23/07/2026

Viola Davis coloca as mulheres pretas na dianteira em “A Mulher Rei”

Visitando pela primeira vez o Brasil para o lançamento do drama de ação histórico, que estreia nesta quinta (22), a atriz norte-americana resgata uma história real e pouco conhecida das guerreiras intrépidas do reino do Daomé no século XIX, pondo em evidência o protagonismo feminino preto.

Vilola Davis e a diretora Gina Prince-Bythewood

Pela primeira vez no Brasil, para o lançamento de seu filme A Mulher Rei, de Gina Prince-Bythewood, a atriz Viola Davis demonstra empolgação com o país. “Estamos passando muito bem com a comida e a paisagem - ela nos tirou o fôlego! Estou impressionada com a profundidade da cultura também. E vocês são muito alegres, estão sempre fazendo festa”, afirma ela, na abertura da coletiva de imprensa, nesta segunda (19), no Rio de Janeiro, que foi transmitida ao resto do Brasil via Zoom, e em que ela foi acompanhada pelo marido e produtor, Julius Tennon.

Viola assume um tom mais sério quando indagada sobre a conexão do filme, que retrata a saga das guerreiras Agojie, do antigo reino do Daomé - hoje Benin - no século XIX, com o Brasil. “Doze milhões de escravos vieram de todas as partes da África e a primeira parada era o Brasil. Mas, de algum modo, nós, afrodescendentes, não sentimos que estamos conectados. Viemos da mesma origem e, apesar disso, há como que um mistério entre nós. Acho que este filme vem consolidar essa conexão que todos nós temos”.


Sobre as dificuldades da produção de um filme com esta temática em Hollywood, é Tennon quem fala: “Levamos 7 anos para produzir este filme. Foi duríssimo e queríamos honrar estas pessoas Queremos tocar as pessoas da diáspora africana e que este filme crie uma mudança”.

A importância de ter um grupo de mulheres pretas como protagonistas na tela é salientada por Viola: “As mulheres pretas aqui têm uma chance de serem vistas de um modo como nunca foram vistas antes, Nós não somos vistas como valorosas. Mas, com as Agojie, é o contrário, tudo nelas vêm de um lugar de valor, sem terem que ser homens, nem ter que haver uma presença branca. Isso vai significar tudo para nós.”

Sobre as Agojie, Viola conta que as descobriu quando foi fazer o filme. Ela sempre havia ouvido falar das amazonas, mas ressalta que este “é um nome dado pelos colonizadores”. Foi em 2018, na pré-produção, que a atriz realmente mergulhou no assunto. Havia poucas referências, a
principal delas o livro
Amazons of Black Sparta: The Women Warriors of Dahomey
, de Stanley B. Alpern. A partir daí, Viola conta que tomou consciência da dureza da vida das guerreiras: “Elas eram as indesejadas, as rejeitadas, recrutadas entre 8 e 14 anos
E, se não quisessem ser Agojie, eram decapitadas. Não havia realmente opções - era casar ou tornar-se Agojie. Elas tinham que reprimir as emoções”.

Para interpretar sua general Nanisca, Viola conta ter pensado em como lidar com todo esse contexto. Encontrou uma boa referência no roteiro de Dana Stevens: “Elas se orgulhavam de proteger o seu reino”. Então, para a atriz, a linha de interpretação tornou-se sintonizar “de que forma achamos um jeito de perseguir aquilo que é nossa razão de viver”.
Vencedora de um Oscar como melhor atriz coadjuvante em 2017, por Um Limite Entre Nós, Viola destaca a importância deste papel para sua carreira: “Este papel é a alegria da minha vida. Estudei atuação por 10 anos e fiz vários papeis que haviam sido antes interpretados por outras pessoas. Nunca senti realmente que me encaixava. Aqui foi muito diferente. Este é o meu mundo, esta é uma personagem em que posso usar o que sou, a complexidade do que é ser uma mulher preta. Vocês verão muito de mim ali”.


Nanisca foi inspiradora também de outro modo: “Tudo me inspirou nela. Todos nós temos segredos, não possuímos nossa história de modo algum. Eu escrevi minhas memórias e ali não conto nem 5% do que sou. Uma parte de nós nós escondemos, até para nos proteger. E, ao mesmo tempo, eu sinto apenas que estou fazendo meu trabalho criando essa pessoa, que é uma amálgama de ideias”.

A parte física da preparação foi outro desafio: “Eram 5 horas diárias de treino Fazíamos corrida, artes marciais, trabalho com pesos. Eu ensopava várias toalhas. Fazíamos boxe, usávamos os cotovelos - confesso que adorei isso! -, espadas. Às vezes, eu tinha que segurar uma espada de dez quilos com apenas uma das mãos, eu tinha que me fortalecer para isso”.

Sobre a invisibilização das mulheres pretas, Viola também tem muito a dizer: “Infelizmente, o racismo exerceu uma grande influência sobre nós, criando um sistema em que as mulheres pretas estão no final da lista. Somos colocadas numa caixa. Aparecemos rapidamente nos filmes, interpretando personagens sem nome, sem história, eventualmente mães de alguém. Na minha vida, eu sei quem elas são, são complexas, alegres, vastas, às vezes não são mães nem tias. Quero que essas mulheres pretas sejam humanizadas, como todo mundo, que suas narrativas sejam incluídas. Somos todas parte da raça humana”.


Viola comenta que atrizes como Julianne Moore ou Meryl Streep “são consideradas grandes porque tiveram oportunidade de mostrar. Minha narrativa é que as mulheres pretas não se sentem valorosas. Por suas características físicas, não são cogitadas para protagonistas, apenas para o papel de melhor amiga. Já me disseram: ‘Você sabe que não é bonita, não é?’. Eles podem te dizer isso impunemente. Por isso, as personagens deste filme são tão importantes. As pessoas não nos enxergarem não é mais aceitável. Eu sou valorosa, mesmo que não tenha cabelos louros. Os filmes e tudo o que criamos têm que refletir isso”.

Com o sucesso que já começou a mostrar em sua estreia norte-americana, quando liderou as bilheterias no seu primeiro fim de semana nos EUA e Canadá, com US 19 milhões, já se pode prever que A Mulher Rei pode ser o primeiro de uma série de filmes semelhantes? O produtor Julius Tennon espera que sim: “Este filme tem humor, tem coração, tem emoção Temos muita esperança de que abra portas. Por isso, deve fazer uma boa bilheteria, assim haverá outros”. Para Viola, por sua vez, “esta é uma pergunta para o público; ‘Vocês vão gastar o seu dinheiro para ver a nós, mulheres pretas, como heroínas? Vão nos ver, assim como vêem os filmes com Angelina Jolie, Scarlett Johansson, Brie Larson? Às vezes, as pessoas têm que ver para crer, para serem afetadas por elas”.