23/07/2026

Documentário resgata a importância do SUS no enfrentamento da pandemia

Premiada no É Tudo Verdade, cineasta Ana Petta fala sobre “Quando falta o ar”, que chega aos cinemas nessa quinta (09/03), e foi codirigido com sua irmã, Helena Petta. (Foto: Victor Jucá/Divulgação)



Ana e Helena Petta, filmando Quando Fatla o Ar em Recife (Crédito: Victor Jucá/Divulgação)

Praticamente um ano depois de ganhar o festival É Tudo Verdade, o documentário Quando falta o ar, das irmãs Ana e Helena Petta chega aos cinemas. Filmado durante o início da pandemia, em 2020, o filme resgata a presença das mulheres no SUS e no enfrentamento da Covid – em especial naquele momento.

Helena, médica infectologista, e Ana, atriz e diretora, começaram o filme a partir dos registros que Helena fazia de colegas da linha de frente – naquele momento, ela mesma estava envolvida com pesquisas e não participava desse trabalho. “Todo mundo estava tomando consciência de que era um momento histórico. Era muito angustiante para ela não poder estar ali, por isso sugeri de gravar com os colegas”, conta Ana em entrevista ao Cineweb.

A partir das entrevistas de Helena, as irmãs perceberam que havia algo maior, algo que precisava ser registrado, como um documento e como um aviso para as gerações futuras. Percebendo que não havia tempo a perder, elas resolveram fazer um filme: era um documentário de urgência. “Era uma equipe mínima, testando o tempo todo. A gente filmou em presídios, UTIs, não podia ter muita gente mesmo, e também tínhamos de respeitar o limite do local.”

O longa faz um retrato humanamente rico dessas mulheres que enfrentavam a doença, na época, ainda menos conhecida do que agora e sem a disponibilidade de vacinas. “Acredito que muita gente aceitou participar do filme, deixar-se filmar, filmar seu trabalho, por conta da presença da Helena, que é médica e entendia bem o que estava acontecendo. Para mim, tudo era espanto e angústia.”

Ainda assim, o mundo hospitalar não é exatamente uma novidade para Ana. Ao lado do roteirista Newton Canito, ela e Helena criaram a série Unidade Básica, exibida na TV por assinatura desde 2016. Ambientado num posto de saúde de um bairro periférico, o programa traz Ana como uma médica, ao lado de Caco Ciocler.

Esse dois olhares, o da médica e o da atriz, combinam o lado técnico e o artístico em Quando falta o ar, mas tudo converge para uma única coisa: a fragilidade humana. “O tratamento da pessoa, e não da doença, é o que mais chama a atenção no filme. Todas as profissionais retratadas encontram uma forma sensível de cuidar dos pacientes.”




O filme mostra os esforços do SUS para chegar a todos lugares no enfretamento da pandemia (Crédito:Tarso Sarraf/Divulgação)


Exatamente três anos após o primeiro lockdown no Brasil, retomar esse momento no documentário é um possível gatilho para muitas pessoas – e com muitos motivos. O filme traz imagens daqueles momentos de exasperação dentro dos hospitais, quando pouco se sabia sobre a contaminação e as formas de lidar com a Covid. “Nos telejornais só se falava nisso, e não sem razão. Mas como iríamos fazer um filme de algo de que se falava tanto? Como buscar um outro ângulo?”

A saída, segundo Ana, foi encontrar um tempo próprio para o filme, que se decantou ainda mais na montagem de Paulo Celestino. “Como não tínhamos a pressa de colocar a matéria no ar, como um telejornal, pudemos observar melhor o ambiente, o trabalho das profissionais da saúde. Um tempo menos frenético.”

As irmãs cineastas buscaram construir um filme mais sensorial e sensível. Ana define como um cinema de observação, que foi buscar inspiração em cineastas com a brasileira Maria Augusta Ramos (O Processo, Amigo Secreto) e no norte-americano Frederick Wiseman, cuja obra inclui o documentário Hospital. A outra influência que Ana cita é a japonesa Naomi Kawase – que tem documentários e ficções em sua obra. “A questão dos sentidos é muito forte nos filmes dela. Mas também nos interessava muito a escuta. Como atriz, aprendi a estar aberta à improvisações. No documentário, isso vem do inesperado das entrevistas, do momento.”

A diretora também concorda que ver esse filme nesse momento traz a possibilidade de gatilhos, mas também aponta que é a memória de um passado não muito distante, além da evidência de um presente de esperança. Na época em que fizeram o longa, o Brasil passava pelo governo de Jair Bolsonaro, em que o enfrentamento da pandemia foi desastroso, com o SUS correndo o risco de ser extinto a qualquer momento.

“Entendo que as pessoas estejam um pouco cansadas do assunto, mas Quando Falta o Ar é uma memória que precisava ser feita para lembrar como foi e não ter mais fascistas governando o Brasil. Além de valorizar o trabalho do SUS, o filme também agora nos lembra que existe uma nova esperança, um certo alívio de que isso passou.”