05/06/2026

O questionamento da masculinidade nos personagens de Rômulo Braga

Ator fala do trabalho em seus filmes mais recentes, “Carvão” e “Sol”, no qual interpreta um homem em crise com a paternidade



Rômulo Braga como Theo, em "Sol", que lhe rendeu prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio de 2021 (Crédito: Divulgação)


Em uma carreira marcada em especial por participações no cinema independente brasileiro, Rômulo Braga fez diversos tipos de papel. O primeiro a chamar mais a atenção foi Eduardo, em O que se move, um musical melancólico de Caetano Gotardo, no qual o ator faz um pai que esquece seu filho bebê fechado no carro e a criança morre. Novamente, Braga volta a interpretar dois pais em filmes recentes, em Carvão, em cartaz nos cinemas, e Sol, que estreia na próxima quinta (8/12), e que lhe rendeu o prêmio de interpretação no Festival do Rio 2021.

Tanto em Carvão, como Sol, Braga nota “um questionamento da masculinidade”. “Acredito que há mais ou menos uns 10 anos esse movimento tem acontecido, uma reflexão sobre os papéis masculinos na sociedade e suas representações nos filmes. E, no fim, isso também ressoa em mim mesmo, que passo a me questionar”, diz em entrevista ao Cineweb.

Talvez também não seja coincidência que Carvão e Sol sejam escritos e dirigidos por mulheres: Carolina Markowicz e Lô Politi, respectivamente. Braga concorda que cineastas mulheres têm uma visão diferenciada sobre a masculinidade, especialmente sobre os privilégios do homem. “É uma forma de pensarmos juntos uma transformação, andar para a frente.”

Em Carvão, ele interpreta o marido da protagonista (Maeve Jinkings), com quem tem uma carvoaria, mas mantém um relacionamento secreto com um colega (Pedro Wagner). Em Sol, ele é Theo, um arquiteto bem-sucedido que mora em Salvador e tenta se reaproximar de sua filha pré-adolescente (Malu Landim), quando recebe a notícia de que o pai (Everaldo Pontes) está morrendo num hospital na pequena cidade no interior baiano. Com a menina, ele faz uma viagem de carro e encontra o pai recuperado, tendo que lidar com fantasmas do passado que assombram a vida dos dois.

“Theo é um personagem cheio de camadas, sem muitos mistérios, que mostra ao que veio”, diz o ator. Para interpretar esse homem, Braga conta que também tirou elementos de sua experiência com pai. Ele tem um filho de 22 anos e uma filha de 9. “As questões que o personagem enfrenta já estão muito bem resolvidas em mim, não são mais uma questão. Por isso eu as entendia muito bem, não são mais um problema para mim, embora eu tenha passado por coisas parecidas.”

Ele explica que a conjunção dele, Pontes e Malu no elenco foi uma potência desafiadora. Boa parte do filme consiste na viagem de carro do trio do interior baiano a Salvador. “A Amanda Gabriel, preparadora del elenco, fez um trabalho incrível. Tínhamos em cena eu, o Everaldo que é super-experiente, e a Malu que estava fazendo seu primeiro filme. Foi preciso equalizar as interpretações, os estilos de atuação.”

Trabalhar com Malu, para Braga, foi um prazer e, em certa medida, um desafio. “Ela era uma criança e fazia coisas de criança, o que é normal, é o esperado. Um dia, tínhamos uma cena bem complexa, e eu estava com dificuldade de me concentrar, e ela brincando. Eu a chamei num canto e disse: ‘Malu, me ajuda, eu tô com dificuldade de fazer a cena, vamos fazer juntos e depois a gente brinca.’ Ela entendeu na hora. Nas cinco semanas de filmagens ela foi crescendo fisicamente, mudando, e isso também está na personagem.”

O fato de Sol ser todo filmado em locações para o ator foi um prazer. “Era um sonho meu fazer isso, e não tinha como ser em estúdio. Como se vai fazer uma estrada em estúdio? A direção da Lô era aberta o tempo todo, trazia a geografia para o filme. Quando a gente vai fazer uma cena, não é sempre como a gente se preparou, estudou, é preciso estar aberto ao lugar, às mudanças que podem vir.”