23/07/2026

Como uma história pessoal se torna política em “Eneida”

Documentário retrata a história da mãe da diretora, Heloísa Passos, que tenta restabelecer contato com a filha mais velha, que não vê há mais de duas décadas. (Foto: Isabella Lanave/Divulgação)



A diretora Heloisa Passos e a mãe, Eneida, em cena do documentário (Crédito: Isabella Lanave/Divulgação)

Em seu primeiro longa como cineasta, o documentário Construindo Pontes, de 2017, a diretora de fotografia Heloísa Passos colocou ao centro sua relação com seu pai, o engenheiro Álvaro Passos, para quem o Brasil viveu seus melhores anos durante da ditadura civil-militar de 1964. O que se vê na tela são momentos de embates ideológicos de forma quase premonitória de uma divisão que se tornaria ainda mais acirrada no país nos anos seguintes.

Em seu filme seguinte, Eneida, Heloísa novamente traz uma história de sua família, protagonizada pela mãe, cujo nome dá título ao filme. O documentário acompanha a trajetória de sua protagonista em sua buscar por retomar a relação com a filha mais velha, que não fala com a mãe há duas décadas, depois de uma disputa familiar por conta de uma casa.

“O filme é um recorte de uma busca que sempre existiu”, conta Heloísa em entrevista ao Cineweb. “Ela mora em Curitiba, sempre vinha a São Paulo tentar restabelecer contato com a minha irmã. Deixava uma carta, um presente na portaria, mas nunca foi recebida.”

Nascida em Curitiba, Heloísa e sua irmã, com quem também não tem contato, moram em São Paulo, enquanto Eneida e Álvaro ainda moram no Paraná. O documentário, exibido no Festival É Tudo Verdade, é uma jornada que a mãe aceitou que Heloísa filmasse desse desejo de reencontrar a filha primogênita, hoje uma judia ortodoxa.

A situação toda entre a mãe e a filha começou a partir de uma decisão dos homens da família – como fica bem claro no filme – e elas, as mulheres, sofrem as consequências. “Tanto na vida política quando na vida pessoal, são os homens que acabam decidindo nosso destino. Nós fomos ignoradas e nos perdemos nessa história.”

O patriarcado e o machismo estão presentes também no cinema, em que Heloísa se estabeleceu primariamente como diretora de fotografia, tendo assinado filmes como Deslembro, de Flávia Castro, e O que se move, de Caetano Gotardo. Ao lado de Kátia Coelho, ela foi uma das pioneiras na área no Brasil, num campo ainda dominado pela presença masculina, apesar das mudanças nos últimos anos.

“No Oscar, por exemplo, apenas três diretoras de fotografia foram indicadas nesses anos todos”, lembra Heloísa, que é votante do prêmio desde 2017, quando a Academia de Ciências e Artes de Hollywood abriu-se um pouco mais para estrangeiros, com o intuito de diversificar a premiação. “Mas eu estou lá como documentarista, não fui convidada como diretora de fotografia.”

Ela conta que existe uma pressão para que haja a reparação nesses anos todos do apagamento da presença feminina no cinema. “Muitas vezes nem colocaram meu nome no cartaz de filmes. Estava todo mundo lá, menos eu. Então minha opção é de trabalhar apenas com pessoas interessadas e que respeitam isso. Minha filmografia reflete minhas escolhas políticas.”

E, nesse sentido, este é um filme altamente politico – fala sobre questões que dizem respeito às mulheres, como o próprio silenciamento e a maternidade. Não poucas vezes, Eneida Passos deixa claro o quanto o machismo pesou em sua vida. Hoje, com mais de 80 anos, ela se mostra muito consciente disso, e como essa tentativa de reatar com a filha, a seu modo, é político. Em Eneida, o pessoal é político.

Heloísa conta que a mãe gostou muito de se ver na tela, e “quer fazer outros filmes”. Mas houve dois momentos que ela pediu para tirar.
O primeiro, uma fala que ficou num tom que ela não gostaria, e Heloísa aceitou cortar do filme. “Era algo que não fazia diferença”. O segundo era quando Eneida, de costas, coloca o sutiã. “Ela não queria exposição do corpo. Mas conversamos muito, e eu expliquei como aquilo mostrava algo da geração dela. É um tipo de sutiã, que é daquela geração. Eu não sei colocar aquele modelo, por exemplo, por isso queria evidenciar isso no filme, que é algo dela.” A mãe acabou convencida, e a cena está no documentário.

Heloísa explica que existe um limite ético, especialmente em se tratando de sua família. As pessoas que não aparecem em cena, como sua irmã e a família dela, estão com nomes fictícios, e aqueles que mandaram mensagem de áudio, por exemplo, foram dublados por atores profissionais.

As mais de 60 horas de filmagens foram montadas por Tina Hardy, que constrói uma narrativa dramática e, de certa forma, também de suspense: haverá o encontro entre mãe e filha? Haverá a reconciliação? Embora isso seja fundamental para Eneida, Heloísa mostra que o filme vai além dessa questão. “Minha mãe entendeu junto comigo que o que vale é a jornada.”

Entre suas influências, Heloísa cita a belga Chantal Akerman e o norte-americano John Cassavetes. “Ele sabia filmar muito bem a posição da mulher dentro da família.” Já com a outra cineasta, que também tem filmes familiares em seu currículo (como Notícias de Casa e Esse não é um filme caseiro), a documentarista diz ter apreendido “o lugar da mulher numa sociedade machista.”

Outro filme que ela cita, não exatamente como uma influência, mas como uma forma de enxergar a arte, é O Amor Segundo B. Schianberg, dirigido por Beto Brant, no qual ela foi diretora de fotografia. “Um personagem pergunta o que é mais importante: a arte ou a vida? E para mim, é a vida.” E, talvez por isso mesmo, os filmes de Heloísa sejam tão cheios de arte e de vida.