Documentário investiga múltiplas vozes da Rua Aurora
- Por Alysson Oliveira
- 08/04/2025
- Tempo de leitura 11 minutos
Camilo Cavalcanti, diretor do documentário sobre a Rua Aurora (Crédito: Divulgação)
Situada na região central de São Paulo, a rua Aurora já viveu dias de glória e cinema. Agora, tenta manter-se viva abrigando pessoas de diversas partes do mundo. O cineasta pernambucano Camilo Cavalcante conheceu o lugar no final dos anos de 1990 e, mais de duas décadas depois, ali volta para realizar um documentário.
Rua Aurora – Refúgio de Todos os Mundos é marcado pela pluralidade do local, por histórias de dificuldades e sobrevivência, muito comuns no centro de São Paulo. Em seu filme, Cavalcante dá voz e imagem a essa multiplicidade de histórias. Morando em Portugal, onde realiza seu mestrado, o cineasta conta nessa entrevista, feita por e-mail, as descobertas e desafios ao realizar esse documentário em plena pandemia.
Como começou o projeto do filme? Você é um pernambucano, mora em Recife e Portugal. Qual a sua relação com a Rua Aurora?
Conheci a rua Aurora em 1999, durante o processo de filmagem de um curta chamado Leviatã, que de forma alegórica e poética narrava os conflitos emocionais de um migrante nordestino em São Paulo. Filmamos uma cena no Cineteatro Orion, que ficava nesta rua e apresentava na época filmes e shows eróticos. O proprietário do estabelecimento era piauiense, de Picos. A maior parte da minha infância foi vivenciada no interior do Piauí, nas cidades de Floriano e Parnaíba.
Assim, logo tivemos uma identificação recíproca e ele permitiu as filmagens no local. Curioso é que a última imagem do filme Rua Aurora coincidentemente é a fachada do Orion, que hoje está fechado e emparedado com uma placa de “vende-se”. A partir desse primeiro contato, fiquei muito interessado em conhecer as múltiplas facetas desta rua pela sua dimensão humana, por ser um ponto de encontro central nesta megalópole que é São Paulo. Esta localização tem uma profunda complexidade nas relações, nos afetos e nas questões socioculturais que permeiam o ambiente. Apesar de ser uma região com muito movimento, efervescência e conflitos que conectam múltiplas realidades, há sempre uma melancolia que paira no ar.
E a relação da rua Aurora com o cinema no passado?
O começo da rua Aurora cruza com a rua do Triunfo e nesta área ocorreu uma importantíssima movimentação em torno da distribuição e posteriormente da produção cinematográfica. Nas décadas de 1920 e 1930, a rua Aurora abrigava várias salas de cinema gerenciadas pelos estúdios Paramount, Fox e MGM, que ali também tinham sedes por ficar próximo das estações rodoviária e ferroviária, fato que facilitava o envio das pesadas latas de 35mm para o interior do estado e outras regiões do Brasil.
No final dos anos 1960 até 1980, surge a Boca do Lixo, que se tornou reduto do cinema independente e onde foram feitos vários filmes de baixo orçamento de grandes diretores, como Zé do Caixão, Ozualdo Candeias, Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, entre outros nomes importantes do Cinema Marginal. A produtora de Oswaldo Massaini, que produziu O Pagador de Promessas também ficava ali na Boca do Lixo. Dessa forma, a rua abrigava uma diversidade cinematográfica e artística incrível. Era muito plural. A maioria das pessoas acaba associando a Boca com o apelo sexual que lançou vários sucessos da pornochanchada. Mas isso é reducionista.
O fato é que ali havia gente que amava o cinema e, mesmo produzindo com poucos recursos e ainda sendo estigmatizados por parte de uma elite cultural, esses guerreiros e guerreiras conseguiam lotar as salas populares e, com a bilheteria de um filme, podiam fazer o próximo. Esse relativo sucesso de público chegou a incomodar as grandes distribuidoras norte-americanas, que começaram a boicotar os lançamentos das produções brasileiras independentes e reduzir o espaço de exibição, fato que, aliado ao abandono do centro da cidade pelo poder público, acabou por esfacelar aquele polo cinematográfico.
Nos últimos vinte anos, a atmosfera da rua Aurora sofreu profunda mutação. As antigas casas de arquitetura neoclássica, construídas pelos barões do café, transformaram-se em cortiços ocupados por moradores sem teto. Os prédios antigos, deteriorados pelo tempo, viraram moradias de estrangeiros e migrantes de várias regiões do país, que chegam ali para reconstruir suas vidas. O crack invadiu a região e o resultado é o que se vê hoje.
Como foi a pesquisa dos personagens? O que te guiou e como você chegou até as pessoas que estão no filme?
A pesquisa teve três fases. Numa primeira fase, foi fundamental o trabalho de campo de João Paulo Soares e Guilherme César, que fizeram uma ampla pesquisa em toda a extensão da rua Aurora e trouxeram histórias de vida de pessoas que vieram de várias partes do Brasil e do mundo, principalmente do continente africano e da América Latina, construindo dessa forma um mosaico muito potente. Na pré-produção, algumas pessoas que tinham aceitado participar das filmagens desistiram ou já não estavam mais no local.
Assim, outras pessoas foram surgindo nessa fase e se agregando ao projeto. E ainda, durante as filmagens, mais pessoas que não estavam previstas surgiram e participaram das filmagens, como foi o caso de José Nilton, caminhoneiro formado em Letras pela Universidade do Ceará, com mestrado no Paraguai que, naquele momento em que nos conhecemos, estava na rua, após ser ameaçado e largado ao relento pelo ex-patrão, enquanto trabalhava como motorista transportando soja do Mato Grosso para Campinas.
Ou o músico Júnior Mibemol, que toca seu saxofone pelas ruas da cidade e traz um olhar profundo sobre a natureza humana da região central. Ainda, seu Sacramento, que conta como construiu sua trajetória de alfaiate ao chegar ainda jovem, vindo de Minas Gerais. Enfim, foi um processo vivo, orgânico, assim como a rua, no qual constantemente as coisas podem sair do lugar ou mudar de ponto de vista. Durante as filmagens, foram evitadas qualquer tipo de entrevista burocrática ou jornalística. Eram conversas longas e profundas, olho no olho, com respeito e honestidade. Acho que esse filme tem um pouco do espírito do Eduardo Coutinho, mas sem a presença física do diretor.
Cena do documentário Rua Aurora (Crédito: Divulgação)
Como foi o trabalho de construção dessa narrativa, do encadeamento dos depoimentos? Foi importante a parceria da Eli Ramos, no roteiro, e do Fernando Coster, na montagem?
Cinema é uma construção coletiva. Assim, as participações de Eli Ramos e Fernando Coster foram essenciais nas duas pontas do processo, no início e no final. A Eli e eu, trabalhamos na construção de um roteiro que acabou mudando bastante, pois como falei a organicidade da rua e das pessoas acabaram impondo o ritmo da vida às filmagens.
Mas, Eli sempre esteve presente, opinando e sugerindo coisas conforme o andamento da produção. Inclusive, ela assistiu aos cortes e participou com sugestões e opiniões até chegarmos ao corte final. Fernando Coster é um grande amigo. Já nos conhecemos há quase trinta anos e temos uma relação de amizade que extrapola o lado profissional. Falo de afinidades estéticas, éticas e humanísticas que fazem parte do nosso olhar comum, da forma como sentimos a vida e de como celebramos o ato de pensar e criar imagens em movimentos.
Foi um longo processo de montagem, que durou muitos meses com períodos de intervalo. Foram 16 cortes muito diferentes. O maior desafio era encontrar uma estrutura que contemplasse a integridade de cada pessoa e apresentasse um mosaico plural, intenso e honesto dos dramas de cada ser vivente com suas dores, amores, experiências, pontos de vista, lutas, angústias e superações. Mas o fator mais complexo, sem dúvida, foi decidir que histórias entrariam no filme. Muitas pessoas não estão no corte final, não porque as histórias não fossem fortes ou profundas, mas a busca por um equilíbrio narrativo nos forçou a escolhas que foram muito difíceis.
Temos material para fazer uma série sobre a rua Aurora. Infelizmente, não conseguimos financiamento. Mas, pretendemos em breve, com o material filmado sobre a Boca do Lixo, que inclui uma conversa com Mário Vaz Filho, que participou de mais de 40 filmes como roteirista, assistente de produção e de direção, e ficou conhecido por dirigir o filme Um pistoleiro chamado Papaco. Marinho, como era conhecido, morreu pouco tempo depois das filmagens.
Para os cinéfilos, a rua Aurora está ligada, inevitavelmente, à Boca. O filme aborda esse tema, com duas figuras que trabalharam lá. Seus depoimentos são os últimos. Isso foi de propósito? Segurar até o final para trazer o lado mais famoso da rua?
A história da rua Aurora é muito antiga. Em 1825, a rua Santo Elesbão – cujo nome homenageava um rei negro da Etiópia – mudou de nome e passou a se chamar rua Aurora. Nas décadas entre 1940 e 1950, a região abrigava lojas de tecidos, peles e chapéus femininos, frequentadas pela clientela abastada que morava no elegante bairro dos Campos Elíseos. Entre 1949 e 1962, chegaram à região vários bares e restaurantes, em que um dos frequentadores constantes era o compositor Adoniran Barbosa – morador do charmoso edifício Santa Ignez, altura do nº 579 da rua Aurora, de onde observava os vizinhos de uma modesta propriedade que deu origem ao sucesso Saudosa Maloca.
Mário de Andrade nasceu nesta rua, como ele mesmo disse: “Na rua Aurora eu nasci na aurora de minha vida. E numa aurora cresci”. Todas essas informações podem ser pesquisadas rapidamente na internet. O que não é visto são as histórias de quem vive e viveu esta rua. O cinema é uma metáfora da vida que pulsa até hoje neste lugar. Como fala a atriz Debora Munhiz, ícone da Boca: “A energia daquelas pessoas ainda está lá”. Então esse final é uma homenagem às pessoas que doaram suas almas à arte e que através da imagem em movimento ainda flutuam e permanecem neste espaço, hoje abandonado.
Você filmou no final de 2021, um momento em que ainda existia a pandemia, embora houvesse um pouco mais de abertura. A gente vê as pessoas na rua com máscara ainda. Quais foram os desafios e como isso influenciou no filme?
Fomos obrigados pelo edital a filmar por conta de prazos. Foi muito difícil produzir o filme neste contexto. Além da pandemia, que como todos sabem foi um momento muito delicado, encontramos o centro da cidade completamente abandonado pelo poder público. Uma situação de insegurança total. Mas tínhamos que filmar por conta dessas obrigações contratuais, que por vezes são draconianas. Cumprimos todos os protocolos sanitários, éramos uma equipe pequena, entrosada e em total sintonia. Só assim foi possível realizar este filme em condições tão adversas. Mas, por outro lado, havia uma necessidade de ouvir o que as pessoas tinham a dizer. E muita gente estava com um grito entalado na garganta.
O que você acha que o filme tem a dizer sobre e para o Brasil de hoje?
O Brasil não conhece o Brasil. É um clichê, mas é um fato. Não conhece ou não quer conhecer. Há um abismo social abissal que torna a maior parte da população invisível perante os olhos de uma elite financeira e também da classe média. Muita coisa é colocada embaixo do tapete e muita gente acaba catalogada por uma elite cultural como um estereótipo.
A mídia, a imprensa, os conteúdos audiovisuais colaboram com essa perspectiva. Mais do que um documentário sobre uma rua, esse filme fala de pessoas que, na maioria das vezes, são invisibilizados e têm sua voz silenciada. Há um preconceito institucionalizado que se tornou uma doença crônica na sociedade brasileira e mundial. É preciso escutar para conhecer o outro. É o princípio para se quebrar estigmas, estereótipos e preconceitos sedimentados e construídos para nos afastar da humanidade e acabar afogando o que há de humano em nós. Assim, essencialmente, este é um filme de escuta.
