Amos Gitai reitera sua crença na arte como instrumento de diálogo e cura
- Por Neusa Barbosa
- 26/10/2024
- Tempo de leitura 8 minutos
Um dos diretores mais assíduos na história da Mostra de S. Paulo, o israelense Amos Gitai comparece nesta 48ª edição com dois filmes, Shikun e Por que a Guerra? (este último, parte da repescagem da Mostra), em que mais uma vez reúne reflexões sobre o estado das coisas no mundo, sem esquecer a particularidade dos conflitos que abalam seu país, neste momento de conflagração na Faixa de Gaza e no Líbano.
Nesta breve entrevista a Neusa Barbosa, que o diretor preferiu responder por escrito, ele pontua as convicções políticas e artísticas contidas nestes dois filmes mais recentes, suas opiniões sobre a situação em Israel após o 7 de Outubro de 2023 e também sua colaboração com a atriz francesa Irène Jacob, presente no elenco dos dois títulos.
Cineweb - Há 20 anos, em entrevista que me concedeu aqui em São Paulo, você disse que considerava o cinema como "uma forma sutil de tocar nas coisas, mas mudar o mundo é outra questão". O que é o cinema para você hoje?
Amos Gitai - Na Antiguidade, o papel tradicional dos artistas era o de uma espécie de curandeiros, pessoas que curavam almas. Eu gostaria de abraçar a ideia do cineasta ou artista nessa linha. A memória é um agente poderoso de mudança, mesmo que não tenha impacto direto, mesmo que cineastas, escritores e pintores não possam substituir os políticos. Na década de 1930, Guernica não era apenas uma bela pintura. Era o gesto cívico de um artista, Picasso, chocado com o bombardeio desta aldeia basca pela Luftwaffe, que decidiu pintá-la. Hoje admiramos a beleza da obra, mas não devemos esquecer que Picasso proibiu que fosse exibida na Espanha enquanto Franco estivesse vivo. Isso significa que os artistas têm meios de sanção. Quando o socialista Pedro Sánchez foi nomeado primeiro-ministro da Espanha, decidiu transformar o mausoléu kitsch de Franco [o Vale dos Caídos] em um memorial para as vítimas. Tudo isso é resultado da ação de artistas e daqueles que lutaram por gerações contra o fascismo espanhol. A memória não é inocente.
Cineweb - Nos dois filmes exibidos nesta edição da Mostra, Shikun e Por que a Guerra?, você os relaciona, mais uma vez, como fez ao longo de sua carreira, ao contexto político conflituoso de seu país, Israel – onde as condições evidentemente estão mais difíceis após 7 de outubro de 2023. Como você acredita que seus filmes possam ajudar a criar reflexões entre ambos os lados, israelense e palestino, e (re)estabelecer algum tipo de diálogo, pelo menos por meio da arte?
A.G. - Meu filme Shikun (foto lado) nasceu em relação ao contexto então vigente em Israel, antes de 7 de outubro. Estávamos no meio de um enorme movimento de protesto contra a tentativa de Netanyahu e de seu governo de extrema-direita de reformar o sistema jurídico, com grandes manifestações reunindo grupos feministas, soldados, acadêmicos, economistas, pessoas que defendiam a coexistência pacífica entre palestinos e israelenses e uma grande parcela da sociedade civil contra a destruição do sistema jurídico democrático.
Era um movimento que também reagia ao surgimento de uma forma de conformismo, ao desaparecimento do pensamento crítico na sociedade israelense. Foi neste contexto que reli a peça "Rinoceronte", de Eugene Ionesco, escrita no final dos anos 1950 como uma fábula antitotalitária, que me pareceu ecoar o que estávamos vivendo.
Não há dúvida de que os eventos de 7 de outubro e a selvageria do Hamas - os estupros, as pessoas queimadas vivas e o sequestro dos habitantes dos kibutzim - foram um grande choque. Eu frequentemente penso em Vivian Silver, de 74 anos, queimada viva em sua casa no kibutz Beeri pelo Hamas, uma mulher que dedicou sua vida à reconciliação entre israelenses e palestinos e ajudou crianças palestinas a saírem de Gaza para serem tratadas em hospitais israelenses. E na espantosa destruição de Gaza, nas dezenas de milhares de vítimas e na falsa crença de Netanyahu e de seu governo fanático de que podem alcançar qualquer coisa apenas pela força.
Então, após 7 de outubro, eu quis ler e reler alguns textos para buscar entender as raízes dessa vontade humana de se engajar em guerras e matanças. E nessa busca, a troca de cartas entre Freud e Einstein foi uma revelação. Entre 1931 e 1932, a Liga das Nações, que antecedeu a criação da ONU, pediu a Albert Einstein que escolhesse um intelectual para discutir uma questão. Einstein escolheu Sigmund Freud. E a questão em torno da qual essas duas grandes mentes se encontraram foi: por que a guerra? Por que as pessoas vão à guerra umas contra as outras?
O filme Por que a Guerra? (foto ao lado) surge a partir dessa troca de cartas entre Albert Einstein e Sigmund Freud, que definiu o discurso moderno sobre a violência humana em massa que ocorre em nome de religião, da raça e da nacionalidade. Mesmo começando pessoalmente com o conflito israelense-palestino, o filme se move em direção a uma reflexão universal aplicável à guerra entre Rússia e Ucrânia, ao que acontece no Sudão. Infelizmente, não faltam exemplos.
Eu convivi com divisões étnicas, religiosas e políticas, sempre tentando não me deixar abater. E para mim, o cinema tem uma missão cívica. É isso que procuro trazer para minha cinematografia. Vivemos em um mundo onde o diálogo se tornou cada vez mais complicado e raro, favorecendo posições extremas, como vemos em muitas partes do mundo. Assim, ambos os filmes não pretendem dar respostas, mas levar a todos a nos questionarmos.
Cineweb - Falando sobre arte, percebo que em Shikun e Por que a Guerra?, você utiliza recursos de várias artes – arquitetura, música, teatro – para criar o ambiente e o cenário nestes filmes, talvez de forma mais enfática do que antes em seu trabalho. Você concorda? Isso se tornou mais importante para você do que antes?
A.G. - Meu cinema é sempre inspirado pela realidade em que vivemos. Por que a Guerra? é também uma forma de diálogo com a cruel realidade dessa região. O filme evita mostrar a iconografia dos horrores da guerra porque acredito que, de certa forma, essas imagens de morte e destruição são instrumentalizadas por cada lado para continuar alimentando a guerra, a selvageria.
Para um israelense que só vê imagens dos ataques do Hamas de 7 de outubro na televisão ou para um palestino que só vê imagens das mortes e bombardeios na Faixa de Gaza na Al-Jazeera, a dor do outro é negada. Não há mais complexidade.
Também fui inspirado por dois textos: "Três Guinéus" de Virginia Woolf e "Diante da Dor dos Outros" de Susan Sontag, que falam sobre tudo isso. A ideia era fazer um filme contra a guerra sem nunca mostrá-la.
Quando abordei o assassinato de Rabin [tema de seu filme O Último Dia de Yitzhak Rabin]
-, essa já era a essência do que eu tentava entender. Este filme continua minha pesquisa sobre como os conflitos armados podem ser evitados, como é possível encontrar soluções pacíficas para reconciliar posições opostas.
Em torno desse diálogo extraordinário entre dois intelectuais brilhantes, construí um filme poético no qual a guerra nunca é vista. Muitos filmes já retrataram a guerra e continuam a fazê-lo. Eu queria assumir outro desafio, explorar outra abordagem narrativa.
Cineweb - Em ambos os filmes, Irène Jacob tem um papel central. Como você a conheceu e decidiu escalá-la?
A.G. - Tenho trabalhado com Irène há vários anos, tanto no cinema quanto no teatro. Quando comecei a trabalhar em
Shikun, estava ensaiando a versão teatral de "A Casa", peça inspirada em meu filme de 1980. Todo o elenco estava lá, incluindo Irène Jacob e a atriz palestina Bahira Ablassi. Ao mesmo tempo em que trabalhávamos na peça, todos nos envolvemos no projeto do filme. Aconteceu da mesma forma com Por que a Guerra?, graças à cumplicidade de Irène e dos outros atores, bem como dos produtores, técnicos e artistas com quem tenho essa longa relação de colaboração e amizade.
Foto de Amos Gitai | Neusa Barbosa/Cineweb
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