06/06/2026

João Moreira Salles exibe o álbum íntimo da campanha de Lula

Depois de dois anos de muita tensão, em que não faltaram momentos de desespero por sentir que não tinha um filme, apesar das 240 horas de material filmado, o cineasta João Moreira Salles finalizou Entreatos - documentário que revela bastidores da campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Dispondo de um acesso inédito ao futuro presidente da República, Salles opta por não sair dos cenários de hotéis e jatinhos presidenciais, revelando conversas, piadas, inconfidências, desabafos e até o momento em que Lula confirmou sua vitória. Momentos íntimos de uma campanha que ele considera única e irrepetível, por conta da trajetória ímpar do próprio presidente. Driblando polêmicas sobre o momento do lançamento e negando qualquer interferência do governo na sua montagem - que reitera sempre ter sido à revelia do noticiário -, Salles detalha o processo do nascimento deste filme e explica porquê acredita que não poderia haver melhor momento para lançá-lo.

Cineweb - Como foi passar de um personagem tão silencioso quanto Nelson Freire para um tão falante quanto Lula?

João Moreira Salles- Evidentemente, isto não é uma coisa calculada, acontece. No caso do Nelson, eu tive de descobrir no meio do caminho que o silêncio era bom e que o silêncio dizia coisas também. Acho que o Nelson presta a mais linda homenagem que eu posso imaginar a Guiomar Novaes sem abrir a boca, quando ele coloca o disco e ouve a Guiomar Novaes. Então, no filme do Nelson eu aprendi a valorizar o silêncio, a reticência. No Lula, é exatamente o oposto.

Cineweb - Com o Lula não tem silêncio...

b>João - Se você me perguntar, eu acho que faz falta o silêncio no filme. Eu gostaria que tivesse mais silêncio. Eu gostaria que tivesse o momento em que eu pudesse filmar o Lula de longe, andando. E sempre houve uma preocupação imensa, ao longo da edição, de que isso era insuportável, que ninguém ia agüentar, porque é muita fala. E sempre uma fala exagerada, quase teatral. Não que seja mentirosa, mas há uma encenação. Acho que faltou um momento em que o Lula se calasse. Na verdade isso é um desejo. E a gente como documentarista aprende uma coisa dura, que não adianta impor a nossa vontade à realidade. Ela é o que ela é. E no caso do Lula, ele é essa personalidade.

Cineweb - Como você o descreve?

João - O Lula é um sujeito gregário que provavelmente não esteve só nos últimos 30 anos. Eu duvido que o Lula tenha feito alguma refeição, tomado um café da manhã, ido passear na praia, dirigido um carro, pego um avião sozinho. Não pegou. Acho que ele não tem isso. Então é um filme avassalador nesse sentido. Porque é um filme em que ele fala do do começo ao fim. E essa foi uma mudança muito grande em relação ao meu filme anterior (Nelson Freire). E que me incomodava muito no sentido de achar que o público não toleraria, porque seria cansativo. Por outro lado, é uma fala tão extraordinária - eu acho - de um personagem tão extraordinário, num momento da história tão extraordinário, que eu achei que valia a pena arriscar. Mesmo que o filme não dê certo, o documento existe e é importante.

Cineweb - De que maneira você situa essa importância?

João - As coisas que o Lula diz são importantes. Elas podem ter sido organizadas de forma tediosa, de forma lenta, mas elas estão aí e isso é um valor intrínseco do filme que é inquestionável. Isso tudo existir como documento é extraordinário. A grande dúvida é se a gente conseguiu transformar o documento em documentário. Se o documentário tem a importância do documento. Isto eu não sei dizer, não cabe a mim dizer. Mas eu tenho um pouco essa intuição de que, com o tempo, o bruto se tornará mais importante do que o filme. Dentro de 50 anos, 60 anos, as pessoas poderem ter acesso ao bruto desse filme, 240 horas, de um registro muito próximo e muito completo, em função do acesso que eu consegui. É um fato extraordinário. É bom que isso exista.

Cineweb - A gente nunca teve um filme desse tipo sobre presidente algum no Brasil.

João - Eu acho que não existe nenhum filme no mundo como esse. Não porque o filme seja excepcional, mas porque nunca houve um candidato como o Lula. Por todas as razões. Um candidato que tivesse feito essa trajetória tão extraordinária. Vindo da pobreza mais abjeta à Presidência da República, sem o percurso tradicional, que dizer, do sujeito que é pobre, que estuda, que entra para a faculdade, que se torna uma pessoa de classe média, que ascende. Essa trajetória não é nova. A origem também do Nixon era de gente muito pobre. Mas é uma trajetória que a gente conhece muito mais. Agora, no caso do Lula, é um sujeito que foi sempre um brasileiro do lado de lá do trilho, como dizem os americanos. Um operário, que não se tornou um sujeito de classe média no sentido burguês do termo "classe média". Então esse percurso é único e portanto não existe nenhum filme sobre alguém que tenha feito isso. Em segundo lugar, nunca houve um presidente com esse grau de informalidade, que tenha permitido a uma equipe um acesso tão extraordinário. De fato, eu não conheço nenhuma imagem de um presidente na hora em que ele ouve que é o novo presidente da República, porque de fato não existe. Porque nenhum presidente permitiu que uma câmera estivesse ao lado dele nesse momento. Isso é extraordinário e eu devo isso a essa personalidade informal, intuitiva do Lula.

Cineweb - Acho que o momento mais emotivo é quando ele e a Marisa estão sentados no chão, sem sapatos, olhando pela televisão um programa sobre a vida dele.

João - Acho que ali tem uma coisa legal também porque é uma cena muito comovente e ao mesmo tempo melancólica, no sentido de que é necessário que ele esqueça um pouco a utopia para poder ser eleito. Não acho nem que o Lula seria um bom presidente se vencesse em 1989, 1994, 1998, quando ele concorreu. Acho até que então ele seria um mau presidente. Mas de fato tem um sonho ali, tem uma utopia ali, quase quixotesca, de um sujeito que é operário, que quase chega à presidência sem abandonar os seus ideais. E para vencer você precisa fazer concessões, não digo que sejam imorais. O Lula não fez nenhuma concessão imoral, nenhuma que feriu os seus sentimentos mais íntimos do que ele é, do que deve defender. Mas ele naturalmente se transforma no processo.

Cineweb - É uma transição.

João - E aí ele se torna um homem como nós e perde o status de mito. Então ele ali sentado no chão está se dando conta desta transformação e, ao mesmo tempo, desta extraordinária trajetória que culmina na eleição dele e que realmente é um fato extraordinário. Então ali você tem vários sinais. Você tem o sinal da epopéia que foi cumprida. Você tem o sinal da exuberância desse momento da vida brasileira, elegemos um torneiro mecânico. Mas ao mesmo tempo você tem também uma leitura melancólica desta cena porque se o Lula se elegeu não é mais aquele Lula heróico das greves de 1979 e 1980. Por isso eu acho que aquela cena é boa.

Cineweb - Numa das cenas do avião, em que ele fala do Lech Walesa e da formação do PT, você vê que ele tem um raciocínio extremamente sofisticado sobre o processo político, que não vem da sociologia, como ele mesmo diz, mas da experiência dele, da intuição. Ele é um animal político nato, você vê nas menores coisas.

João - Concordo inteiramente com você. Eu acho aquele avião maravilhoso, para falar a verdade.

Cineweb- E também não haverá muitos filmes no mundo que foram feitos num avião nessa situação. Até pelo grau de formalidade de um candidato, tudo tão calculado numa campanha, os assessores vão falar: "para que colocar um documentarista aqui, de repente ele pega uma coisa que não é para ver...".

João - Isso é um bom sinal. Isso eu não posso tirar do Lula. Ele permitiu que o filmasse dessa maneira alguém que ele não conhecia, alguém que não tinha em relação a ele nenhuma identidade. Eu não sou do PT, não sou sindicalista, não tenho uma vida de luta popular, eu nasci num mundo que é a antípoda absoluta do mundo no qual o Lula nasceu, quer dizer, não temos uma identidade de classe e no entanto ele me permitiu filmar.

Cineweb - Alguma liderança do partido poderia até colocar uma objeção a isso. Isso se o Lula tivesse perguntado a opinião de alguém, o que acho que ele não fez. Decidiu sozinho.

João - Eu tenho a certeza de que não perguntou para ninguém. Na cena em que aparece o José Dirceu, isto fica claro, que o Dirceu está tomando conhecimento do filme naquele momento. Ele está sabendo ali que está sendo feito um filme por gente que não é deles. E como um sujeito responsável, ele quer saber o que está acontecendo.

Cineweb - Desde o começo, você e o Coutinho tinham planejado fazer dois filmes, lançar simultaneamente e até o horizonte de lançamento era um ano ou dois depois. Até pelo processo normal de montagem. Agora, de algum modo como é que você avaliou isto, este momento político dois anos depois, o Lula não é mais o mesmo da campanha, isto vai repercutir no meio de um mandato?

João - Acho que é o melhor momento para lançar este filme. E, de novo, isto não foi uma coisa calculada. O filme me tomou dois anos. Tive muita dificuldade com o material bruto. Tentei fazer vários filmes diferentes. Em determinado momento, achei que não tinha filme nenhum, me desesperei várias vezes. Tentei romper com a cronologia, tentei usar público e privado, tentei usar só o privado, tentei usar só o público, tentei usar o público primeiro, contar a campanha toda do ponto de vista público, voltar para o primeiro dia e contá-la de novo do ponto de vista privado, tentei todas as estratégias narrativas que me ocorreram. Acabei optando por essa. Então o filme levou muito tempo. Para eu entender que filme eu podia fazer. Agora, digamos que eu lançasse o filme em abril ou maio, poucos meses depois da posse, ainda seria um filme visto sob a euforia da vitória. E é ruim ver o filme dessa maneira. Ao mesmo tempo, o filme visto no ano passado, em que a economia encolheu, o desemprego aumentou, também seria um filme muito contaminado por essa circunstância da conjuntura. O que seria ruim, eu acho. Agora está no meio do caminho e eu acho que é interessante você ver o exercício do poder já de certa maneira maduro. São dois anos, o Lula não pode mais ficar dizendo que está resolvendo problemas de herança maldita. Não, o governo que ele está exercendo é o que ele está exercendo. Que ele escolheu exercer.

Cineweb - Você não vê, então, contradição entre o candidato e o presidente no poder?

João - Podemos ver esse governo hoje à luz do que ele dizia na campanha. E eu acho que, neste sentido, a campanha do Lula e aquilo que eu ouvi e vi confirmam este governo. Eu não acho que o Lula no palanque tenha prometido coisas que de certa maneira não estejam sendo realizadas neste momento. Quero falar principalmente nessa idéia da ruptura, "vamos dar uma guinada neste País, vamos mudar este modelo econômico". Se você reparar naquela seqüência - que é boa mas tenho medo de que as pessoas achem que ela seja só pitoresca - que é a cena da barbearia, o que ele está dizendo no telefone ali, a um jornalista do Rio Grande do Sul, ele está colocando o carimbo na política econômica do Fernando Henrique Cardoso e dizendo que vai prossegui-la. Ele está dizendo que vai respeitar os contratos, afinal de contas as dívidas brasileiras são todas privadas...Acho que ali já está claro que o jogo que vai ser jogado é esse. E que é o jogo que se jogou no governo do Fernando Henrique. Quando ele no início do filme busca o apoio do Cutrale, da Pirelli, da Shell, e seis horas depois busca o apoio dos sindicalistas, é claro que aquele é um governo que vai tentar falar com todo mundo. E portanto não contrariar frontalmente grandes interesses. O governo exercido pelo PT é previsível a partir do filme que eu fiz, eu acho. Por isso é bom, porque você consegue entender o que está acontecendo hoje um pouco melhor à luz do que foi essa campanha. Não vamos mais ver o filme à luz de um grande desencanto ou de uma grande euforia.

Cineweb- De algum modo essas matérias nos jornais sobre o que se tirou ou não tirou do filme, vocês já esperavam reações desse tipo?

João - Eu acho absolutamente natural que as pessoas perguntem se o Lula pediu para tirar alguma coisa, se o PT pediu para tirar alguma coisa, se o José Dirceu, que tipo de contrato foi estabelecido. E é por isso que pela primeira vez na minha vida eu narro na primeira pessoa o início do filme, deixando claras as regras do jogo. Porque de fato isso não aconteceu.

Cineweb - Houve polêmica no caso da fala da mulher que o Eduardo Coutinho cortou...

João - No caso do Eduardo é diferente, até porque o filme do Eduardo não tem nenhuma dívida de lealdade com o Lula. O filme dele independe do Lula, é diferente do meu. Ele não filmou o Lula, ele filmou aquelas pessoas. Acho que ele tem uma responsabilidade em relação àquelas pessoas. Ele retirou a fala daquela senhora por causa dela. Ele não a tiraria em função do Lula porque não tem, em relação a ele, nenhuma obrigação nesse filme, como eu tenho no meu.

Cineweb - Como é essa obrigação?

João - Eu tenho uma questão de lealdade, que é essa questão do documentário, não posso ser desleal, não ao presidente da República ou à pessoa que detém o poder, mas ao personagem que eu filmo. Seja o Lula ou um jogador de futebol ou um pastor evangélico ou um pianista. Você tem um compromisso com o seu personagem e isso é uma relação de respeito e confiança. Nesse caso específico, o filme existe e virou pedra, porque ele é isso e não vai ser outra coisa. Mas o noticiário é vivo. Porque o governo é o do Lula e a todo momento isto está gerando notícias. E algumas dessas notícias acabam dialogando com o filme, por mero acaso. No último mês, houve o episódio dos militares e o problema do Duda Mendonça com a briga de galos. Essas duas coisas estão no filme mas ele já está pronto há quase seis meses. E provavelmente outras coisas acontecerão. A vida é dinâmica e o filme não é. Nem o filme foi montado em função do noticiário.

Cineweb 19-11-04