23/07/2026

Documentarista Marcos Pimentel aborda dois momentos do Brasil em ‘Amanhã’

Julia, filmada em 2002, para o documentário Amanhã

O novo filme de Marcos Pimentel,
Amanhã, começou a ser feito duas décadas atrás, quando o cineasta havia acabado de se mudar para Belo Horizonte. Enquanto andava pela cidade, a fim de conhecê-la melhor, ele encontrou a Barragem Santa Lúcia, uma espécie de lagoa artificial, que separa dois bairros. “Eu me assustei com o que vi: de um lado havia moradores de classe-média alta, e de outro uma favela. As pessoas que faziam caminhada contornando a lagoa não completavam o trajeto, iam até a metade, ficando apenas do lado onde moravam”, explica em entrevista via Zoom ao Cineweb.

Pimentel chama isso de um apartheid social, e descobriu que a situação acontecia há muito tempo. A partir desse episódio, com a ajuda de uma pequena equipe criou um dispositivo: uma criança de cada lado da barragem visitaria a casa da outra, e passariam um domingo juntos. As filmagens acompanhariam como cada criança reagiria a essa nova realidade. O filme começa aí, em 2002, mas iria terminar só 20 anos depois, quando, novamente, o documentarista volta ao lugar em busca daquelas crianças, agora adultas.

“Desde que terminei as filmagens, aquelas crianças nunca mais saíram da minha cabeça. Foram encontros tão fortes, que me acompanharam ao longo de todo este tempo. No último dia de filmagem em 2002, um dos meninos, o Cristian, olhou para a câmera e perguntou se voltaríamos no dia seguinte. Eu sabia que não voltaríamos, mas a insistência dele nesta pergunta me fez pensar na responsabilidade que temos com as pessoas que filmamos e que se tornam personagens dos filmes que construímos. Passei 20 anos questionando-me se deveria voltar e quando deveria voltar.”

De um lado, Pimentel descobriu Cristian, que morava na favela, e também filmou sua irmã, Julia, que interagiam com Zé Thomas, morador do outro lado da barragem. A realidade que Pimentel encontrou em 2022 não foi muito diferente, mas, ao mesmo tempo, era. Afinal o próprio país tinha passado por mudanças radicais. Como ele mesmo ressalta, as duas filmagens coincidiram com o primeiro governo do presidente Lula e a reeleição de seu terceiro mandato.

“Entre 2002 e 2022, o país foi virado do avesso e a sociedade brasileira reflete cada uma dessas mudanças. Os trágicos quatro anos do governo Bolsonaro me deixaram com a certeza de que havia chegado o momento certo para voltar. Havia ali um ponto de mudança capaz de dialogar perfeitamente com o efeito do tempo sobre as crianças filmadas em 2002.”

Ele acredita que, com Amanhã, leva o público a refletir sobre o país ao longo dessas duas décadas, as transformações sociais, políticas, econômicas, culturais que enfrentamos nesse período e governos. “O mundo saiu do armário politicamente. Nesses 20 anos, vimos o Brasil sendo virado do avesso.”

Pimentel declara esse como o filme mais difícil de sua carreira, que inclui outros como Fé e Fúria e Pele. “Tudo dava errado. O Zé Thomas não quis voltar a participar do filme. A Julia desaparecia constantemente. O Cristian não estava no começo da segunda etapa de filmagem, voltava depois. E eu tinha consciência de que o material não era suficiente.”

A negativa de Zé Thomas em retomar o filme em 2022 levou Pimentel a se concentrar nos irmãos Cristian e Julia, uma vontade que ele tinha desde a retomada do projeto. “Os únicos registros que eles tinham da infância deles eram os do filme, e estavam comigo. Dar a oportunidade de eles e a mãe deles rever isso, foi muito importante e emocionante.”

Pimentel conta que também teve de decidir como construir a narrativa do longa, como estabelecer o diálogo entre os dois tempos. “E também tive de colocar a minha voz, me colocar dentro do filme. Eu nunca tinha feito isso antes. Foi importante para trazer algumas reflexões que não conseguiria fazer apenas com imagens.”

Atualmente, o diretor está finalizando um novo longa, agora de ficção, seu primeiro para cinema. Ele já havia feito, em 2018, Dia de Reis, uma adaptação da peça Noite de Reis, que se passava no interior de Minas Gerais, e foi exibido na televisão. O projeto era protagonizado por Bárbara Colen, que, novamente, estrela o novo filme.

A escolha pela ficção se deu por conta do tema, a produção de carvão. Ele conta que seria impossível entrar com uma câmera em certos lugares para fazer um documentário, então ele optou por lidar com o tema por meio de um drama. “Mas eu sou e sempre serei documentarista. Não estou documentarista, eu sou documentarista”.