06/06/2026

Frances O’Connor traz Emily Brontë para o século XXI

Contando a história da famosa escritora inglesa do século XIX de forma pouco convencional, a atriz e diretora estreante pretende comunicar-se com as jovens do presente



Da esqueda para direita: Frances O'Connor e Emma Mackey, no set de Emily durante a pandemia (Crédito: Divulgação)

A primeira adaptação cinematográfica de O morro dos ventos uivantes data de 1920, um filme mudo, dirigido por A.V. Bramble e protagonizado por Milton Rosmer e Colette Brettel. Desde então, dezenas de adaptações em diversos formatos e países aconteceram – inclusive uma telenovela brasileira em 1967. Emily, primeiro longa dirigido pela atriz Frances O’Connor, faz um caminho diferente: conta a história de Emily Brontë, autora do clássico que serviu de inspiração inclusive para a série de livros e filmes Crepúsculo.

“Eu sempre gostei muito do romance, da sensação de não ser compreendido, de não fazer parte de uma sociedade que o [protagonista] Heathcliff enfrenta”, diz O’Connor, em entrevista via Zoom ao Cineweb, de sua casa na Austrália. Ela conta que leu o romance pela primeira vez aos 15 anos, e ficou marcada pela história de amor e violência entre Heathcliff e Catherine.

Fora o personagem que não se encaixa numa sociedade tão estratificada, a poesia e a atmosfera do livro foram marcantes para a diretora, que tem um vasto trabalho como atriz, atuando em filmes de Steven Spielberg (A.I.- Inteligência Artificial) e Patricia Rozema (Palácio das Ilusões). “Em sempre me perguntei também quem era essa escritora. A vida dela não era muito conhecida e, lendo biografias, percebi que ela era um tanto diferente das moças da sua época.”

Essa diferença foi o que levou O’Connor a realizar seu longa de estreia sobre Emily Brontë. “Eu queria mostrar para as jovens de hoje que está tudo bem ser diferente, ser autêntica. Fiz o filme pensando em o que é ser autêntica atualmente, pois ainda existe muita pressão sobre as mulheres. Eu queria dizer para as meninas que vissem o filme: apenas relaxe e seja você mesma.”

Para escrever o roteiro, a diretora leu diversas biografias de Brontë e suas irmãs, Anne e Charlotte, que também eram escritoras.. Porém, O’Connor não queria fazer uma cinebiografia convencional, a ideia era trazer para a tela não apenas momentos da vida de Emily, mas também sua poesia. Um fato controverso no filme é o relacionamento da protagonista com William Weightman (Oliver Jackson-Cohen), assistente de seu pai, que morou com a família por alguns anos. Não há nada que comprove que eles tenham se apaixonado um pelo outro.

Mas isso está exatamente em sintonia com a ideia de não fazer uma biografia convencional. Há uma corrente que diz que foi Anne quem teve um relacionamento com o rapaz. “É uma questão em disputa. Há um comentário de Charlotte sobre o assunto, e só isso.” Por isso, O’Connor sentiu-se livre para criar a história como achou que convinha ao seu filme.

Para o papel principal, ela escalou Emma Mackey, da série Sex Education e que está no elenco do inédito Barbie. “Era preciso criar muita empatia com a personagem, e a Emma tem isso, uma energia, que chama a atenção para ela. Foi fundamental a presença dela no filme.”

O’Connor explica, também, que sua experiência trabalhando com diretores e diretoras acabou sendo mais fundamental do que seu trabalho como atriz para sua estreia na direção. “Eu estava entre alguns trabalhos [como atriz], quando pensei que realmente precisava levar a sério a ideia de dirigir um filme. A pandemia aconteceu no meio do caminho, quando estava financiando o projeto, foi bem complicado. Mas um grupo de pessoas acreditou em mim e no filme.”

Esse sonho, como a própria O’Connor define, era o de colocar Emily no centro do palco. “Muito se fala sobre seu único romance, publicado em 1847, sobre sua família, e mesmo havendo várias biografias sobre ela, eu acho que era preciso um filme apenas sobre ela, e dirigido por uma mulher.” Existe o longa As irmãs Brontë, do francês André Techiné, lançado em 1979, mas que não cumpre os requisitos listados por O’Connor.

Ela mesma conta que percebeu diferenças quando trabalhou com diretores e diretoras. E cita Patricia Rozema, de quem ficou amiga, após atuar em Palácio das Ilusões, de 1999. “Trabalhei com diretores e diretoras muito bem preparados, que me deram muita confiança nas filmagens. Spielberg, por exemplo, adora estar no set. É uma grande diversão para ele.”