23/07/2026

Aimar Labaki estreia na direção de longas com “Cordialmente Teus”

Em entrevista, o dramaturgo, roteirista e cineasta e a produtora e atriz Liz Reis falam sobre o filme que investiga a história do Brasil por meio de tramas de violência e opressão. O filme estreia, nos cinemas, nessa quinta (22/09)



Liz Reis, produtora e atriz de Cordialmente Teus, dirigido e escrito por Aimar Labaki (Crédito: Divulgação)


Premiado dramaturgo, autor e diretor de peças de teatro e roteirista de telenovelas, Aimar Labaki estreia na direção no cinema com Cordialmente Teus, um longa que se desloca no tempo e espaço para fazer um retrato do Brasil contemporâneo, marcado por uma violência endêmica e histórica. O filme é dividido em segmentos que retratam momentos da história do Brasil por meio de episódios nas vidas de pessoas comuns, começando no período colonial e seguindo até um futuro distópico.

“Nossa sociedade começou com tortura, e essa continuou sempre na nossa história. As três últimas histórias do filme são sobre tortura. Um dos grandes problemas do Brasil é que a ditadura nunca foi julgada, e isso se reflete na impunidade até hoje. Se a Constituição [de 1988], o Fernando Henrique Cardoso ou o Lula tivessem julgado os torturadores, as coisas não estariam desse jeito”, diz o diretor, que também assina o roteiro do longa.

“Nossa sociedade começou com a tortura, e essa continua”, conta, e ilustra a frase citando um dos trechos do filme, no qual um índio (Anderson Kari Baia) é torturado por um português (Igor Kovalewski). Cordialmente Teus é marcado por esses momentos de violência física e psicológica, personagens atormentados, tomados por um turbilhão da história. “Tudo isso está ligado ao terror que vivemos hoje”.

Labaki conta que o roteiro partiu de uma peça curta, feita para um festival. Ao transpô-lo para o cinema, no entanto, sua principal preocupação foi de não se ater ao texto, mas à ideia dos cortes temporais. Uma de suas influências foi o cineasta Sérgio Bianchi e seu Cronicamente Inviável. “Eu trabalhei com ele no roteiro de Jogo das Decapitações, e aprendi muito sobre seu cinema. Sou um admirador da obra dele.”

Homem de teatro, Labaki trabalhou com cinema publicitário e também produção de elenco de filmes como Feliz Ano Velho, de Roberto Gervitz, de 1987, e também em filmes de Ugo Giorgetti, além de trabalhar como preparador de elenco para Walter Hugo Khouri. “Sempre quis fazer cinema, mas precisava ganhar dinheiro para me sustentar, então fui ser escritor de teatro e televisão.”

A ideia de finalmente estrear na direção de um longa veio de Liz Reis, produtora e atriz, que conheceu Labaki numa oficina de roteiro em São Paulo. “Como produtora, eu queria aprender mais sobre os roteiros, e fui participar do curso. Quando ficamos amigos, perguntei se ele tinha algum roteiro já escrito”. Ao lado de Ricardo Aidar, ela assina a produção de Cordialmente Teus.

Quando o filme finalmente ia sair do papel, Reis pensou em fazer uma personagem pequena, uma das coadjuvantes, mas Labaki insistiu que ela protagonizasse um dos segmentos do longa, que se passa no final do século XIX, e ela contracena com Clovys Torres.

“Quando o Aimar disse qual personagem queria para mim, eu me desesperei”, conta entre risos. “Ela é muito grande, complexa, além de ser uma personagem de época. Mas ele é muito cuidadoso na direção de atores, e eu também contei com um preparador corporal, o Beto Amorim, que me ajudou a encontrar o corpo dessa personagem. Era como se ela precisasse flutuar.”

Cordialmente Teus é a primeira ficção que Reis produz, mas ela tem uma carreira bastante ativa também com produtora e diretora de documentários, que inclui a série Abre a Coxia, para o canal Arte 1, que dirigiu, e Acesso: Seleção Brasileira de Vôlei Feminino, que assina como produtora executiva.

“Eu comecei a produzir porque também queria atuar, e, agora, acabei me tornando mais produtora do que atriz”, comenta. Mas também adianta que já tem outros trabalhos previstos na frente das câmeras, como um filme inédito dirigido por Dida Andrade e Andradina Azevedo.

Produzir Cordialmente Teus foi um desafio. As filmagens estavam previstas para começar em março de 2020, mas uma semana antes foi declarada a pandemia, e a produção teve de ser adiada. “Já estava tudo certo, figurino, elenco, cenários... Tínhamos alugado um casarão em São Paulo para servir de locação. E não havia outra saída, senão esperar.”

O filme só pode ser rodado em novembro daquele mesmo ano, seguindo todos os protocolos da época. O atraso das filmagens, no entanto, acabou sendo usado a favor do lançamento do longa. Tanto Reis quanto Labaki concordam que Cordialmente Teus deveria chegar aos cinemas próximo das eleições de 2022.

“Eu gostaria que as pessoas saíssem do cinema pensando sobre os dias de hoje, mas também sobre o que querem para o futuro do país”, explica o diretor. “Se não mexer na raiz não adianta nada escrever uma nova Constituição.”