"Queer" ainda é uma palavra em disputa, aponta roteirista de filme de Luca Guadagnino
- Por Alysson Oliveira
- 11/12/2024
- Tempo de leitura 4 minutos
Drew Starkey e Daniel Craig em cena de Queer (Yannis Drakoulidis/Cortesia da A24)
Justin Kuritzkes é o roteirista do momento. Muito rápido, tornou-se de um dramaturgo pouco conhecido a um escritor requisitado em Hollywood. Tudo por conta de Rivais, seu primeiro roteiro, que chamou a atenção do renomado cineasta italiano Luca Guadagnino e se tornou um dos filmes mais comentados do ano.
Ainda no processo de produção do longa, o diretor, de quem se tornou amigo, o chamou para algo que era um desafio: adaptar o romance Queer, do estadunidense William S. Burroughs, lançado em 1985, mas escrito originalmente em 1952.
“Era um livro que o Luca amava desde quando leu na adolescência, e a adaptação era muito importante para ele. É um livro que não podia existir em sua própria época, levou anos para ser publicado. Burroughs era um homem à frente do seu tempo”, conta Kuritzkes, em entrevista ao Cineweb, ressaltando que esse é o primeiro trabalho que não é original seu. Todas suas peças e o roteiro de Rivais foram criados por ele.
O que mais lhe chamou a atenção para aceitar o desafio de adaptar Queer eram os personagens, que formam uma comunidade de pessoas vivendo em outro países, com interesses em comum. “São personagens muito sinceros e com os quais as pessoas podem se identificar. Sinto que há uma responsabilidade grande em lidar com a obra de Burroughs, mas, ao mesmo tempo, é tudo muito contemporâneo de nós ali, apesar da história se passar nos anos de 1950. Eu me não quis impor um julgamento moderno àquela história, meu trabalho era me encontrar com o livro em seus próprios termos.”
O título também é outro ponto que faz o filme e o livro se ligarem ao presente. Na época em que a história se passa, e em que o livro foi escrito, queer era uma palavra exclusivamente depreciativa. “Hoje em dia existe uma disputa pelo seu sentido. Eu moro em Nova York, e lá ainda é possível ouvir pessoas usando-a como um xingamento. Mas a comunidade LGBT está cada vez mais se apropriando dela, e transformando o sentido. É uma palavra em disputa.”
Queer é protagonizado por Daniel Craig, como Lee, uma espécie de alter-ego de Burroughs, um estadunidense vivendo numa comunidade de expatriados no México que, como ele, inclui outros homossexuais. Deixando-se levar pelo álcool e as drogas, ele acaba apaixonado por Allerton (Drew Starkey), um jovem fotógrafo que corresponde às investidas.
A história de amor entre esses dois homens beira o horror, na medida em que o filme vai abandonando o registro realista da primeira metade para se transformar em um pesadelo surreal envolvendo uma viagem ao Equador em busca de uma planta alucinógena, conhecida como yagé, ou também ayahuasca.
Justin Kuritzkes, dramaturgo, escritor e roteirista (Crédito: Macmillan/Divulgação)
Kuritzkes explica que os elementos surrealistas do filme não podiam aparecer de uma vez, na segunda metade, o que poderia alienar o público. Era preciso inserir aos poucos, até tornar-se um filme completamente lisérgico. “Tudo dependeu muito da direção elegante de Luca. Criamos juntos um vocabulário particular para essa história.”
O escritor, que além de peças também produziu vídeos para a internet (como o viral Portion Seller) e publicou o romance Famous People, em 2019, aponta que topou escrever o roteiro do filme por que era para Guadagnino. Seu primeiro roteiro, Rivais, foi escrito às cegas, sem saber se seria feito e quem, eventualmente, o dirigiria. Mas com Queer era diferente.
“Eu escrevi as cenas já pensando em Luca, em como ele poderia dirigir cada momento. Eu ficava empolgado só de imaginar o que ele poderia criar com cada cena. Foi um trabalho completamente diferente do filme anterior, que escrevi sozinho e depois participei de tudo, desde a pré-produção, inclusive das filmagens. Com Queer, infelizmente, não pude ir ao set, pois foi rodado no momento da greve dos roteiristas, em 2023.”
Ir ao set de Rivais todos os dias, explica Kuritzkes, era como fazer uma escola de cinema na prática. Ele aponta que sua formação e experiência como dramaturgo mostrou que escrever um roteiro é muito diferente de escrever uma peça de teatro. “O roteiro de cinema é muito mais rígido. No teatro, é possível fazer mais experimentos com o texto. Mas descobri também que, no roteiro, mesmo com essa estrutura mais precisa, é possível encontrar momentos em que podemos nos aventurar a experimentar.”
