23/07/2026

“Na rédea curta”, de websérie a longa-metragem

Os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio comentam o processo de partir da websérie homônima para criar um filme original, protagonizado por Thiago Almasy e Sulivã Bispo. (Crédito: Junior Gois/Divulgação)


Glenda Nicácio e Ary Rosa, na pré-estreia do filme em Salvador (Crédito: Junior Gois/Divulgação)


Dois dos mais conhecidos e ativos nomes do cinema baiano atualmente, os cineastas Ary Rosa e Glenda Nicácio chamaram a atenção com Café com canela, um filme de 2017 que combinava de forma muito sagaz humor e drama. De maneira muito delicada e altamente humanista, eles traçavam ali um carinhoso retrato de um grupo de personagens na cidade de Cachoeira (BA), onde se radicaram desde 2010. O novo trabalho da dupla, Na Rédea Curta, talvez possa parecer distante daquele filme – mas não está. Embora seja muito mais calcado no humor, há novamente um olhar gentil para personagens vivendo à margem, estabelecendo seus laços afetivos como maneira de manutenção de sua força contra o sistema e com um irresistível toque regional.

O filme parte da famosa websérie homônima, criada por Thiago Almasy, e protagonizada por ele, como Junior, e Sulivã Bispo, como Mainha. Ary Rosa conta que, quando descobriu o programa na internet, mostrou para sua parceira de trabalho, e, na hora, queriam conhecer os outros dois e fazer um filme juntos. “Vi um potencial de humor e sensibilidade ali que vinha ao encontro do nosso trabalho. Estávamos lançando Café com canela na época em que descobri o Na rédea curta, e mostrei para a Glenda, falando: temos de fazer um filme.”

Por meio de amigos em comum, entraram em contato com Almasy e Bispo e já começaram a planejar o primeiro longa de Mainha e Junior, mãe e filho que se amam, mas vivem brigando e fazendo as pazes. Para um longa, no entanto, era preciso pensar numa trama mais complexa que sustentasse a duração maior do que a de um vídeo no youtube. “Foi um processo muito orgânico, muito bonito”, comenta o diretor.

Glenda Nicácio, por sua vez, explica que o maior desafio para ela e Rosa era entrar num projeto que já existia e era famoso. Todos os outros roteiros que filmaram eram originais da dupla. “Ali há os personagens muito bem definidos e interpretados, com perfis marcantes, não poderíamos sair fazendo mudanças. A série é muito rica. Passamos juntos uma semana com os atores e vimos em Sulivã e Thiago dois parceiros como criadores”.

O roteiro é assinado pelo quarteto, e também por Camila Gregório e Tidi Eglantine,
trazendo uma história inédita: Junior engravida sua namorada (Barbara Bela) e entra em crise, pois acredita que não sabe como ser um pai, já que nunca conheceu o seu. Mainha, finalmente, cede, dá umas pistas ao filho, e junto dele vai até Cachoeira, em busca do pai que o rapaz nunca conheceu.

“É um filme de humor, mas também tem questões sérias, como a maternidade solo e a alienação parental. A comédia não deve ser alheia às questões sociais. O humor pode ser usado como forma de resistência e identificação”, complementa Rosa. Nesse sentido, o longa termina citando uma frase de Paulo Gustavo: “Rir é um ato de resistência”.

Mas o ator, morto em maio do ano passado, não é homenageado apenas dessa forma. Rosa e Nicácio não negam a influência de Minha mãe é uma peça no filme – além de ambos trazerem uma mãe cheia de amor, mas dominadora, a personagem é interpretada por um ator. Isso, no entanto, não quer dizer que Na rédea curta seja uma cópia do grande sucesso de Paulo Gustavo, ou mesmo um derivativo, pelo contrário. O filme baiano é repleto de personalidade própria, mas estabelece um diálogo com seu antecessor.

“Apenas o humor pode propiciar um tipo de ferramenta para a crítica social. A trama aqui, no fundo, é uma ferida social do país. Esse filme é muito Brasil”, complementa a diretora, que com seu parceiro já tem seis filmes. Aliás, para eles, a arte, o processo criativo deve ser coletivo. “Sempre, desde nosso primeiro filme juntos, trabalhamos com a mesma equipe. E nós dois temos uma ligação muito forte. Fazemos filmes juntos há 13 anos. Dirigimos a cena lado a lado, mas, às vezes, é preciso se separar no set, um vai apagar o incêndio num lugar, e o outro vai atear o fogo em outro”, brinca Rosa.