Jorge Bodanzky resgata trajetória da pintora Lore Koch em documentário
- Por Alysson Oliveira
- 12/02/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
A pintora Lore Koch, tema do documentário (Crédito: Divulgação)
O documentário As cores e amores de Lore começou de forma bastante despretensiosa e pessoal para o cineasta Jorge Bodanzky. O jornalista Orlando Margarido fazia uma pesquisa sobre a pintora Eleonore Koch, e se deparou com o nome Rosa Bodanzky. O sobrenome particular o fez questionar Jorge, que ficou intrigado, pois Rosa é sua mãe.
“Eu nunca tinha ouvido falar da Lore, mas quis me encontrar com ela e conversar sobre minha mãe. Descobri, porém, uma figura incrível. E aquelas gravações que eu fazia despretensiosamente das nossas conversas iriam se tornar um documentário sobre ela”, explica em entrevista ao Cineweb.
O diretor, que tem no currículo filmes como Iracema – Uma transa amazônica, explica que foram 10 anos trabalhando nesse filme. No processo, acompanhou os 5 últimos anos de vida da pintora, que morreu em 2018, aos 92 anos. Imigrante alemã, ela chegara ao Brasil na mesma época que a mãe do diretor, em 1937. Desde então, dedicou-se à sua arte, viveu amores, mas se recusou a casar e ter filhos, pois atrapalharia sua pintura. Como fica bastante claro no filme, foi uma decisão muito consciente da artista.
“Nossas conversas eram muito francas. Como não havia exatamente uma equipe, apenas eu e uma câmera, ela se sentia muito confortável em dizer as coisas sobre sua vida, suas escolhas pessoais. Inicialmente, pensei em fazer um curta, mas era material demais, merecia algo maior”.
Bodanzky trabalhou com sua parceira de longa data em filmes, Bruna Callegari, que assina roteiro e montagem, além da produção. Ele ressalta que, mais do que um olhar de fora ao material, a participação dela foi importante por trazer um olhar feminino à história de Lore, que, mostra o filme, era uma mulher à frente do seu tempo.
“Minhas conversas com ela trouxeram, inclusive, uma nova ideia sobre a minha mãe: uma imigrante divorciada e sozinha. Eu passei a ter uma visão mais realista do que era ser imigrante naquele momento.”
Tanto a mãe de Bodanzky, quanto Lore, vieram da Alemanha. Rosa viveu também em Viena, onde trabalhava numa livraria que ficava na mesma rua onde Sigmund Freud morava. “Com certeza ele e minha mãe se cruzaram, ele deve ter frequentado a livraria onde ela trabalhava”, diverte-se o diretor com essa ótima história, que está no filme.
O cineasta também conta que aquilo que Lore lhe mostrava sobre sua vida em São Paulo e dizia sobre as pessoas que conheceu na juventude eram muito próximas a ele mesmo, pois eram círculos com que seus pais também conviviam.
Em seu testamento, ela deixou suas cartas para Bodanzky que, conta, são mais de 20 mil documentos, com cópias daquelas cartas que enviou e das que recebeu. “É uma sorte muito grande minha. Na pandemia, comecei a pesquisar nesses documentos, mas são coisas demais, vai levar um bom tempo.”
Lore, que foi discípula de Alfredo Volpi e viveu um romance com Paulo Emílio Salles Gomes, não foi reconhecida em seu tempo. Sua obra começou a ter a devida notoriedade nos últimos anos de sua vida. Em 2013, um livro foi editado com sua obra, com textos do crítico de arte Paulo Venancio Filho. Uma bem-sucedida retrospectiva da pintora no Museu de Arte Contemporânea da USP (São Paulo) a apresentou a um público maior. “Lore foi discípula do Volpi, mas creio que se igualou a ele, ou o superou. É uma das nossas maiores pintoras”, decreta Bodanzky.
