Ariane Ascaride, a grande força de uma pequena dama
- Por Neusa Barbosa
- 12/08/2004
- Tempo de leitura 4 minutos
Fotos de Alessandra CestacA singular mistura de um tipo físico mignon e uma intensa força dramática valeram à francesa Ariane Ascaride a comparação com Giulietta Masina - uma associação que faz ainda mais sentido quando se sabe que Ariane é filha de italianos radicados em Marselha, sua terra natal. Nesta entrevista exclusiva concedida em São Paulo, a atriz, que visita o Brasil pela segunda vez, discorreu sobre o método de seu marido, Robert Guédiguian, de quem estrela todos os filmes, e também sobre o fenômeno do aumento de mulheres cineastas em seu país. Cineweb - Guédiguian é um diretor conhecido por trabalhar sempre com os mesmos atores. Como vocês trabalham no set?
Ariane Ascaride - Efetivamente, não podemos dizer que haja muita improvisação. Mas é preciso saber que recebemos o roteiro muito antes de começar a filmar - três meses antes, mais ou menos. Discutimos o roteiro com ele e há uma familiarização com os personagens que vamos viver. Cineweb - Agrada a você como atriz essa fórmula ou você se sente mais à vontade se pode improvisar?
Ariane - Não posso falar pelos outros atores mas acho mais interessante trabalhar sobre algo escrito, muito bem escrito, do que sobre improvisações que com certeza ficarão piores do que o roteiro. Ademais, há o desafio de pensar se posso conseguir encarnar o personagem tal como foi concebido, pois o método de Robert é a encarnação. Quer dizer, "ser" o personagem. No momento em que filmamos, não há mais questões. Nós "somos" os personagens. É muito difícil mas muito interessante. Isso permite uma disponibilidade muito grande ao mesmo tempo que uma grande concentração.Cineweb - E como isso funciona entre os atores, enquanto grupo?
Ariane - Entre os atores há uma grande cumplicidade. Há muito tempo trabalhamos juntos. Quando me perguntam como é trabalhar com Gérard Meylan e Jean-Pierre Darroussin, costumo dizer que é como dançar o rock'n'roll. Quando você dança, não é preciso falar. Nunca conversei por dois minutos que fosse nem com um nem com o outro sobre como faríamos uma cena. Isso é fruto de uma reflexão que fazemos cada um por si e depois fazemos juntos, mas antes da filmagem. Na hora de rodar, simplesmente rodamos. Cineweb - Vocês repetem as mesmas seqüências muitas vezes?
Ariane - Não. Algumas, rodamos duas vezes, outras três. Depende da seqüência. O fundamental é que não estamos ali para mostrar que somos bons atores. Estamos lá para que aqueles personagens sejam verossímeis e permitir aos espectadores ligar-se a eles e refletir sobre as situações que eles vivem. Tudo isso está na nossa cabeça quando filmamos. Mas não falamos mais disso, não pensamos nisso. Já pensamos antes. Se formos pensar não estamos completamente ali. Cineweb -Você também trabalha com outros cineastas ?
Ariane - Sim e também faço muito teatro. Meu trabalho é ser atriz e mudar de imaginário. Tenho enorme prazer em entrar no imaginário de outros realizadores. No exterior sou mais conhecida pelos filmes de Robert. Mas este ano estive em Cannes, num primeiro filme de uma jovem diretora, Eléonore Faucher, que ganhou um prêmio da Semana da Crítica chamado Brodeuses. Adoro particularmente trabalhar em primeiros filmes. Cineweb - Por quê?
Ariane - Quando os diretores fazem seus primeiros filmes, é tão vital, tão importante fazê-los que há coisas que lhes escapam e eles não percebem. E é justamente isso o que define se o diretor ou diretora é inteligente, se há um propósito forte. Quando um diretor faz um primeiro filme, não é um trabalho, é uma necessidade. Por isso, amo fazer esses primeiros filmes, é muito divertido. Cineweb -De que trata esse filme, Brodeuses?
Ariane - É a história de uma jovem de 17 anos e de uma mulher da minha idade. As duas trabalham com bordados e têm uma relação inteiramente diferente em relação à maternidade. A jovem está grávida e ainda não sabe o que fazer do bebê. A mulher acaba de perder o seu filho. Pouco a pouco as duas vão aprender a conviver com tudo isso. A diretora é muito talentosa. Ao mesmo tempo ela tem um lado muito sensível mas tem também um lado parecido com Maurice Pialat, uma mistura curiosa. E o filme foi vendido a diversos países, depois do prêmio em Cannes. Foi como um milagre, o que se poderia desejar de melhor a uma jovem diretora. E também é verdade que gosto muito de trabalhar com as diretoras. Cineweb -Ah, sim? Qual é a diferença?
Ariane - Há dez anos a França é o país onde existe o maior número de diretoras. É formidável, já era tempo! Penso que elas têm uma leitura diferente do lugar da mulher na sociedade. Não é que sejam tão diferentes dos homens, mas é a visibilidade que trazem a esse assunto. Creio que isso ajudou também seus colegas homens, que nesses mesmos dez anos adquiriram uma forma diferente de definir os personagens femininos no cinema francês, que não é mais a mesma. As personagens femininas tornaram-se mais ativas. Cineweb 9-8-2004
