“O cinema brasileiro nunca vai acabar”, prevê Jorge Furtado
- Por Alysson Oliveira
- 28/05/2025
- Tempo de leitura 5 minutos
Jorge Furtado, quatro décadas de cinema (Crédito: Divulgação)
Dezoito anos depois do lançamento original de Saneamento Básico, O Filme, Jorge Furtado retorna ao seu hilário longa, que volta aos cinemas, nessa quinta (29), em cópia restaurada em 4K, como parte do projeto Sessão Vitrine.
Muita coisa se passou no cinema brasileiro e no país nessas quase duas décadas. Lula começava seu segundo mandatado, e o país não tinha um Oscar de filme estrangeiro, um Globo de Ouro de Melhor Atriz, um prêmio de ator em Cannes ou Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, só para mencionar as conquistas mais recentes.
Mas, no entanto, algumas coisas não mudam – especialmente a pergunta da qual nasceu o longa. “ Ofilme surgiu de uma inquietação minha, e acho que de muitos artistas. Pode, um país sem saneamento básico, ‘se dar ao luxo’ de fazer cinema, fazer arte? Claro! Tem que se fazer tudo ao mesmo tempo”, diz o cineasta em entrevista online ao Cineweb de sua casa em Porto Alegre.
Trabalhando com cinema há 40 anos, Furtado conta que já “viu de tudo em se tratando de cinema brasileiro, que se renova a todo momento”. Ele aposta que “o cinema brasileiro nunca vai parar, já foi dado como morto várias vezes, e se renova. O governo, como Collor, pode tentar acabar com o cinema, mas os políticos passam, e o cinema fica”.
Ele aponta que existe, no entanto, a necessidade de se furar a bolha, chegar ao público certo, e admite que cada filme tem seu tamanho, sua ambição de bilheteria. Recentemente, ele lançou Virgínia e Adelaide, que dirigiu em parceria com Yasmin Thayná, e narra o nascimento da psicanálise no Brasil.
“É um filme pequeno, e nós temos total consciência de que não se farão filas no shopping para assistir; não é esse o perfil. Já se fazemos uma comédia comercial de grande apelo, o objetivo é outro, por exemplo. Mas eu fico feliz que obras como Ainda Estou Aqui tenham furado a bolha, e feito um sucesso enorme.”
Wagner Moura caracterizado como o monstro da fossa, do curta dentro de Saneamento Básico (Crédito: Divulgação)
Além de Saneamento Básico, O Filme, na mesma sessão será exibido Ilha das Flores, curta já clássico de Furtado, lançado no Festival de Gramado de 1989, vencedor de diversos prêmios, com enorme carreira nesses anos todos – em especial nas escolas, onde é constantemente exibido, podendo se encaixar em diversas disciplinas.
Furtado relembra que aquele não era um momento em que se fazia muito cinema no Brasil, e ele tinha 6 mil dólares para realizar um curta. “Tinha de ser com o que tínhamos, e fizemos um filme que não gastasse muito. Foi uma experiência de muito aprendizado”.
Já, em Saneamento Básico, O Filme, Furtado era mais experiente, havia feito curtas, longas, escrito e dirigido programas de televisão (como Brava Gente, Os Normais e A Comédia da Vida Privada), e o timing cômico estava afiado. Ele confessa que “com um elenco daqueles, era um privilégio”. O elenco inclui nomes de peso do cinema brasileiro: Paulo José, Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Lázaro Ramos, Tonico Pereira, Bruno Garcia e Janaína Kremer.
“As lembranças que eu tenho das filmagens são de muita diversão, muita risada. Não tem como fazer comédia sem se divertir. Se o set não está sendo divertido, tem algo de errado.”
Furtado, que também assina o roteiro do filme, explica que foi buscar inspiração na commedia dell'arte italiana para criar as personagens arquetípicas, como o arlequim (personagem de Moura), que é apaixonado e tímido, e acaba se fantasiando de monstro para o curta. O longa se passa numa pequena cidade na Serra Gaúcha com origens italianas. Há a necessidade de se construir uma fossa para o esgoto, o grupo que vai à prefeitura reivindicar isso fica sabendo que não há verba para a obra, mas a prefeitura dispõe de R$ 10 mil, dados pelo governo federal, que devem ser usados para um filme e, se a verba não for usada, deverá ser devolvida.
Ilha das Flores será exibido junto com o longa (Crédito: Divulgação)
Surge, então, a ideia de se fazer, com o dinheiro, a fossa e um filme sobre a obra. Daí nasce o curta O Monstro da Fossa, feito por pessoas que não têm ideia de como se faz cinema, liderados por Marina (Fernanda).
Furtado, que foi homenageado no Festival de Gramado de 2024, com o Troféu Eduardo Abelin, relembra rindo que muita gente se espanta com o título, ou mesmo foi ver o filme muito tempo depois do lançamento porque achava estranho esse nome. “Muita gente vem para contar que foi assistir anos depois de passar no cinema. Por isso, acho interessante esse novo lançamento. Fora isso, o longa tem uma durabilidade que vem até hoje. No Brasil, ainda, existe a questão: fazemos o saneamento básico ou cultura? E, repito, é preciso fazer os dois”.
