Premiada animação brasileira retrata uma aventura intergaláctica
- Por Alysson Oliveira
- 27/03/2025
- Tempo de leitura 7 minutos
Os aventureiros do Mundo Proibido (Crédito: Divulgação)
O espaço sideral não é o limite para o aventureiro Fujiwara Manchester, que, apesar do nome pomposo, é uma criação brasileira, do cineasta, roteirista e escritor Alê Camargo. Ele concebeu essa figura em meados dos anos de 1980 e, por quatro décadas, o trouxe consigo numa jornada que já passou pela televisão, numa série, e agora chegou aos cinemas com o longa Mundo Proibido, no qual ele e sua tripulação buscam um misterioso tesouro pelo espaço.
Codirigido por Camila Carrossine, o filme já foi exibido em festivais nacionais e internacionais, ganhando prêmios no Cinefantasy International Fantasy Film Festival e no Anima Córdoba International Animation Festival. Nessa entrevista ao Cineweb, a dupla fala sobre o longo e complexo de produção da animação, a relação do filme com a tradição do gênero no Brasil, e o que o longa tem a dizer sobre e para o mundo em que vivemos.
Alê, Fujiwara Manchester é um personagem que você criou em sua adolescência. Como foi sua relação com ele ao longo dos anos (inclusive foi protagonista de uma série de tv), e como foi trazê-lo para um filme de 2025?
Alê: O Fuji nasceu mais ou menos em 1986. Foi nessa época que criei as primeiras histórias dele e de seu universo. Mas foi só em 1992 que ele foi publicado pela primeira vez, no fanzine Somnium, do CLFC - Clube de Leitores de Ficção Científica. Quando em 2013 surgiu a oportunidade de adaptar essas primeiras histórias como uma série para a TV, e depois com o longa, o processo foi trabalhoso mas aconteceu naturalmente. O maior desafio foi atualizar os personagens e situações, mas sem perder o sentimento e o clima das primeiras histórias.
Camila, como você descobriu o personagem? E como é sua relação com ele?
Camila: Quando conheci o personagem do Fuji, ele já havia sido criado pelo Alê. Pra mim sempre foi importante respeitar o material original, mas também desenvolver e aprofundar as relações dos personagens, acrescentando camadas de complexidade.
Começamos a trabalhar com Fuji e Lydia na série As aventuras de Fujiwara Manchester. Depois, com mais experiência, e conhecendo melhor a personalidade de cada um, desenvolvemos ainda mais a relação entre eles em Mundo Proibido. Para o longa também criamos a Zi, o que foi bem divertido, e acredito que ainda teremos muito o que contar sobre ela.
Em que momento vocês resolveram que ele merecia um filme?
Alê: A ideia original sempre foi fazer um filme do Fuji, mesmo quando era apenas um sonho distante. Mesmo a série de TV seguia uma lógica de longa, com um mesmo arco de história dividido em pequenos episódios de 11 minutos. Quando os astros se alinharam e a possibilidade real de produzir o longa surgiu, lá para 2015, pulamos na chance.
Como é o trabalho entre vocês dois? Estão juntos fazendo tudo, ou há uma divisão de tarefas?
Alê: Nós dois tomamos todas as decisões criativas juntos, mas costumamos dividir os projetos em áreas específicas, com cada um mais responsável por certas partes. Por exemplo, eu fico mais responsável pelo roteiro e a Camila pela direção de arte. Mas há sempre uma sobreposição das funções entre a gente.
O gênero da aventura/scifi é comum no cinema brasileiro? Como foi trazer isso para o filme de vocês?
Ale: Curiosamente, já existem vários bons exemplos de filmes animados de ficção científica no Brasil. Para citar apenas alguns títulos de longas, temos Cassiopéia (1996), de Clóvis Vieira, A Princesa e o Robô (1984) da Turma da Mônica, e o filme Bugigangue no Espaço (2017) , da diretora Ale Machaddo. Então, acredito que o nosso filme se encaixa nessa tradição de space operas brasileiras animadas. Mas também espero que estejamos trazendo algumas novidades para a lista.
A dupla da direção: Alê Camargo e Camila Carrossine (Crédito: Divulgação)
O visual é impressionante, em especial o colorido vibrante. Como o filme foi pensado esteticamente?
Camila: Gosto bastante de ver o processo da direção de arte dos filmes, especialmente das animações nos livros de making of. E por muitas vezes me agradam visualmente mais os conceitos desenvolvidos pelos artistas na pré-produção do que o filme finalizado.
Então, quando começamos a etapa de desenvolvimento visual, decidimos que o longa teria essa cara “mais artesanal”, que valoriza a mão do artista. A gente queria ver as pinceladas, mais de 600 cenários foram pintados por uma equipe talentosa de ilustradores. A ideia sempre foi achar nosso caminho, dentro das nossas referências e da nossa realidade e não tentar simular o que fazem os grandes estúdios, afinal, somos independentes e por isso, podemos explorar mais.
Também tivemos a oportunidade de desenvolver uma etapa de escultura dos personagens e alguns props, o que foi bastante divertido, pois ter essas esculturas físicas nos ajudava a compreender concretamente o estilo do filme e deixava tudo mais "real".
A gente gosta de chamar nossa técnica de 2,5D, algo que fica entre o 2D e o 3D. Já tínhamos experimentado algo nesse sentido na série As aventuras de Fujiwara Manchester e em curtas-metragens feitos anteriormente, mas no longa tivemos a chance de aprofundar e aplicar esse conceito. Temos várias cenas nas quais pinturas foram projetadas em modelos 3D, onde conseguimos um movimento de câmera e uma estética bastante interessantes. Buscávamos o melhor dos dois mundos, o artesanal da pintura, da escultura e a tecnologia do 3D.
O longa termina com ganchos, elementos em suspenso. Pensam em fazer uma continuação?
Alê: Sim, nós temos algumas ideias para uma continuação. Na verdade, até anunciamos o nome da sequência nos créditos finais, para aqueles que estiverem mais curiosos. Mas, por enquanto, o projeto ainda está no começo.
O filme foi exibido em diversos festivais ao redor do mundo, como tem sido a recepção?
Alê: Ficamos muito satisfeitos com a recepção, porque nossa produção é bem pequena e a distribuição é independente. Quando mandamos o filme para festivais, o fazemos sem ter qualquer tipo de apoio ou costas quentes, então se o filme é selecionado ficamos muito, muito felizes. Consideramos que já é uma vitória. Ainda mais quando fomos selecionados por festivais importantes como Annecy, que é o mais tradicional festival de animação do mundo, e Shanghai, que é o maior festival da Ásia. Além disso, tivemos a felicidade do filme receber os prêmios de melhor longa no festival Anima Córdoba e melhor longa pelo público do Cinefantasy.
O que você acha que o longa tem a dizer sobre e para o Brasil de hoje?
Alê: Muita coisa. Um dos temas do filme é a dependência que temos com as máquinas. Isso é mostrado com humor e leveza na relação de Fuji e Lydia com seus gadgets e com o próprio Cara-de-cavalo (que funciona como um colega-amigo-figura paternal dos heróis), mas também de uma forma negativa, como no caso da tribo dos Passageiros, que eles encontram em certo momento da história, e que vivem ao mesmo tempo com medo e com fascínio pelo poder das máquinas que os dominam, Isso, acredito, fala muito sobre nós, presos nos meios de transporte, nos nossos celulares e na tecnologia. Como sair de nossas rotinas, quebrar esse ciclo, e viver de verdade?
