04/06/2026

A vontade de falar da vida é política


André Novais Oliveira, diretor e roteirista de O dia que te conheci (Foto: Leticia Marota/Divulgação)

O cineasta mineiro André Novais Oliveira é conhecido por seu cinema aparentemente simples, mas que encerra em si enorme complexidade temática e formal. A construção despojada é, na verdade, onde os afetos e a política se encontram. Não exatamente a política institucionalizada, mas aquela praticada no cotidiano, nas negociações pessoais, nas dinâmicas nos relacionamentos – sejam em nível familiar, profissional ou até amoroso.

Quando perguntado sobre como pensa no encontro entre o pessoal e o político nos seus filmes, a resposta é certeira: “A vontade de falar da vida é política”. Isso é claro em seus curtas (como Quintal, Domingo), e nos longas (Temporada e Ela volta na quinta), e agora no premiado O dia que te conheci, que se tornou praticamente uma unanimidade admirada por cinéfilos desde que começou a ser exibido em festivais no ano passado.

O longa, escrito por André, é protagonizado por Renato Novaes, seu irmão, ao lado de Grace Passô, e acompanha, conforme o título, um dia na vida de Zeca, quando ele perde o emprego, como bibliotecário numa escola, e conhece Luisa, funcionária do estabelecimento. É claro, desde o título, que essa é uma história de amor, mas o que importa não é o que vai acontecer – sim, eles vão se apaixonar, e isso não é spoiler – mas como vai acontecer.

“Os personagens evoluem aos poucos. Acho muito importante tratar com cuidado o encontro entre os dois, fazer algo direto, mas, ao mesmo tempo, sutil. E, a partir deles, entrar em temas mais sérios do filme.”

Mais do que o romance entre eles, esse é um filme sobre saúde mental. Um tema caro a André, que o trata com certa leveza, mas nenhum desrespeito, pelo contrário. Ele e seu elenco encontram a medida certa entre o humor e a densidade. Uma das melhores falas do longa é quando Zeca canta Luisa, convidando-a para ir à sua casa para mostrar as receitas do psiquiatra.

André explica que sua estratégia é primeiro criar laços e identificação com o público para depois adentrar no tema da depressão, que ainda é um tabu na sociedade, mas precisa ser discutido. “Eu sempre quis trabalhar com esse tema num filme, mas era preciso encontrar uma forma para não soar didático ou excessivamente pesado, o que impede de levar à frente qualquer tipo de discussão.”

O longa foi filmado em outubro de 2022, entre o primeiro e segundo turno das eleições presidenciais, um momento, como ressalta o diretor, de muita tensão. “Estava todo mundo muito ansioso, e com a saúde mental um tanto abalada por conta da preocupação de Bolsonaro ser reeleito. E, naquele contexto, falar de amor era algo transgressor até.”

Renato Novaes, em cena como Zeca, na biblioteca (Crédito: Divulgação)

Renato também destaca que a tensão estava presente, mas era preciso deixá-la fora do set de filmagem. “Antes de ligar a câmera, conversávamos muito sobre o que poderia acontecer num novo governo daquele presidente. Havia muita apreensão”, explica o ator que ressalta também o lado político do longa. “O filme faz algo raro: dar voz a um homem preto e periférico para falar de sua saúde mental”.

Para lançar O Dia que te Conheci, André e seus sócios na produtora Filmes de Plástico, os cineastas Gabriel Martins e Maurilio Martins e o produtor Thiago Macêdo Correia, lançaram uma nova distribuidora, a Malute, cujo nome vem do apelido de Dona Zezé (Maria José de Novaes Oliveira), mãe de André e Renato, e atriz de vários filmes da produtora

A distribuidora lançará filmes nacionais de diversas produtoras, e não apenas da Filmes de Plástico. Seu primeiro lançamento é O dia que te conheci. André explica que a empresa vem de um sonho antigo do quarteto, e, também, como um desafio.

“Nossa experiência como produtores deve nos ajudar, e a queremos com a nova empresa lançar filmes como sempre quisemos. Distribuir nos dá também a oportunidade de novas estratégias de divulgação nos lançamentos. Nossa vontade é lançar de forma diferente, correr riscos, que nem sempre outras distribuidoras querem correr.”