06/06/2026

Andrés Wood revê a história recente do Chile

Apesar de ser um dos fatos mais dramáticos da história recente do Chile, o golpe militar de 1973 não tem freqüentado a escassa filmografia daquele país exceto em documentários - com os do engajado Patricio Guzmán. O diretor Andrès Wood decidiu mudar esta escrita, roteirizando e dirigindo Machuca, uma história ambientada nos últimos tempos do governo de Salvador Allende, reconstruindo o período pelos olhos de três meninos. Lançado nos cinemas chilenos em agosto de 2004, o filme prosseguia em cartaz no começo de 2005, acumulando até janeiro deste ano 700.000 espectadores - um verdadeiro marco numa cinematografia que virtualmente desapareceu nos anos duros de Pinochet, ressurgiu com a redemocratização de 1990 mas não passa ainda de uma média anual de 3 ou 4 filmes. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo pouco antes do lançamento brasileiro de Machuca, Wood reconstitui a trajetória deste projeto muito pessoal.

Cineweb - O que há de autobiográfico na história de Machuca?

Andrès Wood - Eu era menino quando ocorreu o golpe de 1973, tinha 7 anos. Estudava num colégio católico em que ocorreu um experimento educacional similar ao narrado no filme, conduzido por um padre que é muito semelhante ao personagem do filme. No mais, a história é bastante ficcional.

Cineweb - Este padre é uma figura verídica?

Wood - Sim, mas no filme trocamos o nome dele (para McEnroe). Na vida real, ele se chamava Gerardo Whelan, era um americano de origem irlandesa. Aliás, ele foi muito importante para o filme. Diversas vezes, deu seu depoimento sobre os acontecimentos daqueles dias, fornecendo material para que escrevêssemos várias cenas. Infelizmente, ele morreu 6 meses antes da estréia. Mas a fita é dedicada a ele.

Cineweb - O padre chegou a ser preso em 1973?

Wood - Sim, ele esteve na prisão mas foi por muito pouco tempo. Na verdade, durante toda a ditadura, ele manteve seu trabalho social com as camadas mais pobres e teve também uma participação muito ativa ajudando pessoas perseguidas a saírem do país. Em 1990, devolveram-lhe o colégio e ele voltou para lá.

Cineweb- Você teve alguma preocupação com a fidelidade histórica ?

Wood- Na verdade, não. Mais que um filme autobiográfico, este é um filme muito pessoal. Eu e os outros dois roteiristas quisemos mais recuperar a sensação daquela época do que realizar um trabalho documental. Por isso, fomos buscar situações mais pessoais. Por isso, há tantas coisas que não se explicam, somente acontecem. Machuca não tenta cobrir um pedaço de história do Chile. Como a história é narrada através dos olhos das crianças, tem mais a ver com o sentimento do que com a ideologia.

Cineweb - Essa divisão profunda em torno da ditadura chilena ainda existe no Chile ?

Wood - Quando se fala deste tema, Pinochet, Allende, continua havendo esta grande divisão. Em outras coisas, não. Muito embora no país se mantenha uma rigidez social expressiva, a nível de classes sociais. Faz-se um esforço para superar isto, mas ainda não aconteceu.

Cineweb - Quando acontece um fato como a decretação da prisão domiciliar de Pinochet, os ânimos se exaltam?

Wood - Sim, muito. Machuca provocou um grande debate neste sentido.

Cineweb - Quando o filme estreou no Chile?

Wood - Em agosto de 2004 e segue em cartaz. Já foi visto por 700.000 pessoas. Uma coisa que ninguém esperava, porque havia um grande preconceito contra o cinema chileno e temas políticos e sociais. Pensávamos que aos jovens não ia interessar, mas muitos o viram. Foi uma surpresa.

Cineweb - Por que não se fazem mais filmes no Chile sobre este assunto?

Wood - Circulava a idéia de que às pessoas não interessaria ver uma ficção sobre este assunto. Machuca mostrou que isto era falso. Tudo depende da ótica com que é mostrado. Custa fazer um filme assim, porque é um tema que divide o país, um tema complexo. É preciso encontrar a ótica adequada para dizer algo novo também. Há muitos documentários sobre o assunto no Chile, mas ficção, não.

Cineweb- Como anda a produção cinematográfica chilena?

Wood - Em 2004, que foi um bom ano, foram lançados 8 filmes. Mas, normalmente, a cada ano se tem não mais de 3 ou 4. Agora temos uma lei de cinema, pelo primeiro ano. O cinema chileno está se reconstruindo pouco a pouco. Durante a ditadura praticamente não se fez cinema, apenas uma ou duas fitas em 17 anos. Na volta da democracia, houve uma euforia. Em 1997, 1998, a produção foi retomada com bastante público. Mas ainda falta distribuição, ir a festivais. Machuca funcionou neste sentido - foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores em Cannes (em 2004), vai ser distribuído em 26 países. Mas ainda falta muito a fazer. Espero que não seja somente um filme isolado, que haja continuidade.

Cineweb - Machuca pode ser indicado ao Oscar - como vê isto?

Wood - Por um lado, pode ser muito importante, independente do fato de que não fizemos o filme para isso. Seria muito importante para a filmografia chilena, ajudaria a nos colocar de novo no mapa também. Mas há muitos filmes fortes competindo, é muito difícil.

Cineweb - Como vê o cinema brasileiro?

Wood - Penso que as filmografias mais poderosas da América Latina são a brasileira e a argentina, sem dúvida. Historicamente, o Brasil já tem uma presença. Dos filmes mais recentes, vi todos os que saíram, Cidade de Deus, Central do Brasil, Lavoura Arcaica, Madame Satã, alguns documentários. É uma filmografia muito destacada na qual estamos nos espelhando, para seguir seus passos. As vantagens do Brasil são ter um mercado interno muito grande e uma política de incentivo muito agressiva. O Brasil tem uma presença muito grande nos festivais, como país também. Tem um sentido de país, de filmografia, invejável. A Argentina é um pouco mais individualista, talvez, mas tem uma cinematografia que nunca foi cooptada, tem muita qualidade.

Cineweb 11-1-05