23/07/2026

Animação brasileira desconstrói o mito da fama

Diretor e roteirista do mineiro “Chef Jack – O Cozinheiro aventureiro” falam sobre como o filme, que estreia quinta (19), dialoga com o público infantil em tempos de celebridades



Jack e seu assistente Leonard em ação (Crédito: Divulgação)

Quando perguntado como começou o projeto da animação brasileira Chef Jack – O Cozinheiro aventureiro, o mineiro Guilherme Fiuza Zenha conta a história de quando conheceu Artur Costa, que lhe apresentou o roteiro do longa. “Eu falei para ele que era ótimo, a história era excelente. Fiz um monte de elogios, para terminar com: precisar cortar umas 30 páginas”, recorda, divertindo-se.

Costa, que é o criador do personagem e principal roteirista do filme, hoje também ri do episódio. Na época, seguiu o conselho e cortou o que precisava ficar de fora para deixar o filme mais redondinho. Fiuza Zenha até hoje se surpreende: “Ele tirou as 30 páginas, mas a história continuava a mesma.”

A história é simples, mas divertida o suficiente para fisgar seu público-alvo. Jack, dublado por Danton Mello, é um cozinheiro que vive aventuras. É como se fosse uma combinação de Jamie Oliver com Indiana Jones – mas as referências do filme são bem brasileiras. Jack e seu assistente, o adolescente Leonard, participam da competição Convergência de Sabores, que combina provas física com pratos exóticos.

Costa, que tem em seu currículo também roteiros de games, explica que Jack surgiu há cerca de dez anos e a ideia era de contrastar dois mundos: o da culinária e o das aventuras. “Parecem duas coisas separadas, mas têm muito a ver também. Eu queria criar uma personagem que fosse uma celebridade e o Jack tem o status de um Leonardo DiCaprio da gastronomia.”

A partir disso, a dupla confessa que tinha um primeiro desafio para o filme: era preciso apresentar o personagem, estabelecer sua trajetória, sem tornar isso enfadonho. O longa, com enxutos 80 minutos, começa já com ação e, aos poucos, conta quem é o protagonista, sem nunca deixar o ritmo cair.

Fiuza Zenha conta que ao fazer o filme pensava em si mesmo quando criança. “Eu tenho um ritual de assistir a ET – O Extraterrestre, ao menos uma vez, todo ano. E essa é uma inspiração para um filme que não subestima seu público. As crianças são muito exigentes. Não se pode nivelar por baixo.”

A dupla aponta que a animação tem uma vantagem diante dos filmes convencionais, os live-actions: não há limites. “A gente vai para onde quiser. Até lugares que não existem, como as Ilhas Culinárias. Não que no live-action não seja possível esse tipo de coisa, mas aí fica um filme caríssimo. Na animação, conseguimos driblar as restrições orçamentárias. É libertário”, diz Fiuza Zenha.

Eles apontam também que o filme está em franco diálogo com a cultura do presente, o mundo onde as crianças do público moram: ou seja, cercado de celebridades e subcelebridades, do culto à imagem. “A ideia é mostrar que existe algo maior do que isso: a cumplicidade e a amizade. Não é preciso ser o vencedor para ganhar. O respeito ao próximo e a diversidade são muito mais importantes”, aponta o diretor.

Já Costa complementa que a trajetória de Jack é exatamente a da desconstrução, de um homem famoso que descobre a importância das coisas simples da vida. “Queremos mostrar como há coisas mais importante do que a fama. Ser famoso pode ser até legal, mas há um mundo muito maior do que isso.”