Agniezka Holland esmiúça a fé e a paixão
- Por Neusa Barbosa
- 17/09/2004
- Tempo de leitura 8 minutos
A diretora polonesa Agniezka Holland volta a percorrer um caminho que une a procura mística e emocional em Voltando para Casa, drama que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2002, estrelado pela australiana Miranda Otto, antes que ela se tornasse famosa como a princesa guerreira Éowyin, da trilogia O Senhor dos Anéis. No filme, Miranda interpreta Julie, casada e mãe de família que entra em desespero quando um de seus filhos é acometido de uma doença que os médicos reputam incurável, o que a leva a recorrer a um místico com supostos poderes sobrenaturais (Lothaire Bluteau). Um encontro que provoca toda uma revolução na vida de Julie. Nesta entrevista exclusiva, em Veneza, a cineasta de 56 anos, que vive desde 1981 filmando fora de seu país - entre a França, a Alemanha e os EUA - discorre sobre sua ligação pessoal com a história do filme, inspirado num caso verídico, a recusa de atrizes americanas assumirem o papel da protagonista e os obstáculos que ela vê no caminho das mulheres diretoras. Cineweb - A senhora já havia tocado num tema religioso em O Terceiro Milagre. Por que ele a interessou novamente agora? Agniezka Holland - Não é que eu seja tão espiritual. Para mim Voltando para Casa trata muito mais de fé em você mesmo, de como você leva sua vida do que ter uma experiência mística. A religião está de qualquer modo no fundo disso, mas eu queria mostrar que a religião oficial, a medicina oficial, não dão as respostas que as pessoas procuram. E elas procuram essas respostas em diferentes áreas que tanto podem ajudá-las como destruí-las. Cineweb - A história tem algo de pessoal ? Soube que a senhora teve uma amiga que passou pela mesma situação da protagonista do filme. Agniezka - Sim, é verdade. E eu não mudei tanto a história assim para filmá-la. Claro que acrescentei novos personagens mas a trama era muito similar ao filme. Acho que essa história ficou comigo, cresceu em mim através dos anos. Cineweb - Quando foi que isso aconteceu? Agniezka- Em 1981. Cineweb - É comum que uma história fique em sua cabeça e só seja desenvolvida muitos anos depois? Agniezka - Sim, isso me ocorreu muitas vezes. Aconteceu por exemplo com Olivier Olivier e outros filmes. Essas histórias têm que seguir seu próprio curso e encontrar-me num determinado ponto onde eu seja capaz de abraçá-las. Cineweb - Como a senhora decide que está pronta para uma história nessas condições? Agniezka - Quando encontro espaço em minha mente para escrever o primeiro esboço. Quando estou escrevendo para mim mesma e não por contrato, não depende de nenhum aspecto técnico e sim da minha necessidade de lidar com aquele tema naquele momento. Cineweb - Como a senhora escreve seus roteiros, de uma vez só ou começa, pára e volta várias vezes? Como foi com Voltando para Casa?Agniezka- Às vezes, faço um primeiro tratamento e deixo de lado por anos. Esse foi o caso de Voltando para Casa. Fiz um primeiro esboço muitos anos atrás. Aí um dia achei que era hora de mexer com ele de novo. Chamei um amigo para passar um tempo comigo e ajudar-me num primeiro tratamento. Então fomos para minha casa de campo e o fizemos em três semanas. Cineweb - E o místico real da história era polonês também? Agniezka- Não. Cineweb - E ele ainda está vivo? Agniezka - Sim, ele vive. Cineweb - Pode-se saber o nome dele? Agniezka- Prefiro não mencionar, por causa de problemas legais. E também eu nunca uso um só personagem quando escrevo, sempre misturo a história de várias pessoas. Então, ao mesmo tempo é ele e não é. Cineweb - Em seus filmes, como este e também em Olivier Olivier, a senhora aborda o tema da dualidade - os dois meninos, os gêmeos. É por acaso ou não? Agniezka - Acho que se trata de algum tipo de obsessão. Eu mesmo levo uma vida dupla, tenho uma identidade dupla. Cineweb - Foi por acaso, então a senhora fez um outro filme com tema místico, sobre a Cabala, para a TV polonesa? Agniezka - Fiz esse filme há três anos. Foi a filmagem de uma peça, feito para a televisão. Mas foi uma ótima experiência. Cineweb - A senhora teve a experiência de ser exilada de seu país, na época mais dura do regime comunista. Isso influenciou suas histórias? Agniezka- Certamente. Lembro-me de que quando me tornei uma imigrante, isso não foi realmente uma escolha minha, foram circunstâncias que me forçaram a isso. Foi muito doloroso porque isso acarreta mudanças drásticas em sua vida pessoal, profissional, significa sentir-se inseguro, afeta sua conexão com toda a realidade. Mas num determinado momento notei que minha situação tornou-se mais verdadeira. Cineweb - Como assim? Agniezka - De algum modo, todos estamos sós no mundo. Encontrei este forte sentimento de ser existencialmente só. E quando você está entre o seu povo, você é sempre absorvido pelo dia a dia. Quando você é imigrante, de repente torna-se muito brutal e muito claro o que é na verdade a condição humana. Então, você está perdendo muito de um lado, mas de outro também está ganhando o conhecimento de si mesmo. Cineweb - E como foi voltar ao seu país para trabalhar neste filme? Agniezka - Muito bom e um pouco caótico! Cineweb - O filme foi feito em vários lugares, na Polônia, no Canadá... Agniezka - Sim. Os poloneses me forneceram pessoal técnico e foi ótimo trabalhar com eles. Os atores canadenses também foram ótimos, me surpreenderam. As crianças nunca tinham atuado antes. O menino só tinha feito feitos alguns comerciais. Claro que foi duro no caso dele. A menina era muito disciplinada, queria realmente atuar como uma atriz. Por outro lado, ele era muito natural. Eles têm oito anos e meio apenas. Cineweb - A senhora tem algum método especial com os atores em geral? Porque eles parecem tão interligados... Agniezka - Não tenho um método. É como quando leciono na escola de cinema, eu simplesmente tento transmitir minha experiência, é muito difícil racionalizar isto, porque é muito instintivo num certo sentido. Acho que o primeiro segredo está no casting. Você tem que ter esta intuição do que é certo para os personagens e criar o grupo que possa trabalhar junto, o que é muito instintivo, de certa maneira. É como ter ouvido para música ou algo assim. Depois, acho que o grande segredo está na confiança. O ator tem que confiar no diretor. Cineweb - E deixá-la guiá-lo...Agniezka - Não os guio tanto assim. Eles têm que se sentir seguros o bastante para pularem do terceiro andar, se tiverem de fazê-lo, e acreditar que você irá pegá-los. Cineweb - A senhora gosta de ensaios antes das filmagens? Agniezka - Depende do filme. Em Washington Square, porque era uma adaptação de Henry James, era um clássico, achei melhor. Em Voltando para Casa, tínhamos uma história contemporânea, o que precisávamos era encontrar a verdade das cenas. Não fazia sentido exagerar nos ensaios. Prefiro muito mais manter vários encontros com os atores e que eles conversem entre si. É muito importante que eles se familiarizem uns com os outros, num certo sentido. Cineweb- Raramente se vê um personagem feminino com a complexidade de Julie. Normalmente no cinema as mulheres são santas ou prostitutas. Ela não é nada disso e tem esta amplitude de emoções e pensamentos. Agniezka - Sim. O curioso é que quando comecei o casting para este filme, mostrei o roteiro a algumas atrizes americanas. E elas foram incapazes de aceitar algumas das escolhas da personagem. Diziam que não era simpática, não estava certa. Mas é claro que se você tivesse a paixão, a coragem, a necessidade ou a oportunidade de fazer todas as coisas que quer, nem sempre é simpática, nem sempre está certa. Por isso não pude usar atrizes americanas. Cineweb - Elas queriam tudo muito preto ou branco...Agniezka - Sim. Você tem que ser o bonzinho ou o bandido, nada entre os dois. Cineweb - A senhora acha que há alguma peculiaridade em ser uma cineasta mulher? Porque afinal de contas não existem tantas assim em atividade no mundo. Agniezka - É uma profissão muito difícil, creio. Fisicamente exigente, terrivelmente estressante. As filmagens são particularmente tensas para mim por causa dos prazos. Você tem que ficar no controle de tudo, cobrar o que não está funcionando. Você tem que ser a lutadora, a briguenta, de alguma maneira. E às vezes o que você procura é atingir a bondade, a poesia com seu trabalho, é uma combinação muito difícil. Também é preciso sacrificar muito da sua vida privada, do seu tempo, é um trabalho muito absorvente. Provavelmente, não é a escolha que muitas mulheres fariam. Além disso, os homens também temem quando as mulheres têm o poder. Um diretor tem um certo tipo de poder. Talvez também seja mais difícil para o talento de uma mulher atravessar as barreiras. Não porque ela não possa exercê-lo, mas porque é desestimulada. Acho que alguns tipos de críticos também são mais agressivos com as diretoras mulheres. Cineweb - A senhora mesma sente isso? Agniezka - Sim. Cineweb - A senhora identifica essa atitude negativa em todo lugar ou em algum país em especial? Nos EUA por exemplo? Agniezka - Sim e na França também. Ainda assim, acho que o futuro pertence às mulheres. Cineweb 16-09-04
