04/06/2026

Rodrigo Siqueira investiga o jogo entre verdade e mentira em “171”

Rodrigo Siqueira, diretor de documentários que questionam o gênero (Crédito: Divulgação)

Em seus três longas documentais, Terra deu, terra come, Orestes e, agora, 171, o cineasta mineiro Rodrigo Siqueira questiona as possibilidades do gênero diante da ficção e da construção de uma narrativa que transita entre o real e o inventado. E, nesse sentido, o novo filme mergulha direto no Brasil dos últimos anos.

Exibido em competição no festival É Tudo Verdade, 171 traz em cena pessoas condenadas por estelionato, ou seja, com uma profunda capacidade de enganar outras. “Para mim, são personagens múltiplos, que é o que quero quando lido com personagens no documentário. Eles são responsáveis por suas ações, autores das histórias que contam, performers que agem como atores, e personagens da própria história que inventam”, explica o cineasta em entrevista ao Cineweb.

Para ele, essa complexidade permite que aborde as questões que lhe são caras no documentário como gênero, e também permite que o público se relacione com o filme, pois “todo mundo já foi ou quase foi vítima de um golpe, ou conhece alguém que foi.”

O filme tem uma longa história. Começou um pouco antes de fazer Orestes, lançado em 2014, quando Siqueira teve um encontro com Eduardo Coutinho, no Rio. Eles conversaram sobre questões que importavam a ambos nos documentários. “Nós dois nos interessávamos sobre pessoas que mentem, mas que a gente não sabe até que ponto estão mentido, vide Jogo de Cena.”

Depois da morte de Coutinho, Siqueira conta que o tema do 171 – artigo no Código Penal que se refere ao estelionato e, por consequência, se tornou gíria para estelionatário – voltou forte à sua mente. “Eles são a síntese do que falo nos meus filmes, uma combinação entre o prosaico e o poético.”

Como chegar a essas pessoas, e convencê-las a expor-se diante das câmeras, afinal, são criminosos? “Eu percebi que só conseguiria fazer o filme se falasse com pessoas que já estão condenadas e presas por esses crimes.”

Mas, para realizar o longa, o documentarista precisou passar por uma série de burocracias, a começar com uma reunião com o secretário de Administração Penitenciária da época, que precisava autorizar o filme. Para que o longa acontecesse, Siqueira precisou fazer um acordo: detalhar sobre o que seria o filme, e comprometer-se a não mudar isso. “Eu acho que só deixaram quando perceberam que não era um filme sobre o sistema penitenciário, mas sobre crimes. Ainda assim, foi um processo burocrático longo. Depois contei com a ajuda da administração dos presídios, que me ajudou a encontrar as pessoas que se encaixavam no perfil que eu tinha delimitado”.

As filmagens não foram menos complexas. Durante 3 meses, o cineasta contou com apenas 14 diárias, revistas rígidas antes de cada uma delas. Para desconstruir a ideia de presídio e induzir a um pré-julgamento do público, ele filmou numa bela fotografia em preto e branco, numa sala praticamente vazia.

O filme em si traz diversas figuras com suas histórias, ora comoventes (como a de uma mulher que virou traficante para um tratamento da filha), ora mirabolantes (como a de um homem de uma família de atores), mas sempre, ao centro, seus diversos golpes, que podem ser reais, aumentados ou totalmente fantasiosos diante da câmera.


Um dos entrevistados relembrando suas peripécias (Crédito: Divulgação)

É essa dinâmica que complexifica 171, colocando, como questão central do filme, o país em que vivemos. Siqueira explica que filmava Orestes em meados de 2013, na mesma época em que aconteciam os protestos que culminaram no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro e a ascensão do bolsonarismo.

O mundo político se transformou nesses anos desde a concepção do filme até o seu lançamento agora, em 2024. Siqueira aponta que a mentira, o 171, se tornou uma espécie de realidade coletiva do país, que enfrentou quatro anos do governo de Bolsonaro, no qual “ele mentiu descaradamente o tempo todo”, e a consolidação de uma maneira estelionatária, por assim dizer, de fazer política e campanhas.

Filmado em meados de 2018, ainda antes da eleição, o documentário, para Siqueira, é uma espécie de premonição do que estava por vir. “O mundo político abraçou as mentiras sem pudor, as fake news foram tomadas como verdades. Desde 2013, o uso das mentiras passou a ser uma constante na vida pública do país, e isso me levou a pensar no 171, que resultou no filme.”

Radicado em São Paulo, Siqueira trabalha agora num novo documentário com o ator Ailton Graça, que também é presidente da escola de samba Lavapés Pirata Negro. “É a primeira vez que tenho um ator profissional em cena, mas vamos abordá-lo em seu papel de presidente de escola de samba.”

Além disso, o cineasta prepara dois projetos de ficção. Um deles tem uma longa gestação, desde 2016, quando ganhou um edital, e estava preparando-se para filmar em 2019. Mas a eleição de Bolsonaro e a falta de investimentos em cultura no período o fizeram desistir momentaneamente do filme, que é retomado agora. O outro projeto de ficção é uma adaptação do livro de poesias Engenheiro Fantasma, de Fabrício Corsaletti, vencedor do Jabuti em 2023. “Com esses filmes, finalmente, vou cruzar a fronteira entre documentário e ficção.”