05/06/2026

Premiado “Noites Alienígenas” leva à tela uma Amazônia urbana longe do estereótipo

Diretor Sérgio de Carvalho conta como foi fazer um filme no qual a vida dos personagens estão marcadas pelo tráfico de drogas na região. (Crédito: Festival de Gramado - Cleiton Thiele/Agência Pressphoto)



Sérgio de Carvalho no Festival de Gramado (Crédito:
Festival de Gramado - Cleiton Thiele/Agência Pressphoto)

Sempre que fala de seu longa de estreia, o premiado Noites Alienígenas, o cineasta Sérgio de Carvalho é categórico: “Esse não é o primeiro filme do Acre, é o primeiro para cinema. O estado tem uma produção muito significativa desde a década de 1970, mas os filmes eram consumidos localmente.”

Ganhador de cinco prêmios em Gramado em 2022, – entre eles melhor filme e prêmio da crítica –, o longa foi inteiramente filmado no Acre, com uma equipe de profissionais locais e de outros estados. “Se o cinema está acontecendo no estado, isso é fruto das políticas públicas de descentralização. Noites Alienígenas nasceu do último edital longa B.O. (baixo orçamento) do Ministério da Cultura [antes de ser extinto em 2019, no governo de Jair Bolsonaro]”

O longa nasce de um livro homônimo de contos do próprio diretor, paulista de nascimento, que o escreveu quando se mudou do Rio de Janeiro, onde fez cinema, para o Acre, onde se estabeleceu há mais de 20 anos. “Eu me surpreendi com o que encontrei aqui. E o livro veio dessa descoberta, mas também de outras questões sobre as quais eu pesquisava, como dependência química.”

Ele mesmo define os textos como “bastante cinematográficos” e, quando surgiu o edital para um filme, logo pensou em adaptar seus contos. O primeiro tratamento, conta ele, era quase uma transposição do livro para o cinema. Foi na parceria com o cineasta pernambucano Camilo Cavalcante e o escritor Rodolfo Minari que encontrou o tom certo para o filme.

Noites Alienígenas toca em temas contundentes, entre eles, como o tráfico de drogas transformou a cidade de Rio Branco, próxima das fronteiras entre o Peru e a Bolívia. “É uma periferia urbana distante dos estereótipos da Amazônia, com floresta, toda exótica. O resto do Brasil e o mundo pensam que é tudo assim. Eu mesmo imaginava isso e me ‘frustrei’ quando cheguei aqui. Isso tudo acabou me encantando.”





Gleici Damasceno
e Gabriel Knoxx, em cena de Noites Alienígenas, (Crédito: Wesley Barros/Divulgação)

A mudança da rota do tráfico, passando pelo Acre, aponta o cineasta, tornou a capital mais violenta, surgindo situações que ele só tinha visto em lugares como Rio de Janeiro e São Paulo, como o surgimento de facções. “Isso não estava no livro, e não tinha como fazer um filme sobre esse lugar sem mostrar isso. Hoje essas organizações criminosas são muito presentes. Então, a gente sentiu que isso também era importante. Era importante trazer para o presente e para o contemporâneo o roteiro que, em cinco anos, entre o livro e o filme, mudou radicalmente.”

Noites Alienígenas acompanha um grupo de personagens na periferia de Rio Branco, cujas vidas são marcadas por essa transformação e pelo forte senso urbano da região. São figuras que trabalham no tráfico ou estão envolvidas com drogas, mas também buscam sua ancestralidade indígena, ou encontram em formas de arte tipicamente urbanas – como grafite e hip hop – uma maneira de se manifestar.

O elenco traz Chico Díaz, o estreante Gabriel Knoxx e Joana Gatis – os três premiados em Gramado –, além do ator e dramaturgo indígena Adanilo (Rio do Desejo) e Kika Sena (Paloma). Para preparar esse elenco, Carvalho explica que foi preciso encontrar uma espécie de DNA local, uma compreensão e sensibilidade.

“O Chico, o mais veterano do elenco, tem essa sensibilidade, para escutar os outros, para descobrir e compreender. Isso foi muito contagiante, e o filme acabou sendo um aprendizado não apenas para os atores, mas para toda a equipe, que era formada de pessoas do Brasil todo.”


Depois de Gramado, Noites Alienígenas tem rodado o mundo, e o diretor se diz impressionado com o interesse, em especial dos estrangeiros, pelo filme. “Acredito que tenha a ver com a importância da Amazônia, das questões climáticas. O mundo inteiro está de olho nisso.”

Para ele, o grande desafio, no entanto, está em trazer narrativas que fujam do exotismo. “É preciso debater as pautas dos povos indígenas, dar a eles o lugar de fala. As narrativas que vêm da Amazônia precisam ter mais espaço como um todo. E creio que Noites Alienígenas consegue levar essa mensagem.”