Liz Gill: irlandesa com molho brasileiro
- Por Neusa Barbosa
- 06/08/2004
- Tempo de leitura 6 minutos
Para a diretora irlandesa Liz Gill, diretora de Todas as Cores do Amor, vir ao Brasil foi uma espécie de ritual. Especialmente pelo fato de ter usado na trilha quatro músicas de Tom Jobim - Desafinado, Lamento no Morro, Águas de Março e Amor em Paz. A viagem foi um ritual que ela cumpriu passando pelo Rio de Janeiro onde nasceu o compositor, mas também por São Paulo e o interior de Goiás, onde uma amiga filmava um documentário, em meados de abril de 2004. Moradora na cinzenta Dublin, a diretora contemplava ainda emocionada o mar de Copacabana, quando detalhou, nesta entrevista, o processo de gestação desta que foi sua primeira experiência solo como diretora e roteirista ao mesmo tempo (como diretora, é a segunda), e as razões de sua escolha das músicas de Jobim. Cineweb - Você trabalhou um bom tempo como assistente de direção, como o famoso Sunday Bloody Sunday, premiado em Berlim, antes de partir para um trabalho seu. Como foi esta passagem?
Liz Gill Foi muito intenso aprender vendo outros diretores trabalhando, até porque tive muita sorte de trabalhar com alguns diretores muito bons. Mas claro que aprendi também o que não fazer trabalhando com alguns outros muito ruins. Cineweb - Como foi escrever e dirigir ao mesmo tempo?
Liz - Foi maravilhoso, porque tive algum tempo para trabalhar no roteiro e recebi todo o apoio do produtor e outros membros da equipe. Esse apoio é importante, porque leva muito tempo para levantar o dinheiro e desenvolver o script. Por outro lado, há uma grande vantagem na liberdade que se tem trabalhando na própria história porque, se algo não está funcionando, você pode mudá-la. E, quando você está dirigindo, você sabe exatamente o que está querendo. Não existe aquele conflito entre um diretor que quer alguma coisa diferente do roteirista ou do produtor. O que conseguimos no final foi mais ou menos o que queríamos desde o início. Cineweb - Sinto que o filme flui com um certo ritmo e leveza, embora haja situações mais dramáticas, e nunca perde de vista a história que quer dizer.
Liz - Obrigada. É engraçado porque, na verdade, as únicas cenas do filme que estão no mesmo lugar que estavam no roteiro inicial são a primeira e a última. Na sala de montagem, tudo o mais foi mudado porque estávamos tentando encontrar essa leveza e criar o ritmo. Por causa do jeito que a história andava, no final mudamos uma série de coisas na sala de montagem, que não poderíamos ter imaginado no roteiro. Cineweb - Provavelmente essa foi uma boa decisão porque tudo parece estar funcionando. Mas gostaria de perguntar sobre o uso de várias músicas brasileiras na trilha. Como conheceu estas canções de Tom Jobim?
Liz - Chegou às minhas mãos há uns sete, oito anos atrás, uma coletânea de Jobim. Adorei tudo e não parava de ouvir. Estava escutando-o o tempo todo enquanto escrevia o roteiro e realmente senti que queria fazer um filme que fosse como essa música. Que fosse alegre, triste, engraçado. Não estou dizendo que conseguimos. Tenho um enorme respeito pela música de Jobim. É impressionante como ela soa, tão leve, tão fácil e no entanto, musicalmente é tão sofisticada. Quando fomos gravar a trilha, chamamos músicos muito experientes, de formação jazzística. Mesmo assim, quando disse a eles que pretendia usar Águas de Março, eles baquearam. Cineweb - Acharam muito difícil?
Liz É. Quando você ouve a música, ela parece tão leve, tão fácil, mas é complicada de tocar. Mas este foi exatamente o sentimento inspirador enquanto estávamos fazendo o filme. Cineweb - Por que você decidiu usar algumas canções em português?
Liz - Eu adoro o som da língua. É tão bonita! Tem aquele sentimento bonito, sexy, poético, terno...Gostaria também de falar da sorte que tivemos. Escrevemos uma carta à sra. Ana Jobim, dizendo o quanto adorávamos aquelas músicas, que estávamos fazendo um filme de baixo orçamento e do quanto gostaríamos de poder usá-las, mas não tínhamos dinheiro. Ela foi tão generosa! Cineweb - Ela autorizou o uso sem nenhum custo?
Liz - Não, mas por uma quantia muito pequena. Cineweb - Em seu filme, várias histórias envolvem gays. Eu diria até que os romances mais felizes são os deles. Qual o seu interesse neste universo?
Liz - Isso é engraçado porque não foi intencional. Parte da minha intenção aí foi evitar formar um gueto ou estereotipar os gays e mostrar que o amor é igual para todo mundo. Não importa de que cor ou sexo você seja, nós todos passamos pelas mesmas emoções. Essa era a idéia. Nós todos temos de lidar com perdas, aprendemos, crescemos, evoluímos ou continuamos repetindo os mesmos erros indefinidamente. Cineweb - É um tipo de liberdade, certo?
Liz - Exatamente. Alguém me disse - não sei se é verdade - que meu filme mantém uma atitude tranqüila diante de todos os tipos de sexualidade. Cineweb - Acho que se pode dizer isso. Com certeza, não é uma visão militante. Por isso fiquei curiosa a respeito, queria saber se foi uma coisa que aconteceu naturalmente durante a escrita do roteiro ou foi intencional.
Liz - Não foi intencional. Cineweb - O filme foi lançado em muitos países até agora?
Liz - Até agora, só foi lançado na Irlanda. Na verdade, o primeiro país a comprar o filme foi o Brasil. Será lançado aqui em primeiro lugar. A esta altura, também já foi vendido para os EUA, Inglaterra, Itália, Espanha, Israel, Polônia, Taiwan, Finlândia, Suécia. Mas o mais excitante com certeza é mostrá-lo no Brasil. Estávamos muito nervosos por causa disso. Cineweb - Por quê?
Liz - Ah, esta música de Jobim é tão sagrada que espero que, gostando ou não do filme, os brasileiros não se sintam ofendidos. Cineweb - Acho que não há nenhum motivo para isso. É mais uma homenagem.
Liz - Essa foi a intenção. Cineweb - Dá para sentir também que o esforço da cantora (Lisa Hannigan) para cantar Desafinado e Águas de Março em português com uma boa pronúncia.
Liz - Ela vai ficar feliz de saber disso! Cineweb - Como está sendo sua experiência de visitar o Brasil?
Liz - Sempre quis vir ao Brasil. Estou aqui em Copacabana, olhando o mar e sinto como se estivesse sonhando! Estar no Rio, aliás, é como uma peregrinação. É como vir a Meca! Cineweb - Você já está trabalhando num novo filme?
Liz - Sim. É uma nova comédia romântica chamada April Fools. Em linhas gerais, é sobre dois anjos que recebem a missão de unir duas pessoas no amor. Mas eles levam três vidas para conseguir...Cineweb 5-7-04
Liz Gill Foi muito intenso aprender vendo outros diretores trabalhando, até porque tive muita sorte de trabalhar com alguns diretores muito bons. Mas claro que aprendi também o que não fazer trabalhando com alguns outros muito ruins. Cineweb - Como foi escrever e dirigir ao mesmo tempo?
Liz - Foi maravilhoso, porque tive algum tempo para trabalhar no roteiro e recebi todo o apoio do produtor e outros membros da equipe. Esse apoio é importante, porque leva muito tempo para levantar o dinheiro e desenvolver o script. Por outro lado, há uma grande vantagem na liberdade que se tem trabalhando na própria história porque, se algo não está funcionando, você pode mudá-la. E, quando você está dirigindo, você sabe exatamente o que está querendo. Não existe aquele conflito entre um diretor que quer alguma coisa diferente do roteirista ou do produtor. O que conseguimos no final foi mais ou menos o que queríamos desde o início. Cineweb - Sinto que o filme flui com um certo ritmo e leveza, embora haja situações mais dramáticas, e nunca perde de vista a história que quer dizer.
Liz - Obrigada. É engraçado porque, na verdade, as únicas cenas do filme que estão no mesmo lugar que estavam no roteiro inicial são a primeira e a última. Na sala de montagem, tudo o mais foi mudado porque estávamos tentando encontrar essa leveza e criar o ritmo. Por causa do jeito que a história andava, no final mudamos uma série de coisas na sala de montagem, que não poderíamos ter imaginado no roteiro. Cineweb - Provavelmente essa foi uma boa decisão porque tudo parece estar funcionando. Mas gostaria de perguntar sobre o uso de várias músicas brasileiras na trilha. Como conheceu estas canções de Tom Jobim?
Liz - Chegou às minhas mãos há uns sete, oito anos atrás, uma coletânea de Jobim. Adorei tudo e não parava de ouvir. Estava escutando-o o tempo todo enquanto escrevia o roteiro e realmente senti que queria fazer um filme que fosse como essa música. Que fosse alegre, triste, engraçado. Não estou dizendo que conseguimos. Tenho um enorme respeito pela música de Jobim. É impressionante como ela soa, tão leve, tão fácil e no entanto, musicalmente é tão sofisticada. Quando fomos gravar a trilha, chamamos músicos muito experientes, de formação jazzística. Mesmo assim, quando disse a eles que pretendia usar Águas de Março, eles baquearam. Cineweb - Acharam muito difícil?
Liz É. Quando você ouve a música, ela parece tão leve, tão fácil, mas é complicada de tocar. Mas este foi exatamente o sentimento inspirador enquanto estávamos fazendo o filme. Cineweb - Por que você decidiu usar algumas canções em português?
Liz - Eu adoro o som da língua. É tão bonita! Tem aquele sentimento bonito, sexy, poético, terno...Gostaria também de falar da sorte que tivemos. Escrevemos uma carta à sra. Ana Jobim, dizendo o quanto adorávamos aquelas músicas, que estávamos fazendo um filme de baixo orçamento e do quanto gostaríamos de poder usá-las, mas não tínhamos dinheiro. Ela foi tão generosa! Cineweb - Ela autorizou o uso sem nenhum custo?
Liz - Não, mas por uma quantia muito pequena. Cineweb - Em seu filme, várias histórias envolvem gays. Eu diria até que os romances mais felizes são os deles. Qual o seu interesse neste universo?
Liz - Isso é engraçado porque não foi intencional. Parte da minha intenção aí foi evitar formar um gueto ou estereotipar os gays e mostrar que o amor é igual para todo mundo. Não importa de que cor ou sexo você seja, nós todos passamos pelas mesmas emoções. Essa era a idéia. Nós todos temos de lidar com perdas, aprendemos, crescemos, evoluímos ou continuamos repetindo os mesmos erros indefinidamente. Cineweb - É um tipo de liberdade, certo?
Liz - Exatamente. Alguém me disse - não sei se é verdade - que meu filme mantém uma atitude tranqüila diante de todos os tipos de sexualidade. Cineweb - Acho que se pode dizer isso. Com certeza, não é uma visão militante. Por isso fiquei curiosa a respeito, queria saber se foi uma coisa que aconteceu naturalmente durante a escrita do roteiro ou foi intencional.
Liz - Não foi intencional. Cineweb - O filme foi lançado em muitos países até agora?
Liz - Até agora, só foi lançado na Irlanda. Na verdade, o primeiro país a comprar o filme foi o Brasil. Será lançado aqui em primeiro lugar. A esta altura, também já foi vendido para os EUA, Inglaterra, Itália, Espanha, Israel, Polônia, Taiwan, Finlândia, Suécia. Mas o mais excitante com certeza é mostrá-lo no Brasil. Estávamos muito nervosos por causa disso. Cineweb - Por quê?
Liz - Ah, esta música de Jobim é tão sagrada que espero que, gostando ou não do filme, os brasileiros não se sintam ofendidos. Cineweb - Acho que não há nenhum motivo para isso. É mais uma homenagem.
Liz - Essa foi a intenção. Cineweb - Dá para sentir também que o esforço da cantora (Lisa Hannigan) para cantar Desafinado e Águas de Março em português com uma boa pronúncia.
Liz - Ela vai ficar feliz de saber disso! Cineweb - Como está sendo sua experiência de visitar o Brasil?
Liz - Sempre quis vir ao Brasil. Estou aqui em Copacabana, olhando o mar e sinto como se estivesse sonhando! Estar no Rio, aliás, é como uma peregrinação. É como vir a Meca! Cineweb - Você já está trabalhando num novo filme?
Liz - Sim. É uma nova comédia romântica chamada April Fools. Em linhas gerais, é sobre dois anjos que recebem a missão de unir duas pessoas no amor. Mas eles levam três vidas para conseguir...Cineweb 5-7-04
