23/07/2026

Maria Bethânia, o farol de lucidez

Carlos Jardim, diretor do novo documentário sobre a cantora, que chega aos cinemas nessa 5a (1/8), fala, em entrevista ao Cineweb, sobre ser um fã que fez um filme sobre seu ídolo



Documentário resgata imagens de shows de Maria Bethânia (Crédito: Divulgação)

A história do jornalista, e agora documentarista, Carlos Jardim com Maria Bethânia é longa, começou na adolescência quando se tornou fã da cantora. Desde então, a acompanhou em shows, fez visita a camarins, e quando se tornou jornalista escreveu diversas matérias sobre e com ela. Ele se define como um obcecado. Por isso, realizar o documentário Maria – Ninguém sabe quem eu sou foi quase que um caminho natural.

Chefe de redação do canal Globo News, Jardim foi um dos responsáveis pelo especial sobre a cantora, exibido na televisão quando ela completou 70 anos, em 2016. Uma colega sugeriu que ele fizesse um filme sobre Bethânia já que conhecia tão bem a carreira dela, com quem tinha uma relação profissional. “Mas como fazer um documentário sobre ela com tantos que já existem, e tão bons e completos”, explica o diretor.

Ele se refere a filmes como Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda, de Andrucha Waddington; Fevereiros, de Marcio Debellian; e Maria Bethânia: Música é perfume, do francês Georges Gachott, só para ficar nos mais recentes. Ainda assim, Jardim pensou em fazer um documentário com aquilo que ele faz melhor: entrevista. Maria – Ninguém sabe quem eu sou é ordenado por uma longa entrevista exclusiva da cantora, que repassa toda sua carreira.

“Era um desafio, mas pensei em fazer algo como Bethânia por Bethânia. Um único encontro, com perguntas ligadas também às imagens de arquivo que construiriam o filme.”

A entrevista foi gravada numa tarde, ao longo de 2 horas, em novembro de 2020, no teatro do hotel Copacabana Palace. A escolha do local foi estratégica: “o palco é um lugar sagrado para ela. Não podíamos ter escolhido um cenário melhor.”























Bethânia e Carlos Jardim nas filmagens do documentário (Crédito: Divulgação)

A objetividade de Bethânia nas respostas foi importante para o diretor na condução da entrevista, mas ele também ressalta: “Ela não chegou com as respostas prontas. É possível perceber a espontaneidade dela. Ela está inteira e verdadeira no filme, foi uma conversa franca”.

Jardim conta que foi preciso fazer apenas pesquisa de imagens, pois ele já sabia tudo sobre a vida da cantora. Nesse sentido, tentou utilizar gravações que circularam pouco. “Bethânia tem um grupo de fãs muito jovens, muito ligados na internet, que colocam diversas apresentações dela nos sites. Por isso é difícil encontrar cenas pouco conhecidas, pouco vistas”. Por esse motivo, por exemplo, a participação da cantora cantando Carcará, em O Desafio, de Paulo César Saraceni, ficou de fora. O diretor priorizou outra cena de arquivo.

Além do filme, Jardim também está lançando um livro: Ninguém sabe quem sou eu (a Bethânia agora sabe!). No livro, explica, conta a história de amor não correspondida entre ele e Bethânia. “Eu resgato minha trajetória com ela, desde quando me tornei fã, até o presente, passando pelos encontros como admirador e também como jornalista, quando fiz matérias e entrevistas com ela.”

Com tanta bagagem e momentos com a artista, Jardim acredita que ela seja “sempre a mesma pessoa, mas nunca igual. Ela sempre será relevante e expressiva. Como ela é muito reservada, não gosta de dar entrevistas. Sempre que ela fala algo, as pessoas param para a escutar. No mundo de hoje, onde tudo é superficial, ela é um farol de lucidez na cultura brasileira.”