05/06/2026

O processo de amadurecimento de Joana

A diretora e roteirista Cristiane Oliveira fala sobre seu belo "A primeira morte de Joana", que chega aos cinemas nessa quinta (05). Foto:Gustavo Falcão/Divulgação





Cristiane Oliveira, diretora de A primeira morte de Joana, e A mulher do pai (Crédito: Gustavo Falcão/Divulgação)

De certa forma, a diretora e roteirista Cristiane Oliveira lembra as protagonistas de seus dois longas: Mulher do pai
e o mais recente A primeira morte de Joana. Em ambos, retrata-se duas jovens adolescentes descobrindo o mundo em seus ritos de passagem rumo ao amadurecimento. Embora a cineasta já tenha saído da adolescência, em conversa ela demonstra a mesma curiosidade sobre o mundo e as pessoas, especialmente um olhar que parece observar a tudo com muita atenção. Ela mesma define os filmes como “um olhar sobre a mulher múltipla, investigando o que a gente sente no processo de amadurecimento”.

A primeira morte de Joana, que fez sua estreia nacional no Festival de Gramado de 2021, acompanha a personagem-título, interpretada por Letícia Kacperski, uma adolescente numa pequena cidade no Rio Grande do Sul que vivencia sua primeira experiência de perder uma parente - no caso uma tia-avó, a quem ela era muito apegada. Aos poucos, ela descobre ainda mais coisas sobre a falecida, como o motivo pelo qual ela nunca se casou – queria, basicamente, manter sua independência. Nesse processo confuso de luto, Joana também descobre mais sobre si mesma, ao lado da melhor amiga, Carol (Isabela Bressane).

Parte das características da personagem vem das experiências da própria diretora, da atriz Silvia Lourenco, que colaborou no roteiro, e das duas jovens atrizes. “Eu sofria com as imposições de papéis de gênero na escola, por exemplo. Como acontece com a própria Joana no filme. Há certas humilhações que são destinadas apenas às mulheres”, observa Cristiane.

A ideia para o filme surgiu por volta de 2010, numa pesquisa para “entender o que se passa hoje com os jovens”, quando a diretora descobriu que na Suíça há um sistema educacional que trabalha com a neutralidade de gênero desde as primeiras séries – meninos e meninas são tratados e tratadas iguais. “Há uma educação integral, que aborda temas como sexualidade. Obviamente, lida com questões condizentes com cada idade.” No Brasil, diz ela, ainda há muito a se fazer, e, como exemplo, cita o fato de que A morte de Joana tem classificação indicativa de 14 anos. “Quando estreou na França, recebeu classificação livre, e aqui, essa idade alta, o que é um tanto frustrante já que é um filme que dialoga especialmente com o público adolescente. Ou seja, no Brasil, há 14 anos de atraso no acesso a determinadas informações.”





Letícia Kacperski em cena de A primeira morte de Joana (Crédito: Divulgação)


Filmado na região dos municípios de Osório e Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, A primeira morte de Joana
aborda, entre outros temas, o embate entre o conservadorismo das pequenas cidades e uma visão mais progressista de mundo, mais em sintonia com o presente das duas adolescentes. No cenário, isso é marcado pela construção de enormes cataventos em contrapartida a tradições germânicas que são mantidas por moradores. A família de Joana, por exemplo, vive da venda de cucas – uma torta tipicamente alemã.

“Eu tinha vontade de falar dessa força da natureza, os ventos, como, também, na transformação dos afetos. É uma região de forte influência germânica, mas também dos quilombos. No filme, isso se dá com a presença de religiões de matrizes africanas. Há um sincretismo religioso muito interessante ali”. Joana vive com a mãe (Joana Vieira) e a avó (Lisa Becker), uma família com a qual Cristiane também compara à sua. “Cresci numa família de mulheres, e isso se deu de forma natural. Lembro da minha avó fazendo cucas também.”

Filmado em 2018, o longa contou com bastante preparação das duas atrizes adolescentes, Letícia e Isabela. “Conversamos muito, e também elas construíam as cenas, nos ensaios, a partir delas mesmas, de suas experiências. Incorporei muito disso no filme. O processo de adolescer é escutar o outro, e a Joana tenta entender as pessoas. Tentei trazer isso também para as filmagens.”