05/06/2026

“Feliz ano velho” resgata a história da família de Rubens Paiva por outro prisma

O diretor de fotografia César Charlone, em primeiro plano, e o diretor Roberto Gervitz, nos set de Feliz Ano Velho (Crédito: Acervo de Roberto Gervitz)

Mais de três décadas depois de seu lançamento original, o premiado Feliz Ano Velho chega novamente aos cinemas, agora, numa versão remasterizada e restaurada em 2K e som 5.1. Seu roteirista e diretor, Roberto Gervitz, comemora o feito e o credita, é claro, ao enorme sucesso de Ainda estou aqui - afinal, os dois filmes são baseados em romances de Marcelo Rubens Paiva.

“Eu e o produtor, Cláudio Kahns, pensamos como seria interessante que o público pudesse ver, também nos cinemas, essa história que dialoga com a outra. É muita felicidade poder voltar às salas, graças ao sucesso do outro filme. Só em São Paulo, reestreamos em dois cinemas. Um feito raro para um filme que não é inédito”, comemora em entrevista ao Cineweb.

Feliz Ano Velho conta a história de Marcelo Rubens Paiva, no longa, chamado Mário (Marcos Breda), que, aos 21 anos, sofreu um acidente ao mergulhar numa lagoa, ficando tetraplégico. O filme acompanha sua jornada na reabilitação e na tentativa de apreender como lidar com a nova realidade. Nesse caminho, resgata suas memórias – que incluem o desaparecimento do pai, Carlos (Odilon Wagner) durante a ditadura, e a presença da mãe Lucia (Eva Wilma), que faz as vezes de Eunice Paiva aqui.

Gervitz aponta outras semelhanças entre seu filme e o de Walter Salles.“Na época, do nosso, o Brasil estava saindo de uma ditadura, e agora, quase entrou em outra sanguinária, que já começaria com o assassinato do presidente eleito e de seu vice”.

Ele aponta que em Feliz Ano Velho, o foco da narrativa é o filho, enquanto Ainda estou aqui narra o dilaceramento de uma família com a ditadura. O personagem de seu filme tenta se reencontrar na vida, juntando cacos e memórias.

“O filme do Walter Salles é um trabalho belíssimo de um cineasta em sua maturidade, enquanto o meu era o trabalho de jovens em começo de carreira, loucos para fazer cinema. De qualquer forma, transpira a ousadia da juventude.”

Gervitz e Marcelo se conheceram ainda na adolescência, pois frequentaram a mesma escola no colegial, o ensino médio da época, mas não eram exatamente amigos, pois estavam em séries diferentes. Anos depois, um amigo em comum contou sobre o livro que acabara de sair. “Eu li praticamente em uma tarde, e fui atrás dos direitos de adaptação. Sou muito grato ao Marcelo por ter confiado em mim, pois outros cineastas mais experientes o procuraram e ele não aceitou as propostas.”

O diretor tinha no currículo apenas um documentário, Braços cruzados, Máquinas paradas, que dirigiu com Sérgio Toledo. Feliz Ano Velho foi sua primeira ficção. “Foi um grande desafio. Fiquei dois anos trabalhando apenas no roteiro, e isso se deu muito pela falta de experiência. No meio desse processo, o livro virou um best-seller, o que me deixou ainda mais apreensivo.”

Ele aponta que o que mais lhe chamou a atenção no livro, e tentou levar para o filme, era a questão da imobilidade, não apenas física do personagem Mário, mas de uma geração, que chegava à vida adulta num momento que coincidia com o fim da ditadura civil-militar no Brasil. “A imagem da imobilidade me tocava muito, tinha uma questão existencial. O medo de crescer é uma imagem muito poderosa.”

O diretor também relembra sua ansiedade diante das filmagens de sua primeira ficção. “Na noite anterior, eu fui visitar o Hector Babenco, de quem eu era muito amigo, e ele me perguntou se eu sabia onde colocaria a câmera no dia seguinte. Na hora, me bateu o medo, eu não fazia ideia do que ia fazer”.

Na equipe artística, Feliz Ano Velho conta com nomes hoje consagrados, como César Charlone, ainda em início de carreira como diretor de fotografia, e hoje conhecido por filmes como Cidade de Deus e Dois Papas; e Clóvis Bueno, na direção de arte e figurinos. “Trabalhamos juntos por meses antes de começar as filmagens para discutirmos o visual que queríamos dar ao filme”.


Eva Wilma em cena do filme, como a personagem que representa Eunice Paiva (Crédito: Acervo de Roberto Gervitz)

Ganhador de sete prêmios em Gramado – entre eles, melhor filme pelo júri popular, melhor roteiro e melhor fotografia –, o longa combina atores experientes como Eva Wilma, Marco Nanini e Isabel Ribeiro, com jovens talentos, como o próprio Breda e Malu Mader, que faz a namorada do personagem.

“Fizemos muitos ensaios, muita preparação para que todos estivessem no mesmo patamar. O Breda, por exemplo, foi várias vezes à AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), e também andava na rua em cadeira de rodas.”

Nada disso talvez preparasse o diretor para o enorme sucesso de público que o filme alcançou, batendo a marca de um milhão de espectadores em 1988, além de uma histórica pré-estreia em São Paulo em que tamanha foi a quantidade de gente querendo ver o filme que as portas do cinema acabaram quebradas. Por outro lado, Gervitz também reconhece que houve críticas.

“Muita gente não gostou do filme, disse que era muito mais pesado do que o livro e a peça, que eram mais divertidos. Mas essa é a minha visão da história. Eu queria fazer algo mais sério mesmo, mas com algo de onírico, que está especialmente na estética, como a fotografia inspirada nos trabalhos do Vittorio Storaro”