Atriz Marie-Josée Croze desafia o patriarcado em “Madame Durocher”
- Por Neusa Barbosa
- 08/11/2024
- Tempo de leitura 7 minutos
A atriz Marie-Josée Croze é um rosto conhecido dos brasileiros. Especialmente pela atuação em As Invasões Bárbaras (2003), de Denys Arcand, que lhe deu o prêmio de melhor atriz em Cannes. Visitando o Brasil pela primeira vez, ela integra o elenco de uma coprodução brasileira e francesa, Madame Durocher, dos diretores Dida Andrade e Andradina Azevedo, parte da programação do Festival Varilux do Cinema Francês.
Seu papel é Anne Durocher, mãe da jovem Marie (Jeanne Boudier, à esquerda na foto) - que mais tarde será interpretada por Sandra Corveloni (outra vencedora de prêmio de melhor atriz em Cannes, em 2008, por Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas). Atuante na primeira metade do filme, uma biografia sobre a primeira mulher a ser aceita na Academia Imperial de Medicina, em 1871, Marie-Josée imprime à sua personagem uma marca independente, precursora do feminismo, que se transmite à filha e paira sobre todo o filme.
Em entrevista concedida em São Paulo, ao lado de Jeanne Boudier, a atriz canadense, que se naturalizou francesa, conta que foi atraída ao projeto por um telefonema da produtora, Rita Buzzar. Ao ler o roteiro, foi o que pensou: “Achei interessante a resiliência. Mesmo com os traumas, essas mulheres têm uma força que permite que avancem. Às vezes, é trágico. Por exemplo, minha personagem, que é uma mulher que quis viver fora do modelo oficial e que vai morrer, finalmente. Isto me tocou”.
Em contato com os diretores via skype, ela também achou uma vantagem no fato de serem dois. “Nunca tinha trabalhado antes com dois diretores e me perguntei como isso iria funcionar. Mas tive um bom contato com eles. Vi logo que Andradina era uma espécie de ‘sábio maluco’ e ao seu lado, Dida, extremamente equilibrado. E achei isso fantástico. São duas pessoas que se respeitam, trabalham há muito tempo juntos e são muito complementares. Era especialmente Dida quem trabalhava na atuação, Andradina mais na câmera”.
Conhecendo o trabalho anterior deles, que inclui A Bruta Flor do Querer e Eike - Tudo Ou Nada, a atriz concluiu: “Achei que poderia haver um belo encontro entre um roteiro clássico e uma coisa bem jovem, algo como a Nouvelle Vague”.
Mas do que ela mais gostou mesmo foi do desafio que os cineastas lhe propuseram. “Dida queria uma atuação ‘selvagem’. E para mim isso funcionou bem porque, veja, eu atuo há 30 anos e às vezes acho que devia trocar de profissão. É cansativo fazer sempre a mesma coisa. Então, penso que gostaria de fazer algo que me desse medo. Então, quando Dida disse ‘nada de atuação profissional’, eu disse: ‘Yes!’. Eu podia esquecer tudo o que sabia de atuação. E tive confiança. Quando ele disse ‘selvagem', eu interpretei que ele queria que fôssemos surpreendentes, que fizéssemos coisas que não são esperadas, que estão fora da linha clássica da atuação, quando você segue sua marca, sua luz. Fiquei feliz de poder explorar isso com plena liberdade. É muito gratificante ter um diretor que te exige isso. Ele me autoriza a fazer alguma coisa louca, foi isso o que pediu.”
Os diretores também incluíram coisas que não estavam no roteiro, como a canção que Anne canta para a filha. “Tudo o que Anne vai transmitir à sua filha está nessa canção da borboleta. A borboleta é um símbolo de transformação, resiliência e liberdade. Mas foram os diretores que colocaram essas coisas no filme, quando filmamos. Não estava no roteiro. Eles me disseram que eu ia cantar uma canção. Eu a cantei de várias maneiras, até chegar num tom íntimo, que eles aprovaram. Depois Sandra (Corveloni) a aprendeu, porque ia cantá-la em outro momento do filme e também de outra maneira”.
O desafio do português
Em algumas cenas do filme, Marie-Josée fala português, que ela achou extremamente difícil. “No começo, treinei pelo telefone com um intérprete, antes que eu viesse ao Brasil para a filmagem. Eu achei uma língua muito bela mas não muito lógica (risos). Eu aprendi outras línguas mas esta achei mais difícil. Pode ser que fossem outras línguas mais próximas da minha. Ali, eu estive em apuros! A musicalidade do português também é especial. Quando fizemos a primeira leitura juntos, eu estava muito estressada com as minhas falas em português. Não nos conhecíamos ainda e eu queria que tudo se passasse bem. Depois, brincamos muito, nos tornamos amigos. Mesmo assim, no dia da filmagem eu estava estressada ainda. Porque me enerva quando os atores atuam mal em outra língua, principalmente se forem atores que eu amo”.
A língua também não foi obstáculo no set, onde Jeanne Boudier falava muito bem francês e havia um intérprete. Mas, mesmo com os atores brasileiros que não falavam tão bem francês ou inglês, não houve barreira linguística. “Nós nos compreendíamos. Era engraçado. As pessoas aqui têm muito coração. Elas são muito emocionais e muito generosas, não têm medo de demonstrar afeto. Isso é muito peculiar daqui, não vi isso em outros lugares. E é muito natural. Há sempre alegria, dança. Ficávamos todos juntos, nos trocávamos juntos, sem problemas, sem julgamento, sem ficar reparando. Isso é muito particular daqui, a alegria. Nós dançávamos o tempo todo”.
Protagonista na juventude
Atriz brasileira que estudou drama na França e integra o Conservatoire National D’Art Dramatique, Jeanne Boudier, que vive Marie na juventude, conta que foi particularmente difícil atuar na cena em que a protagonista entra pela primeira vez na Escola de Medicina e é recebida aos gritos por dezenas de colegas homens - era a primeira vez que uma mulher era admitida ali, para ser parteira, em 1833. “Foi muito angustiante. Havia 30 figurantes homens na sala. Quando entrei, todos começaram a gritar. Fiquei realmente desconfortável”. Mas tudo se passou dentro da atuação, porque, segundo ela, “a filmagem foi muito boa mesmo”.
Jeanne comenta que não conhecia a personagem de Madame Durocher antes. “Ninguém fala dela, infelizmente. Espero que isso mude. Quantos homens se apropriaram do trabalho das mulheres, na música, na literatura, nas ciências?”
Outro personagem interessante é o do dr. Joaquim (André Ramiro), que era um raríssimo médico negro e foi muito importante na vida de Marie. “Ele existiu mesmo. Era um médico negro que estudou na Sorbonne. Ele nasceu livre. É incrível que seu caminho tenha se cruzado com o de Marie”.
Danos do patriarcado
Comentando o desconhecimento da figura de Marie Durocher ainda hoje, Marie-Josée diz: “A História não é justa. E como essa mulher surge do nada, não é parte da continuidade de uma dinastia ou de uma família, é uma mulher que termina como que enterrada viva, invisibilizada”.
A atriz complementa, dizendo achar que “o patriarcado é muito mais complicado do que a denúncia do assédio. É muito mais profundo. O que afeta as mulheres é seu lugar na sociedade, é o não reconhecimento de seu trabalho, a invisibilização. Esse é o problema. O problema salarial antes de mais nada. Essa é a verdadeira questão”.
