querido mês de agosto, de 2008, o colocou de vez no mapa cinematográfico mundial. Agora, seu novo trabalho, Diários de Otsoga – traz o nome do mês ao contrário, espelhando a montagem da narrativa, que começa pelo final da história e progride até o começo.

Em entrevista, por chamada de vídeo, ao Cineweb o diretor confessa que isso foi obra do acaso. “Estávamos num momento de confinamento. Era maio de 2020 e, em visita a um casal de amigos, a atriz Crista Alfaiate e o seu companheiro, Rui Monteiro, que é técnico de iluminação, comentamos como o Ministério da Cultura estava gerindo a crise. Era de uma forma péssima. O filme nasceu disso, da vontade de estarmos juntos e poder voltar a trabalhar”. Codirigido pela companheira de Gomes, Maureen Fazendeiro, o longa começou a ser produzido e foi filmado “assim, que possível, o que aconteceu de ser no mês de agosto. O que resultou num longa de verão. Se fosse em outro momento, seria de inverno”.

Diários de Otsoga traz apenas três personagens – interpretados por Crista Alfaiate, Carloto Cotta e João Nunes Monteiro –, que ficam isolados numa casa de campo em Sintra, junto com a equipe do filme – num total de cerca de 20 pessoas. Como em Aquele querido mês de agosto, o novo trabalho também exibe os bastidores das filmagens em si – como se fosse um making of acoplado à narrativa. “Desde o princípio, pensamos em tudo misturado. É um filme de família. Dirigi com minha companheira, e foi algo que nunca tínhamos feito antes.” No momento, Fazendeiro está na Ásia pesquisando locações para o próximo filme do cineasta.

Gomes explica que, conforme mostra o longa, dentro daquela propriedade o elenco e a equipe viveram um confinamento. “Todos fizemos testes antes de entrar lá e, como não saíamos, não haveria contaminação. Foram seis semanas, sendo que filmamos em quatro.”Ao trazer bastidores da filmagem, o longa incorpora conflitos também, afinal, como diz o diretor “nem tudo foi tão idílico. As pessoas trouxeram suas próprias personalidades, como vemos em algumas cenas. E disputas vão acontecer quando se vive junto. Aqui queríamos explorar a ideia de comunidade com ou sem covid.”

O diretor fala que, para esse projeto tão peculiar, cercou-se de pessoas com quem já trabalhou, de quem era próximo, mas também convidou profissionais com quem nunca havia trabalhado. “É um filme família. É também encenar uma experiência de intimidade. Acabou sendo como um prolongamento de minha vida com Maureen, que estava grávida na época.”




Em cena do filme, equipe se prepara para filmar durante a pandemia (Divulgação)

Esse foi o longa mais barato da filmografia do cineasta – custou menos até do que seu primeiro longa, A cara que mereces, de 2004. “Não havia tempo para captação de recursos. Foi uma aposta dos produtores e da RTP, a televisão pública de Portugal. Filmamos pouco e, durante as filmagens, também fomos planejando a montagem.”

O próximo filme do cineasta será na Ásia, mas ele não abandonou a ideia de filmar o clássico brasileiro Os Sertões, de Euclides da Cunha. “Eu nunca quis tanto fazer uma coisa em toda a minha vida em termos profissionais.” Ele conta que já havia começado a captar recursos para rodar o filme, mas uma série de problemas impediram a realização, inclusive a pandemia. “Haverá cenas enormes, com mais de mil pessoas no set. Não há condições de fazer isso enquanto houver pandemia.”

Com o passar do tempo, Gomes explica que alguns dos prazos de financiamentos venceram e será necessário começar a captar recursos novamente. “É difícil movimentar a produção no Brasil, especialmente por conta do governo que vocês têm no momento. O roteiro está pronto e tenho muita vontade de fazer Os Sertões. Espero que um dia seja possível”