Gabriel Martins e os sonhos infantis no premiado “Marte Um”
Exibido numa sessão emocionante no Festival de Gramado, do qual saiu com o Prêmio Especial do Júri, entre outros, o longa, que estreia na quinta (25), traz como protagonista uma família negra em Contagem (MG)
- Por Alysson Oliveira
- 23/08/2022
- Tempo de leitura 4 minutos

Gabriel Martins, estreia na direção solo com "Marte Um", do qual também é roteirista (Crédito: Divulgação)
Do quarto de hotel em Gramado, poucos dias depois da exibição de Marte Um no festival, o diretor e roteirista do filme, Gabriel Martins, em videochamada com o Cineweb, lembra de sua infância, quando sonhava ser cineasta. “É estranho, porque nem tinha sala de cinema perto da minha casa, e eu queria trabalhar com isso,” conta, se divertindo e prestes a lançar, em circuito, seu primeiro longa solo. No filme, Martins fala exatamente disso: do poder do sonho de uma criança.
No Festival de Gramado, que se encerrou em 20 de agosto, Marte Um ganhou, entre outros, o Prêmio Especial do Júri, por “trazer de volta o afeto”, uma justificativa que vai ao encontro da emocionante sessão do longa no festival. “As pessoas estavam visivelmente emocionadas, e fico feliz que o filme seja esse veículo”, comenta o diretor, sem esconder o orgulho de seu longa, que já foi exibido, também, nos EUA e França, segundo ele, provocando a mesma reação.
“O filme tem um potencial de comunicação muito grande, em sua essência, atravessa cultura, raça, gênero, idade. Eu pude ver e sentir isso mesmo nas sessões fora do Brasil”, conta Martins. O longa tem como protagonistas uma família negra de Contagem (MG), mesma cidade do diretor. E, como uma espécie de centro organizador da trama, está Deivinho (Cícero Lucas), o caçula, que sonha ser astrofísico e, em 2030, participar de uma missão que irá colonizar Marte.
A narrativa é pautada pela relação familiar e os dramas e dilemas de cada membro do clã. O patriarca, Wellington (Carlos Francisco), é porteiro de um prédio, e luta, com sucesso, contra o alcoolismo. A mãe, Tércia (Rejane Faria), depois de um incidente, acredita estar sofrendo uma maldição. E, por fim, há a filha mais velha, Eunice (Camilla Damião), estudante de Direito que planeja ir morar com a namorada, mas precisa criar coragem para contar aos pais. Tudo isso se passa no final de 2018, pouco depois da eleição de Jair Bolsonaro.

Martins e o produtor Thiago Macêdo Correia no debate sobre o filme no Festival de Gramado (Crédito: Neusa Barbosa)
“Comecei a escrever o roteiro em 2014, na época da Copa do Mundo, e fui fazendo modificações, acrescentando e tirando coisas novas, que refletissem o Brasil”, explica o diretor, que tem no currículo o longa No coração do mundo, de 2019, coridigido por Maurílio Martins, que, apesar do sobrenome, não é seu parente. “Marte Um vem de um desejo de falar do Brasil, da classe trabalhadora, de seus sonhos e aspirações.”
O contexto do filme veio, enfim, após as eleições de 2018, quando, para Martins, o país entrou numa crise de identidade, que começara em 2016, com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, aprofundando-se nos anos seguintes. “Atualmente, precisamos pensar no que somos, na reconstrução do país. Por isso também é importante trazer como protagonista uma família negra, fazendo uma representação contemporânea e complexa dessas pessoas.”
Não é apenas nesse filme, no entanto, que Martins se interessou em retratar personagens negros dessa forma, uma tendência cada vez mais presente no cinema brasileiro – em especial nos curtas, ele aponta. “Há muitas histórias interessantes com personagens negros, que mostram a diversidade do país.”
Marte Um é mais um projeto da produtora mineira Filmes de Plástico, criada em 2019 por Martins e os diretores André Novais Oliveira, Maurílio Martins e pelo produtor Thiago Macêdo Correia. A empresa tem em seu currículo também filmes como Temporada, de Novais Oliveira, e No Coração do Mundo. Os longas e curtas são marcados por sua qualidade artística e técnica, fazendo sucesso não apenas em festivais como também no circuito comercial.
“São filmes de baixo orçamento, mas que nos esforçamos para ter qualidade, serem bem feitos, mas mais do que isso, se comunicar com o público. Tentamos conciliar as demandas artísticas e da produção. Os filmes têm que ser bons, pois eles ficam para sempre,” defende Martins, que além de produtor, roteirista e diretor também cuida das redes sociais da Filmes de Plástico. “A gente precisa assumir várias funções, e sempre é um aprendizado. A gente amadurece a cada filme.”
