Robert Guédiguian quer "reencantar o mundo" com seus filmes
- Por Neusa Barbosa
- 12/08/2004
- Tempo de leitura 8 minutos
Fotos de Alessandra CestacCineasta da diversidade e do engajamento social e humanista, o francês Robert Guédiguian visitou pela segunda vez o Brasil em agosto de 2004. Desta vez, o engajado diretor - que veio há dois anos como convidado do Fórum Mundial de Porto Alegre - teve motivos exclusivamente profissionais para a viagem, com a finalidade de abrir a primeira retrospectiva completa de seu trabalho, ou seja, os 11 filmes feitos a partir de sua estréia, em 1981 (Último Verão), a maioria inédita no Brasil.Nem mesmo Nova York, que tenta há dois anos organizar uma retrospectiva como esta, conseguiu ter a primazia sobre São Paulo, primeira cidade a exibir a mostra Guédiguian, no Centro Cultural Banco do Brasil (entre 3 e 15 de agosto de 2004), que prosseguiria no CCBB carioca entre 17 e 22 de agosto. Por enquanto, o público paulista e o carioca só não pôde conhecer os dois mais recentes trabalhos do cineasta, Mon Père Est Ingenieur, em lançamento na França no dia 18 de agosto, e Le Promeneur du Champs de Mars, ainda em montagem. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, o cineasta discorreu sobre seu estilo e seus temas mais caros, como a imigração, a política e o desejo de "reencantar o mundo". Cineweb - Esta é a primeira retrospectiva completa de seu trabalho no continente americano. Como se sente diante disso?
Robert Guédiguian - Eu nem sempre compreendo tudo o que me acontece. E não falo por falsa modéstia. É um pouco surpreendente. Mas estou orgulhoso, claro. Cineweb - É a prova de que seus personagens - pessoas comuns, trabalhadores, seres urbanos - encontram eco em todo mundo.
Guédiguian - Sim, certamente. Creio que poderíamos emprestar um de nossos roteiros, como A Cidade Está Tranqüila a um cineasta daqui de São Paulo e ele poderia filmá-lo aqui. Meus filmes são muito enraizados em Marselha mas as mesmas situações poderiam ocorrer aqui. São histórias que ocorrem em toda parte. Cineweb - Em suas entrevistas, o senhor fala com freqüência em "reencantar o mundo". Acredita ainda ser possível fazê-lo através do cinema?
Guédiguian - É sempre possível. Creio que podemos sempre fazer filmes - ou romances ou histórias em quadrinhos ou o que quer que seja - e tentar mostrar o quão melhores as coisas poderiam ser. É a isso que chamo de "reencantar o mundo". Por outro lado, não acho que se devam fazer filmes apenas de uma maneira. Pode-se fazê-los no estilo de Costa-Gavras, muito lúcidos, mostrando a vida tal como ela é. Isto conta também. É importante. De tempos em tempos, temos necessidade de analisar as coisas, de nos questionarmos. E há também os momentos na vida de entrever algumas soluções, algumas respostas a situações de ordem social, sociológica, psicológica, amorosa. O cinema também pode ter essa função. Cineweb - No entanto, seus filmes me parecem também muito realistas. Não me parece que o senhor seja tão otimista a respeito das situações que retrata.
Guédiguian - Sim, mas meus filmes sempre têm humor. Tento não ser nem pessimista nem otimista, mas alternar os dois estados todo o tempo, como na vida. Às vezes, as histórias ficam na minha cabeça muito tempo antes de filmá-las. Como A Cidade Está Tranqüila, que eu tinha na cabeça há uns 15 anos. Se eu o fiz só naquele momento é porque antes ele não tinha o seu lugar. Cineweb - O senhor já tinha escrito esse roteiro completo 15 anos antes?
Guédiguian - Não o tinha escrito. Apenas a idéia global sobre uma cidade que parecia tranqüila mas não estava. Cineweb - Normalmente, o senhor trabalha com um roteiro rígido, que é escrito antes da filmagem e depois é seguido à risca?
Guédiguian - Sim. Sou rígido na rodagem mas não na montagem. Na montagem, em geral, as coisas mudam de lugar, eu reestruturo muito o filme nessa fase. O fim vai para o começo, o começo vira o fim, tudo pode acontecer. Cineweb - O senhor trabalha sempre com um mesmo grupo de atores. Isso também acontece na equipe técnica?
Guédiguian - Sim. Costumo trabalhar com a mesma equipe quase sempre, com poucas mudanças. Inclusive tenho um diretor de fotografia, Gilberto Azevedo, que é brasileiro. Já fiz três filmes com ele Último Verão, Rouge Midi e Ki Lo Sa). O montador é sempre o mesmo, Bernard Sasia. Isso não quer dizer que as coisas não mudem. A equipe pode ser a mesma, mas cada filme é diferente: há uma nova visão, uma nova imagem que se busca. Considero cada filme como um objeto particular, mesmo na forma de produzi-lo. Cada filme é uma nova experiência. Cineweb - O senhor escreve histórias todo o tempo? Como decide que é o momento de filmá-las?
Guédiguian - Esse é um processo que vai chegando aos poucos. Não é uma decisão mecânica, surge um pouco de urgências pessoais. Há uma questão que chamo de "a necessidade do filme", que é uma noção coletiva. Procuro me perguntar se contar aquela história pode interessar a outras pessoas além de mim mesmo. Penso se historicamente a questão da história é apropriada para ser colocada naquele momento. Cineweb - Como a questão das últimas eleições presidenciais na França, em 2002, em que houve o temor o risco de uma vitória da Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, o afetou?
Guédiguian - Na verdade, essas eleições estão no centro de meu próximo filme, Mon Père Est Ingenieur. Não há uma ligação direta, o filme não trata diretamente do assunto. Mas a história nasce dali. Há mesmo frases na boca de alguns personagens tiradas de um artigo que escrevi para o jornal Le Monde em 2002. Cineweb - Existe no filme algum personagem que pertença à Frente Nacional?
Guédiguian - Não. Na verdade, eu exagerei. Coloquei alguém que é de esquerda, mas que em toda a sua vida foi de direita. Mas num diálogo se fala de gente que vota na FN. Assim vou incomodar todo mundo! Cineweb - Mesmo sem pertencer mais a um partido, o senhor continua militando.
Guédiguian - Para os partidos políticos não tenho mais tempo. Mas posso escolher outras formas de intervenção. Posso fazer um filme, escrever um artigo, produzir um filme que encontra dificuldades para ser feito - para mim, produzir é uma forma de militância. Especialmente se esse filme for deixar de existir por causa do tipo de indústria que temos no mundo. Cineweb - O senhor nunca filma fora de Marselha? Mora lá?
Guédiguian - Todos os meus filmes foram feitos em Marselha, onde nasci, tenho minhas raízes e meus amigos. Exceto este último (Le Promeneur du Champs de Mars), que foi filmado em Paris. Aliás, havia uma seqüência em A Cidade Está Tranqüila que foi feita em Paris, mas é uma cena de interiores, não se vê a cidade. Mas não moro em Marselha, moro em Paris. Para fazer o trabalho que fazemos, não há outro modo. Produzo em Paris, filmo em Marselha. Cineweb - Nos seus filmes, o senhor aborda bastante questões ligadas à imigração. Até que ponto isso vem de suas próprias origens?
Guédiguian - Meu pai era marselhês, mas de origem armênia. Minha mãe era alemã. Marselha é um porto, ali se encontra gente de todas as partes do mundo. Cineweb - Nesse aspecto da imigração, qual a diferença entre Marselha e Paris?
Guédiguian - A diferença é que em Paris há gente de todo o mundo há poucos séculos. Até o século XVIII lá só havia parisienses. Marselha, por ser porto, está assentada sobre a base da imigração. Há vagas sucessivas de estrangeiros que chegaram e ficaram por ali - italianos, espanhóis, armênios, argelinos, gregos, coreanos, cambojanos. Há 2.600 anos que essa gente se mistura. Em Paris, isso é recente. Hoje em dia, todas as grandes cidades do mundo contêm numerosas comunidades estrangeiras. Mas nem todas foram fundadas sobre esta base. Nova York por exemplo foi. O Brasil foi. Como Marselha. Cineweb - E como se coloca a questão do racismo e da xenofobia em Marselha?
Guédiguian - Ao mesmo tempo em que há uma capacidade de integração muito grande, há momentos em que a miséria econômica traz à tona um sentimento de concorrência pelos postos de trabalho. E aí acontecem incidentes racistas, xenófobos, lamentáveis. Mas é tudo pela questão do trabalho. A origem do racismo não deve ser procurada na natureza. É preciso procurá-la na História, na economia.Cineweb - O senhor adaptou um livro em seu próximo filme (Le Promeneur du Champs de Mars). Sobre o que trata a história ? É a primeira vez que filma um roteiro que não é original?
Guédiguian - É um filme sobre o último ano da vida de François Mitterrand. Neste momento, está em montagem. Mas eu já havia adaptado um outro livro antes, para o filme No Lugar do Coração. Cineweb - O senhor adaptou seu filme Ao Ataque para histórias em quadrinhos. Como foi essa experiência?
Guédiguian - Na verdade, não fiz essa adaptação, autorizei o autor a fazê-la. Como sempre trabalhei sobre as formas populares de cinema, essa proposta me pareceu muito adequada. Achei que era um meio muito apropriado de recontar aquela fábula sobre a globalização e de levá-la a um público que talvez não tenha acesso aos meus filmes. Cineweb 9-8-2004
