05/06/2026

Em documentário, Caco Ciocler investiga o papel da arte no Brasil de hoje

Premiado na Mostra de SP e filmado na pandemia, “O melhor lugar do mundo é agora”, disponível gratuitamente na plataforma Filme Filme, traz atores e atrizes num jogo de cena entre a verdade e a mentira.



Caco Ciocler dirigindo o documentário remotamente, via Zoom

O que leva um ator competente, querido e premiado a dirigir documentários? Para Caco Ciocler, a resposta é: “Tentar entender o mundo em que vivemos”. Seu terceiro longa como documentarista, O melhor lugar do mundo é agora, nasce de uma necessidade, como uma espécie de resposta ao momento da pandemia. “Estávamos no isolamento e a arte e os artistas, muito atacados. Diziam que a arte não servia para nada, então resolvi investigar isso com outros atores e atrizes”, diz em entrevista ao Cineweb.

O filme consiste num jogo de cena, à la Eduardo Coutinho, no qual Ciocler encarnou um personagem: um entrevistador que não sabe nada sobre a profissão de ator e entrevista, via Zoom, diversos atores e atrizes que falam sobre sua formação, experiências e seus trabalhos – mas nem tudo o que dizem é verdade.

Ciocler explica que, a partir dessa dinâmica entre verdades e mentiras, ele mostra a função dos artistas e da arte, que podem ser libertadores e conscientizadores. “Eu era para ter sido engenheiro mas, em algum momento, algo aconteceu que mudou meu caminho e me abriu novos horizontes. Pelo trabalho como ator, a gente tem que se colocar no lugar do outro para fazer um personagem. Essa ação nos leva a desenvolver a empatia e isso nos leva a lutar por causas sociais, por causa dessa empatia.”

Para fazer seu terceiro documentário – os outros dois são Esse viver ninguém me tira e Partida –, Ciocler entrou em contato com amigos e amigas, pessoas com quem trabalhou e admira, explicando a ideia do longa. Com cada pessoa, ele gravou conversas de cerca de uma hora e meia e, a partir daí, construiu O melhor lugar do mundo é agora. Estão no filme atores e atrizes como Luciana Paes, Georgette Fadel, Marcio Vito, Danilo Grangheia e Eliseu Paranhos, entre outros.

“O elenco foi maravilhoso. Quanto mais eu apostava na ideia de que a arte não serve para nada, mais eles me mostravam, nas entrevistas, o contrário. Foi um processo longo, mas de descobertas, para mim, inclusive, como ator”. O longa foi filmado em dois momentos: primeiro em 2020, logo no começo da pandemia, e uma segunda etapa, em 2021.

O diretor explica, também, que o processo de montagem foi longo e repleto de dúvidas. “Fizemos uma primeira versão e mostramos para várias pessoas, inclusive Diane Maia, produtora do filme, que amou. E outras pessoas detestaram. Fizemos um novo corte, a Diane odiou e um monte de gente amou”, diverte-se agora, relembrando. Foi necessário uma nova montadora, a cineasta Caroline Leone, chegar no projeto para encontrar um equilíbrio.

“Ela chegou com um olhar fresco para o material, mas tínhamos visões muito diferentes do filme. Isso gerou diversos embates positivos, até que chegamos a um meio-termo. É preciso criar o jogo de cena, mas também é preciso de um tempo. Se isso é revelado muito cedo, perde a graça; se demora muito, perdemos o público”.

“Ela teve muito cuidado na construção de uma narrativa que pudesse se conectar com o público, mas, ao mesmo tempo, ser um tanto solta, trazer surpresas e ligações entre os entrevistados”, explica a produtora.

Ciocler e Maia confessam que, até a primeira exibição pública do filme, na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no ano passado, tinham dúvida se O melhor lugar do mundo é agora estabelecia um diálogo com a plateia. “Foi só quando ganhamos o prêmio de público na Mostra que tive um pouco de sossego”, afirma o diretor.

Eles também contam que a dupla tem planos de fazer um longa de ficção, mas isso é mais complexo. “Os filmes que dirigi até agora foram feitos no quintal de casa, com pouco orçamento, com amigos, e são documentários de urgência, sobre o presente histórico. Uma ficção demanda mais tempo, mais investimento, inscrições em editais”, explica Ciocler.

A dupla aponta a relevância do filme no Brasil do presente ao lidar com a linha tênue entre a verdade e a mentira, ou como uma mentira muito bem contada pode parecer uma verdade – vide as fake news. “Estou muito curioso para saber o que o público brasileiro deste momento de 2022 vai achar do filme. Quero saber o que o filme tem a dizer sobre o Brasil, e o Brasil sobre o filme”, conclui o diretor.