05/06/2026

Marcelo Caetano e um cinema em atrito com a realidade

Marcelo Caetano, João Pedro Mariano e Ricardo Teodoro, na exibição do filme em Cannes (Crédito: Divulgação/Soraya Ursine)

Em seu segundo longa,
Baby, o cineasta Marcelo Caetano continua seguindo um caminho que começou a trilhar com seus curtas e tornou mais evidente com seu primeiro longa, Corpo Elétrico, embora, como ele mesmo afirma, os dois sejam bastantes distintos. “O anterior era mais visceral, havia mais improviso, descobrindo as cenas no ensaio. Agora, tudo é mais marcado, há uma espécie de coreografia dos corpos”, contou em entrevista ao Cineweb.

Baby fez sua estreia mundial na Semana da Crítica do Festival de Cannes, em maio de 2024, da qual saiu com um prêmio para o ator Ricardo Teodoro. Entre um filme e outro, explica o cineasta, ele começou a se questionar onde está a sensualidade no cinema. “O foco está mais no sensual e menos nas cenas de sexo.”

O filme começa com o personagem-título, interpretado por João Pedro Mariano, saindo de uma instituição de acolhimento de menores infratores. Ao voltar para casa, descobre que os pais se mudaram sem deixar um novo endereço. Vagando pelas ruas do centro de São Paulo, com amigos e amigas, encontra Ronaldo (Ricardo Teodoro), que faz programas para ganhar a vida, e os dois acabam se envolvendo amorosamente.

A trajetória do personagem está diretamente conectada com as pesquisas de Caetano sobre o que é a família. “No contexto brasileiro, o termo ‘família’ ainda está em disputa. O que é essa família que abandona um filho que se declara homossexual? Que país é esse onde a maioria dos abusos sexuais, emocionais e físicos acontecem dentro de casa mesmo?”

A partir da relação com Ronaldo, Baby começa a compreender um novo conceito de família, mais abrangente, que vai além dos laços consanguíneos. Ele conhece Priscila (Ana Flavia Cavalcanti), que teve um filho com Ronaldo, e agora é casada com Jana (Bruna Linzmeyer). Todos se dão muito bem, vivendo os relacionamentos na base do afeto. O protagonista também tem uma outra família por afinidade: meninos e meninas numa situação parecida com a dele, que buscam se manter no centro de São Paulo.

Teodoro e Mariano em Cena de Baby (Crédito: Divulgação)

Primeiro, Caetano estudou Direito na Universidade Federal de Minas Gerais, chegando inclusive a trabalha na Vara de Família. Depois, mudou-se para São Paulo, onde estudou Sociologia na Universidade de São Paulo, que considera sua formação, sua base para fazer cinema. Mas também confessa. rindo que, dentro dele, “o sociólogo vive em guerra com o cineasta”.

Da experiência na Vara de Família veio o substrato para a investigação exatamente dos laços que unem e afastam as pessoas, e da sociologia, a pesquisa sobre como os corpos ocupam espaços – especialmente no centro de São Paulo, que é praticamente um personagem em Baby.

“Foi tudo filmado em locação, enquanto o mundo estava acontecendo. Não é exatamente um documentário sobre a região, mas captura a energia do real ali na rua onde as coisas acontecem. Quando Baby e Ronaldo vão vender drogas numa esquina, é no mesmo lugar em que pessoas reais fazem isso o tempo todo.”

Caetano tem um olhar carinhoso por figuras à margem da sociedade, retratando-as em sua complexidade e beleza. Uma das melhores cenas do filme acontece na Praça da República, onde as personagens fazem o vogue, um estilo de dança estilizado, marcado por movimentos parecidos com os de um desfile de moda.

Em seu curso de sociologia, o diretor fez um trabalho de conclusão sobre a vivência gay no centro de SP, “que abriga essa comunidade desde os anos de 1930. E queria que Baby condensasse essa pesquisa sobre esse tema.”

Assumindo influências de Wong Kar-wai e Pier Paolo Pasolini, Caetano explica que se interessa em filmar a cidade diversificada e ocupada por pessoas que não têm poder aquisitivo. “É a ideia de trazer para a frente da câmera o centro da cidade, que está à margem do capital, mostrar suas cores variadas e como é vívido. É o lugar para onde vai o fluxo migratório. Eles formam uma variedade de culturas, mas são pessoas sem poder aquisitivo e, por isso, ignoradas. Meu cinema está sempre em atrito com essa realidade”.