06/06/2026

A força feminina de Ruanda em “Nossa Senhora do Nilo”

Diretor do longa, Atiq Rahimi, fala da experiência de adaptar um romance famoso que aborda um período conturbado da história do país, nos anos de 1970, que culminaria no genocídio de 1994



O romancista, roteirista e cineasta afegão Atiq Rahimi, que dirige a adaptação de "Nossa Senhora do Nilo" (Crédito: Divulgação)

Conhecido tanto por seu trabalho tanto como romancista quanto como cineasta, o afegão Atiq Rahimi, pela primeira vez, adapta para o cinema um livro que não é uma obra sua. Trata-se do best-seller Nossa Senhora do Nilo, publicado em 2012, da ruandesa tutsi Scholastique Mukasonga, que partiu de suas próprias experiências num internato católico em seu país no final dos anos de 1970, numa região isolada, próxima à nascente do Nilo, a mais de 2,5 mil metros de altura. Quando os hutus tomam o poder, eles também dominam o local. O episódio é prenúncio de um massacre que aconteceria no país anos em meados da década de 1990.

Em entrevista via Zoom ao Cineweb, Rahimi conta que conheceu Mukasonga, em 2008, num evento de literatura, no Canadá, tornando-se amigos desde então. Ele leu o romance assim que foi publicado, mas não esperava que fosse dirigir a adaptação cinematográfica. “Quando li, mal imaginei que teria de penetrar na história e na psique dessas personagens do livro anos depois. Quando soube que ia fazer mesmo o filme, disse a Scholastique: ‘Se eu quiser fazer justiça à história [do seu livro], vou ter de te trair.’ Ela compreendeu que era necessário fazer mudanças para levar o romance ao cinema, mas pediu uma coisa: que fosse filmado em Ruanda. E isso eu mesmo já tinha em mente.” No Brasil, o livro foi lançado pela Editora Nós, em 2017.

O cineasta, que tem no currículo filmes como A pedra da paciência, conta que sua primeira ação quando soube que dirigiria a adaptação foi ir a Ruanda, onde ele nunca havia estado, e lá conheceu um país completamente diferente daquilo que imaginava. “Eu tinha a ideia de um país muito violento, caótico. Quando cheguei lá, encontrei um lugar calmo, silencioso e muito gentil com os estrangeiros. Impressionou-me muito a força feminina ali. A sociedade ruandense é feminina. Mais de 80% de seu parlamento é de mulheres, assim como 60% da população. Se houve uma reconciliação após o genocídio, foi graças à presença e aos esforços das mulheres.”

Essa “sociedade feminina” a que ele se refere é a força do romance e de seu filme, marcado especialmente por mulheres em cena, jovens alunas do internato católico no alto da montanha. As questões femininas sempre interessaram a Rahimi como artista. Ele explica que veio de uma família com mulheres fortes, com uma força extraordinária que os homens não têm. “Minha irmã era uma feminista no Afeganistão, onde as maiores vítimas de violência eram as mulheres. Ela e minha mãe sofreram muito e lutaram muito. E eu sempre me pergunto por que os homens têm tanto ódio das mulheres.”

Para construir a narrativa e o filme, o cineasta, que assina o roteiro com Ramata-Toulaye Sy, explica que precisou se distanciar um pouco da história. Nada estranho para ele: “Até em meus filmes situados no Afeganistão faço isso”. Ele busca recriar um mundo inspirado em suas próprias ideias e experiências. “Sendo Nossa Senhora do Nilo é um romance autobiográfico, como eu me aproximo dele? Não me refiro em termos de legitimidade, mas inspiração. Não tenho que repetir a Scholastique, ela já contou essa história extraordinariamente bem. Eu precisava reformular o material e encontrar o que há de específico nessa história, para transformá-la em universal.”

Uma outra questão que teve de enfrentar, para realizar o filme em Ruanda, foi encontrar jovens atrizes para os diversos papeis. Foram feitos testes com uma centena de jovens que, entre outras coisas, precisavam falar francês. Rahimi explica que no país não há uma grande produção de cinema atualmente, por isso, as atrizes estavam mais habituadas à televisão. Foi sua filha Alice Rahimi, quem organizou uma oficina de preparação do elenco.

“No set, as atrizes eram muito disciplinadas e inteligentes. Elas falam um francês muito certinho, como na escola, e, às vezes, soava falso, mas elas são assim mesmo. Depois de uma sessão do filme, uma amiga francesa, que é atriz, veio dizer que soava falso, pouco realista, mas expliquei que em Ruanda é assim mesmo: falam baixinho, com frases muito bem estruturadas. Essa era a autenticidade das personagens, se eu mudasse aí é que soaria falso.”

Para mostrar aquilo que chama de “um país de colinas e silêncios”, o cineasta contou com o experiente diretor de fotografia Thierry Arbogast, com quem já trabalhara em A pedra da paciência. “Eu queria mostrar a beleza de Ruanda, de sua natureza, expondo o quanto é frágil, mas também extraordinário. Há uma estética muito própria do local que transita entre a fragilidade e a violência. E ele [Arbogast] é capaz de fazer coisas belíssimas, mesmo com poucos recursos.”