06/06/2026

Jorge Furtado: a favor da mistura no cinema brasileiro

Foto: Luiz Vita

O cineasta gaúcho Jorge Furtado não esconde o fato de que está contando pela terceira vez a mesma história. "Cheguei à conclusão de que Meu Tio Matou um Cara a história de um garoto tímido conquistando a mulher que ama, volume 3", brinca durante a coletiva de lançamento do filme em São Paulo. Ele alega que gosta do universo adolescente por ser muito rico, uma fase de contestação, de crise de identidade e rebelião - por isso seus filmes anteriores Houve Uma Vez Dois Verões (2002) e O Homem que Copiava (2003) também abordam essa época da vida dos protagonistas.

O roteiro de Meu Tio Matou um Cara é baseado num conto de Furtado, que foi adaptado a quatro mãos com a ajuda do também cineasta Guel Arraes. "A história original mostra um garoto negro de classe média que convive num mundo de brancos. Esse é um dos assuntos do filme", explica o diretor. Para o diretor isso é até natural, porque o garoto - vivido por Darlan Cunha (Cidade de Deus) - estuda numa escola onde é o único aluno negro e iria se apaixonar por uma menina branca - interpretada pela estreante Sophia Reis.

Essa é a segunda vez que Furtado aborda a temática do relacionamento interracial, como fez em O Homem Que Copiava. Ele diz não ter nenhum motivo em especial, até porque, para o filme anterior, poderia ser um ator branco que a história seria a mesma. Mas ele deixa claro gostar da mistura. "Beijo de duas cores é bom de filmar. A imagem fica mais bonita", filosofa. E, mais uma vez, a questão racial nunca se torna panfletária na história.

Com Meu Tio Matou um Cara, Furtado firma-se como uma das vozes mais certeiras para falar com o público jovem brasileiro. Não é por acaso. O cineasta tem trabalhado essa temática desde o seu primeiro filme, o premiado Houve uma Vez Dois Verões. A produtora Paula Lavigne deixa claro que esse é um trabalho pensado para o público jovem - mas que nem por isso não agrade os adultos. "Queríamos fazer um filme autoral para adolescentes. Um projeto bem focado. Esse é um mercado que a gente quer formar", explica.

Eles não estão errados em apostar nesse filão. Embora não seja exclusivamente um filme para adolescentes, Cazuza - O Tempo não Pára foi o longa brasileiro mais visto em 2004, fazendo mais de 3 milhões de ingressos. Furtado acredita que o jovem é um público muito crítico e, por isso, mais difícil de se conquistar. "Os adultos mentem, dizem que gostam - mesmo quando detestam. Por isso é mais difícil fazer filmes para adolescentes", diz.

Outro reflexo do gosto que Furtado tem para misturar coisas diversas é a trilha sonora de Meu Tio Matou um Cara. "A trilha tem samba, bolero, rock. E tudo isso está sintetizado na canção 'Se Essa Rua', que Caetano Veloso compôs para o filme".

Para a jovem atriz Sophia Reis a trilha do longa tem um toque especial. Uma das músicas é de seu pai, o cantor e compositor Nando Reis. "Fiquei feliz com a música no filme, porque é uma das de que mais gosto. Mas acho importante não confundir o trabalho do meu pai com o meu. A canção acabou complementando o filme", analisa. A produtora Paula, por sua vez, explica que a música de Nando Reis já havia sido selecionada antes da escolha da atriz para o papel.

Merchandising- Embora Furtado já tenha um nome estabelecido no cinema nacional, Paula não teve muita facilidade em conseguir verba para o projeto. "Em todo lugar que eu ia, levava uma cópia de O Homem que Copiava. As pessoas adoravam, mas foi difícil captar", explica. Apesar disso, Meu Tio Matou um Cara foi uma produção rápida. A idéia de fazer o filme surgiu no final de 2003 e um ano depois estava pronto para ser lançado.

Um dos fatores que contribuíram para a viabilidade deste projeto foram os merchandisings, que segundo o diretor e a produtora, estão bem inseridos. "Como é um filme para jovens, procuramos produtos que os jovens consumam, como computadores, internet. E jovem geralmente é consumista, e isso ajuda", explica Paula.

A história se passa em Porto Alegre, mas poderia estar situada em qualquer grande metrópole. "A tendência seria rodar em São Paulo, ou no Rio, mas como a Casa de Cinema está em Porto Alegre, achamos que seria legal filmar lá mesmo", explica Paula, referindo-se à produtora de Furtado, que, aliás, exigiu que o filme fosse feito lá. "Apesar de ser rodado no sul, o longa tem a cara de qualquer cidade. Até os sotaques, cada fala a sua própria língua. Até aí fiz mais uma mistura", finaliza o diretor.

Cineweb 24/12/04