Em documentário, diretor cria “as memórias póstumas de Grande Otelo”
- Por Alysson Oliveira
- 05/09/2024
- Tempo de leitura 3 minutos
Lucas H. Rossi dos Santos, diretor de Othelo, O Grande (Crédito: Divulgação)
O nome artístico Grande Otelo é grafado sem o H, mas o documentário sobre o artista chama-se
Othelo, O Grande. Quando perguntado sobre essa peculiaridade, o diretor do premiado longa, Lucas H. Rossi dos Santos, sorri e responde: “Ele gostava assim, com o H. Assinava desse jeito, era uma grafia de outro tempo. E eu quis respeitar o desejo dele”.
O jovem diretor nunca conheceu pessoalmente o artista, morto em 1993, mas é como se o conhecesse depois de ficar cerca de uma década trabalhando no documentário, seu primeiro longa, que acumulou mais de 300 horas de material bruto. “O Grande Otelo era uma paixão de infância, era um filme que sempre tentei fazer e nunca deu certo, só agora.” A vasta pesquisa foi coordenada pela renomada documentarista Beth Formagini, que, segundo Lucas, ficou bastante tempo em busca do material.
O que guia o documentário são entrevistas do próprio Otelo, fazendo desse, então, na direção do diretor, uma espécie de “Memórias Póstumas do Grande Otelo”. “Eu cheguei a cogitar entrevistar diversas pessoas falando dele, fazer o filme com esses depoimentos. Cheguei até a entrevistar algumas pessoas, mas abandonei a ideia. Eu queria trazer o cinema para o filme, e a melhor maneira era com a história do Grande Otelo mesmo.”
Foram realizadas mais de 30 pesquisas do artista ao longo de sua carreira, que começou nos anos de 1930 e foi até sua morte, em 1993. O filme é, para o realizador, um mosaico montado ao longo de cinco anos. “Apesar de seguir a ordem cronológica, na maior parte do tempo, não é um filme guiado pela cronologia. Ao colocar a narrativa em primeira pessoa, quis deixar ele contar do jeito dele, dando a ele o seu lugar de fala.”
Grande Otelo, ainda criança, em começo de carreira (Crédito: Divulgação)
O diretor também costuma dizer que vê Otelo como um Griô, que na cultura da África Ocidental tem a função de manter vivas as tradições por meio da narrativa oral. “Eu gosto de imaginar Otelo como um Exu, um orixá que abriu os caminhos para que pessoas negras pudessem estar aqui hoje, trabalhando com arte e cultura no Brasil, inclusive eu. A partir disso, o papel dele é de extrema importância, pois ele conseguiu abrir essa trilha para nós e colaborou não só como artista, mas como um Griô, deixando um extenso legado para as próximas gerações”.
Em seus curtas, Lucas é mais experimental com a linguagem cinematográfica, mas, aqui, explica que tinha de fazer diferente. “Em Othelo, O Grande, eu não podia fazer isso, estilizar o filme, tinha de ser mais sério, pois o objetivo é chegar em mais gente.”
Fazendo o longa, o cineasta destaca ter descoberto que Otelo deixou um marca ainda maior do que ele mesmo, Lucas, havia percebido na cultura e na sociedade brasileira. “O filme faz uma reflexão profunda sobre a história do negro no Brasil. O Grande Otelo se movimentou em estruturas ainda mais racistas do que as de hoje. E tudo o que existe do cinema negro, hoje no Brasil, devemos a ele. Ele tem um valor inestimável para nós, pessoas negras.”
