Censurado na ditadura, “Onda Nova” chega aos cinemas em versão restaurada
- Por Alysson Oliveira
- 25/03/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
O Gayvotas Futebol Clube, o time feminino das personagens do longa (Crédito: Divulgação)
Embora agonizante, em 1983, a ditadura civil-militar ainda tinha poder. Uma de suas vítimas foi o longa Onda Nova, de Ícaro Martins e José Antonio Garcia. Uma comédia de costumes sobre um time de futebol feminino, o fictício Gayvotas Futebol Clube, o filme foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na época, sendo proibido pela censura, e só estreando nos cinemas no ano seguinte. Mas aí, segundo Martins, já era tarde, o mercado já tinha sido tomado pelos filmes de sexo explícito.
Mais de quatro décadas depois, o longa volta a ver a luz do dia e chega aos cinemas como se deve, com um lançamento comercial de uma cópia restaurada em 4K, que fez sua estreia mundial no Festival de Locarno de 2024 e depois novamente exibida na Mostra de São Paulo. Produzida na Boca do Lixo, em São Paulo, a comédia se mostra ainda bastante atual. Esse é o segundo filme de um trilogia feita pelos diretores, que também conta com Olho Mágico do Amor, de 1982, e Estrela Nua (1985) - todos protagonizados por Carla Camuratti.
“Acredito que, desde a época, não houve tanto progresso nos costumes brasileiros. É um filme que aborda o machismo que constitui a sociedade brasileira, que mostra como as mulheres também têm desejos, que querem sua liberdade”, aponta Martins, que lança o filme na companhia das filhas de José Antonio Garcia, que morreu em 2005.
Os dois cineastas também assinam o roteiro que tem como foco o futebol feminino, uma prática proibida no Brasil até 1979, e só regulamentado em 1983. Era o assunto do momento, por isso se tornou o tema do filme, mas, alerta o diretor, o longa não é apenas sobre isso. O futebol é como um pretexto para abordar outros temas, como a liberdade sexual.
“O filme veio num momento em que estávamos às vésperas de mudanças. Rechaçávamos o moralismo sexista das produções comerciais, nas quais as mulheres eram apenas objetos do desejo, sem vontades próprias. Porém, de lá para cá, com a aliança entre o ultraconservadorismo e o neoliberalismo, as coisas parecem não ter mudado muito.”
Martins aponta que Onda Nova traz um otimismo e liberdade que parecemos ter esquecido. Ele classifica seu filme como “a última pornochanchada”, mas aponta também uma relação com o cinema de Robert Altman, com seus chamados filmes-corais, sem uma figura central, em que diversos personagens assumem o protagonismo em momentos distintos.
Ícaro Martins e José Antonio Garcia nas filmagens de Onda Nova (Crédito: Renata Bueno/Divulgação)
Com um elenco que conta com, além de Camuratti, Cristina Mutarelli, Vera Zimmermann, Cida Moreira, Patrício Bisso, Caetano Veloso, Regina Casé, os então jogadores Walter Casagrande e Vladimir, entre outros, o filme acompanha as jovens jogadoras do Gayvotas em suas aventuras no campo e na vida, num momento em que aproveitam sua juventude e sexualidade em plenitude. “Queríamos, com o filme, falar do sexo e do desejo sob outro ponto de vista, e isso foi meio que desmontar as ideias dos homens que trabalhavam na Boca.”
Para o lançamento, além da restauração da cópia, foi necessário produzir novos materiais de divulgação, como trailer e cartaz, e este foi assinado por Helena Garcia, filha de José Antonio. “Tínhamos uma ideia do que era o original e trabalhamos em cima dela, para manter aquilo que meu pai tinha pensado para o lançamento do filme, mas fizemos algo novo. De certa forma, foi como se trabalhássemos juntas com ele”, explica ela.
Zita Garcia, sua irmã, conta que quando o filme foi lançado originalmente, elas ainda eram crianças e não puderam vê-lo na íntegra. Desde então, é claro, o assistiram, mas com uma qualidade bem inferior, e só agora puderam ver Onda Nova em toda sua expressão. “Meu pai deixava a gente ver o comecinho, até a cena de um beijo, aí ele dizia que devíamos sair da sala”, diverte-se ao recordar. “Agora sou eu que faço isso com meu filho, que é cinéfilo, mas ainda é criança. Ele reclama, mas eu sempre digo ‘sua vez de ver o filme vai chegar, ainda é muito cedo’”.
