Em documentário, Sérgio de Carvalho dá voz à resistencia pacífica dos seringueiros
- Por Alysson Oliveira
- 05/12/2024
- Tempo de leitura 12 minutos
Sérgio de Carvalho, retratando o movimento de resistência dos seringueiros (Crédito: Divulgação)
Premiado diretor de Noites Alienígenas, Sérgio de Carvalho nasceu no interior de São Paulo, estudou cinema no Rio de Janeiro, mas se radicou no Acre há quase 20 anos, onde desenvolve sua carreira como cineasta e escritor. Em 2008, foi procurado pela filha do líder seringueiro Chico Mendes, Elenira Mendes, que queria fazer um filme em homenagem ao pai, assassinado em 1988.
Daí nasceu o longa Empate, cujo título se refere ao movimento de resistência pacífica dos seringueiros e suas famílias contra o desmatamento na Amazônia. Chico Mendes, sua vida e legado, é uma espécie de guia no filme, no qual Carvalho traz depoimentos e a jornada de resistência e resiliência de diversos seringueiros que ele conhece pessoalmente há anos.
Nessa entrevsita ao Cineweb, o cineasta faz um balanço do movimento dos seringueiros desde quando o filme foi finalizado, e aborda a importância do cinema como ferramenta e sua possibilidade de dar escuta às lutas sociais.
O filme foi feito em 2019 e, de lá para cá, muita coisa aconteceu com a questão dos seringueiros e da Amazônia. Como estão hoje os grupos e as pessoas retratadas no filme?
Os desafios enfrentados pelos seringueiros e pela Reserva Extrativista Chico Mendes se intensificaram desde a realização do filme. Muitos dos personagens retratados continuam resistindo bravamente, mas enfrentam ameaças cada vez mais concretas. A invasão de fazendeiros e grileiros de Rondônia trouxe a pecuária, os sonhos de soja e o aumento do desmatamento para dentro da reserva, em uma lógica econômica, cultural e social completamente diferente da dos extrativistas que vivenciaram todas as lutas ao lado do Chico. Todo este movimento de compra de terras na área da Reserva, que deveria ser de uso comum, ou no seu entorno tem muito apoio de parlamentares ligados à bancada do boi. Essa situação piorou com a política ambiental do governo Bolsonaro, que enfraqueceu as fiscalizações e promoveu um discurso permissivo em relação às invasões. A boiada passou.
Alguns casos, como o de João Martins, personagem do filme que perdeu boa parte de suas terras devido à pressão judicial e a indenizações irrisórias, são exemplos dolorosos dessa realidade. Recentemente, estive com Raimundão Barros, um dos companheiros de Chico Mendes, em uma dessas áreas invadidas, e testemunhamos juntos o tamanho do desmatamento. É desolador ver pessoas que dedicaram sua vida por uma causa, pela floresta, agora se depararem com o avanço do desmatamento, da pecuária e da soja no quintal de suas casas.
Além disso, as mudanças climáticas têm agravado a situação: queimadas intensas, escassez de água e prejuízos nos roçados têm tornado a sobrevivência dos extrativistas ainda mais difícil. Outro tema de máxima urgência.
E como você vê o governo atual?
Mesmo com as mudanças no governo atual, os impactos do período anterior são profundos e podem ser irreversíveis sem políticas robustas e fiscalização intensa.
Apesar de todas as ameaças e retrocessos, o cenário atual, com uma ministra do Meio Ambiente que viveu todas estas lutas parece ser promissor, o que traz esperança. Além disso, é profundamente inspirador ver a força do povo da floresta, que continua a carregar o legado de Chico Mendes adiante.
Diversas instituições, como o Comitê Chico Mendes, liderado por sua filha Ângela Mendes, têm se engajado de forma constante com a juventude, transmitindo para as novas gerações o valor e a urgência dessas lutas. Também ver como tantos outros, de diferentes frentes, dedicam suas vidas em busca de soluções e na resistência diária pela preservação da Amazônia. É especialmente emocionante ver os companheiros e companheiras de Chico, hoje com seus 80 e tantos anos, ainda atuando como faróis de inspiração para as novas gerações, mostrando que a luta pela floresta é, acima de tudo, uma luta pela vida e pelo futuro.
Você tem uma relação bastante próxima com a Reserva Extrativista Chico Mendes e as pessoas que estão no filme. Como foi trazê-las para o cinema, a responsabilidade de retratar a luta deles, ainda mais pelo fato de serem próximos a você?
Fazer Empate foi uma experiência muito pessoal e, ao mesmo tempo, carregada de responsabilidade. Minha proximidade com a Reserva e com os seringueiros me deu a chance de retratar suas histórias de maneira íntima, mas também exigiu um cuidado redobrado. Não era apenas uma questão de documentar, mas de honrar a luta de pessoas que confiam em mim para dar visibilidade às suas causas.
Chico Mendes dizia que "a luta coletiva não tem dono". Levei isso muito a sério durante o filme. Não é sobre um herói, mas sobre uma luta que pertence a muitos – inclusive aos que hoje continuam a carregá-la adiante, seja na floresta, seja por meio da expressão artística.
Além disso, desde o início, a intenção sempre foi ter um lado claro e definido no filme. Não nos interessava o contraditório, como os fazendeiros que tramaram contra Chico ou os políticos que defendem a extinção das reservas extrativistas. A voz deles já ressoa por meio de suas ações e políticas. O que buscamos foi nos somar às vozes que resistem, amplificando o ponto de vista daqueles que continuam na luta.
Inspiramo-nos no trabalho de figuras como Adrien Cowell e Vicente Rios, que nos anos 80 testemunharam e divulgaram ao mundo a destruição da floresta em sua série A Era da Destruição. Esse trabalho culminou no lindíssimo documentário Chico: Eu Quero Viver, em que Adrien emprestou suas lentes e seu olhar ao movimento. Da mesma forma, Edilson Martins, jornalista que registrou as únicas cenas em movimento dos empates e de Chico cortando seringa, ofereceu sua voz ao registro histórico da luta. É uma herança que se perpetua no audiovisual, onde tantos profissionais continuam a criar um cinema de olhar claro e engajado, pela Amazônia e seus povos. Seja em filmes mais ativistas ou em obras que, mesmo de forma mais sutil, carregam consigo o compromisso com as histórias da floresta e sua preservação.
Empate é, portanto, uma continuidade dessa tradição, um esforço para reforçar a resistência e reafirmar a importância de estar ao lado de quem defende a vida, a floresta e o futuro.
Seu Noites Alienígenas tem elementos documentais, e Empate tem elementos não exatamente da ficção, mas da forma de se narrar uma história, especialmente narrar histórias humanas. Como a ficção (ou o ato de narrar, mesmo não sendo ficcional) e o documentário dialogam no seu cinema?
As linhas entre ficção e documentário sempre foram muito tênues. Em Noites Alienígenas, por exemplo, trabalhei com atores sociais, diálogos improvisados e filmagens em locação, o que trouxe uma linguagem que flertava com o documental. Já em Empate, apesar de ser um documentário, buscamos um falso observacional, com mise-en-scène ensaiada, marcações precisas e uma narrativa construída cuidadosamente, como se fosse uma obra de ficção.
Ambos os filmes partem de um mesmo ponto: a vontade de contar histórias humanas de maneira orgânica, conectada ao ambiente e ao tempo em que essas histórias acontecem. Para mim, a diferença entre os dois gêneros não está na técnica, mas na intencionalidade do olhar. Meu cinema busca explorar essa interseção, explorar estas fronteiras.
Cena do documentário Empate (Crédito: Divulgação/Talita Oliveira)
Como foi a contribuição da Beth Formaggini, documentarista e pesquisadora renomada, na pesquisa e no roteiro, sendo ela uma profissional extremamente experiente no documentário?
A contribuição da Beth Formaggini em Empate foi absolutamente fundamental. Beth tem uma relação de longa data com o Acre, e já havíamos trabalhado juntos em cursos de formação na Usina de Arte João Donato, liderada pelo querido cineasta Maurice Capovilla. A sua competência, sensibilidade e profunda compreensão do Brasil foram qualidades essenciais para a construção do filme.
Beth passou dias na Reserva Extrativista Chico Mendes, mergulhando na realidade dos seringueiros, conversando com antigos companheiros de Chico, ouvindo suas histórias e realizando entrevistas que ajudaram a definir os personagens do documentário. Além disso, ela conduziu uma pesquisa documental rigorosa sobre o tema, reunindo materiais que se tornaram a base narrativa do filme.
Para mim, como diretor estreando no meu primeiro longa-metragem, a presença da Beth foi um alicerce. Sua vasta experiência e a troca artística e técnica que tivemos foram indispensáveis em todas as etapas do processo. Mais do que colaborar, ela me apoiou e trouxe uma perspectiva rica e sólida, que ajudou a encontrar os melhores caminhos em Empate. Acredito que sua sensibilidade ao captar as nuances dessa história, sobretudo dos personagens, na elaboração da proposta de roteiro,
foi o que deu ao filme a profundidade de que ele precisava.
Como foi o acesso ao material do Adrian Cowell e como ele contribuiu ao seu filme?
O material de Adrian Cowell foi fundamental para Empate. Adrian não apenas documentou a luta de Chico Mendes em sua série A Era da Destruição, mas também realizou o documentário Chico: Eu Quero Viver, que continua sendo uma referência fundamental para entender o período e o impacto da luta extrativista. Sua obra é um testemunho poderoso de um momento histórico e, ao mesmo tempo, uma inspiração para todos que seguem narrando histórias da Amazônia. É sempre importante lembrar de Vincente Rios,
fotógrafo e codiretor de Chico: Eu Quero Viver, que, junto de Adrien, nos deixou um dos mais importantes acervos audiovisuais sobre a Amazônia.
Ter acesso ao material não foi fácil, pois ele foi doado por Adrian Cowel para a PUC de Goiás, e a parceria com Angela Mendes, filha do Chico, na negociação para o uso foi super importante. As imagens captadas por ele são algumas das poucas em movimento que mostram Chico Mendes em ação, em momentos de sua campanha para vereador, reuniões no seringal, a viagem de Chico para ONU, entre outros.
No filme, o material de Adrian serviu como uma ponte entre o passado e o presente, conectando as lutas de ontem com as ameaças e resistências de hoje. Sua obra foi uma inspiração não só pelo conteúdo, mas também pela maneira clara e comprometida com que ele escolheu estar ao lado dos povos da floresta. Empate é, de certa forma, uma continuidade desse olhar, buscando dar voz e visibilidade à resistência amazônica.
Como você acha que o cinema, seu filme em especial, pode contribuir com as lutas sociais?
Acredito que o cinema tem o poder de ampliar vozes e conectar histórias locais a um contexto global. Empate é uma tentativa de contribuir a uma luta que ainda é urgente – a luta pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos povos que vivem nela, sobretudo diante das ameaças contemporâneas, como as mudanças climáticas que nos afetam a todos. Me interessa mais do que uma evocação nostálgica da memória da luta, refletir sobre a contemporaneidade dos temas a partir das histórias e vivências pessoais e coletivas. Espero que, de alguma forma, o filme funcione como um alerta. Que possa contribuir para colocar no centro da discussão questões como a devastação ambiental, as mudanças climáticas e a resistência dos seringueiros. E, mais do que isso, trazendo o protagonismo destes homens e mulheres que vivem na floresta para todos os debates em torno da Amazônia.
O cinema tem essa capacidade de mobilizar emocionalmente, de criar empatia e gerar reflexão. O filme tem sido usado como ferramenta para provocar debates, o que já me deixa muito feliz e com a sensação que ele vem cumprindo seu papel. Como quando, em pleno desmonte das políticas ambientais de Ricardo Salles, fomos convidados a exibi-lo no Parlamento Europeu, em Bruxelas, pela eurodeputada Marisa Matias, e, junto com Angela Mendes, contribuir nas denúncias internacionais em relação a todos os retrocessos que o Brasil sofreu nos anos Bolsonaro.
