23/07/2026

Diretor dominicano busca a construção de uma nova subjetividade no premiado “Pepe”

Nelson Carlo de Los Santos Arias com o Urso de Prata, prêmio de direção, no Festival de Berlim (Crédito: Divulgação/Berlinale)

Pepe é um filme estranho, narrado por diversas vozes que clamam ser o hipopótamo do título, que pertenceu ao traficante Pablo Escobar em sua propriedade na Colômbia. Neste longa, o cineasta dominicano Nelson Carlo de Los Santos Arias dá protagonismo aos animais, desde sua terra natal na África, até a sua fuga, depois do assassinato de Escobar em 1993. Os animais, então, se estabeleceram no Rio Magdalena, o maior do país. Em 2009, Pepe foi morto pelo governo colombiano na tentativa de conter o aumento desenfreado dos hipopótamos, uma espécie estranha ao país e altamente predadora. O longa está disponível na Mubi (a partir de 10/01).

O que parece ser apenas uma história inusitada, nas mãos de Los Santos Arias se torna um filme surreal, praticamente um alienígena que lhe rendeu o prêmio de direção no Festival de Berlim de 2024. Narrado em espanhol, africâner e mbukushu, trata-se de uma meditação sobre o colonialismo, como gosta de enfatizar o cineasta, pelo ponto de vista decolonial.

“Diferente do pós-colonial”, explica em entrevista ao Cineweb, “o decolonial visa transformar em ação, ao invés de apenas descrever. É preciso adotarmos atitudes de descolonização o tempo todo. Vivemos sob uma estrutura hegemônica da cultura estadunidense. E minha guerra é contra a americanização do mundo, pela produção de uma nova subjetividade.”

No entanto, segue ele, não é uma batalha simples. Seus filmes, aos olhos dos europeus e estadunidenses, não são levados a sério – mesmo com o prêmio em Berlim. “A crítica europeia chamou Pepe de um filme confuso, ou não se importam com o conteúdo político da obra. Cinema político, para eles, é o que eles fazem. Já o que eu ou um cineasta de um país periférico faz é exótico”.

Para lidar com essa posição, o dominicano defende que é preciso radicalizar com a narrativa, para, novamente, quebrar a forma hegemônica, ou seja, a realista. O longa leva o subtítulo de “Estudos de Imaginação” e é o primeiro de uma série ligada tematicamente. “A imaginação é de extrema importância atualmente, e o fantástico nos permite entrar em diversas dimensões. Todos temos prazer em ver o cinema da fantasia”.


O hipopótamo Pepe em cena do filme homônimo (Crédito: Divulgação/Mubi)

Em Pepe, a fantasia dá o tom, pois “quando crianças nos aventuramos pelo mundo da fantasia, e logo somos colonizados por forças externas de outras culturas. Para mim, a imaginação tem uma dimensão política enorme, e o que nos falta no debate político e filosófico é, exatamente, a capacidade de pensar outros mundos, outras possibilidades além daquelas que nos estão dadas”

Entre os elementos formais que Los Santos Arias usa para a busca de novas possibilidades artísticas está a quebra do ponto de vista do próprio Pepe, que é dublado por quatro pessoas em línguas diferentes. “Isso tem a ver com, a partir da unidade, quebrar a ideia de algo uno. Afinal, tudo é composto de vários elementos, vários pontos de vista. O experimentalismo está muito ligado ao cinema latino-americano”.

E, nesse sentido, prossegue, quando o cinema se compromete com o mundo em que foi criado, ele permite que o invisível se torne visível. “O cinema comercial não se interessa por ir além daquilo do que já está surrado, só em tornar uma obra de arte um produto a ser vendido. Minha experiência é com o cinema de ensaio. A relação entre a câmera e aquilo que está na sua frente é de extrema importância.”

Los Santos Arias também explica ter uma relação bem próxima com a própria câmera, tanto que em boa parte do filme ele trabalhou como diretor de fotografia e captador de som – em especial em toda a filmagem na Namíbia. “A construção da imagem é muito importante. Meus próprios filmes revelam em si o processo de busca por essa imagem. É uma investigação cujo resultado demanda do espectador que tenha uma leitura simbólica e política do filme.”