“Segundo tempo” olha para o passado da Alemanha para falar do presente do Brasil
Longa dirigido por Rubens Rewald aborda as origens do nazismo por meio da história de dois irmãos brasileiros, filhos da primeira geração de imigrantes
- Por Alysson Oliveira
- 15/03/2023
- Tempo de leitura 3 minutos

Kauê Telloli e Priscila Steinman em cena do filme rodada na Alemanha (Crédito: Divulgação)
“A gente não tem a tradição de cultuar a nossa história, não se olha nem para o passado nem para o futuro”, comenta o dramaturgo, roteirista, cineasta e professor Rubens Rewald sobre seu novo filme, Segundo Tempo, que chega aos cinemas nessa quinta (16). Como ele insiste, no entanto, essa ideia de pensar na nossa história não tem nenhum viés de nacionalismo exacerbado, é pela questão mais primordial mesmo: entender como chegamos até aqui e como podemos transformar o futuro.
Esses são exatamente os temas do filme, mas no âmbito pessoal de dois personagens. Carl (Kauê Telloli) e Ana (Priscila Steinman) são filhos de um alemão, Helmut (Michael Hanemann), que imigrou há anos para o Brasil. Quando pai morre, meio desnorteados e sem perspectiva de vida, eles viajam à Alemanha para buscar a história desconhecida do passado do pai.
“É necessário conhecer sua própria história. Veja o Brasil, por exemplo, apenas agora se reconhece como um país violento e escravocrata, e isso explica muito o nosso presente. E, a partir dessa consciência, podemos pensar como mudar.”
Filho da primeira geração de uma família de imigrantes judeus, Rewald acredita na importância da mistura das culturas e dos povos. “Não gosto muito de gueto, mas isso não quer dizer que devamos abandonar nossa herança cultural. Sou de uma família de exilados, e isso se tornou uma questão no filme. Meu pai e sua família vieram da Alemanha, fugindo do nazismo, e minha mãe tem origens húngara e turca, e se conheceram em São Paulo.”
Ele se perguntou como dois jovens lidariam com essa questão no presente globalizado. “Falar do nazismo não é exatamente falar do passado. O mundo tem se tornado cada vez mais fascista, e o Brasil é a prova disso. Por isso, olhar para esse passado, para o nascimento no nazismo na Alemanha, é falar do nosso presente brasileiro também”.

Rubens Rewald, roteirista e diretor do longa (Crédito: Divulgação)
Segundo Tempo foi filmado em São Paulo, em Frankfurt e Tu?bingen, na Alemanha, e conta com elenco e equipe dos dois países. Na busca por seu passado, Carl e Ana acabam se deparando com as razões da ascensão de Hitler num país em profunda crise no período entreguerras. Rewald aponta que isso só aconteceu por ter, em especial, adesão de jovens. “Muitos deles, como mostra o filme, não sabiam o que estava acontecendo. Aliás, naquele cenário, nem tinham muito bem como saber. Não havia como estar fora do sistema. Meu pai dizia que o mundo era nazista, e havia um carisma inegável, ao menos no começo, do contrário, não teria tido tanta adesão.”
O cineasta define filmar em outro país como “uma experiência maravilhosa”, que contou com o conhecimento e experiência de profissionais alemães que se uniram à equipe brasileira. “Foi necessário um tempo para o entrosamento, são dois povos muito diferentes. O clichê é verdade. O alemão é muito disciplinado, o brasileiro, não muito. E estávamos em outro país, tudo era novidade, queríamos fazer turismo também”, diverte-se.
Rewald, ao longo da pré-produção, percebeu que não seria possível colocar um ator brasileiro como o patriarca, fazendo um sotaque alemão. A princípio, Hanemann foi pensado para um outro papel, que faria na Alemanha mesmo, mas ele era jovem demais para o personagem, então o diretor o escalou para interpretar Helmut. “Como ele não fala português, decorava o texto e marcava o final da fala do outro personagem para que ele desse sua fala. Por isso, não se podia mudar o diálogo em cena.”
