23/07/2026

Documentário “Eros” retrata motéis como instituição tipicamente brasileira

Rachel Daisy Ellis, na pré de Eros em São Paulo (Crédito: Divulgação)

Quando chegou no Brasil em 2004, a cineasta britânica Rachel Daisy Ellis descobriu algo que aponta como “uma instituição tipicamente brasileira”: o motel. “Achei muito incrível e complexo, é um lugar que diz muito sobre o Brasil. Uma fachada gritante nas cidades que esconde a intimidade”, conta em entrevista ao Cineweb.

Cidadã brasileira, Ellis se radicou no Recife, onde fundou, com Gabriel Mascaro, uma produtora em 2010, e já produziu um curta e os cinco longas dele – entre os quais, O Último Azul, premiado no Festival de Berlim 2025. É de um trabalho de seu sócio, Domésticas, que ela tomou emprestado o dispositivo para seu primeiro longa, o documentário Eros, que chega aos cinemas.

Foram entregues a pessoas comuns câmeras digitais, e elas tinham apenas uma missão: filmar uma noite no motel. Ellis conta que deu completa liberdade a esses homens e mulheres para filmar tudo aquilo que lhes chamasse a atenção. “Era bonito conforme íamos recebendo o material. Eu percebia que existia um ritual em comum, como a observação de como era o quarto e sempre, em algum momento, paravam para fazer uma refeição. A comida, por exemplo, chega a ser uma personagem do filme”, conta ela, com seu leve sotaque britânico e português impecável.

Esses rituais, para ela, fazem parte do próprio sexo como um ritual. Mas, claro, as pessoas no filme não passam o tempo todo em intercurso, pelo contrário, as conversas e reflexões sobre os mais diversos assuntos dominam a noite. Ao lado do montador Matheus Farias, Ellis trabalhou por dois anos nesse documentário, que teve sua estreia no Festival de Tiradentes de 2024, e também foi exibido no segmento Next Wave do CPH:DOX, no mesmo ano.

A ideia para o filme surgiu na época da pandemia. “Queria entender como o motel, que surgiu como um local seguro para pessoas passarem algumas horas íntimas em plena ditadura, transformou-se na maior instituição de sexo do Brasil, passando a compor parte da identidade sexual do país. Também entendi que a suíte de motel é como um palco, onde as pessoas performam o jogo da sedução.”

Ao longo da pesquisa para o longa, ela se surpreendeu com o que encontrou, pois os motivos para a ida a um motel são os mais variados, até mesmo para o descanso. “Fui percebendo que, embora todos os estereótipos de frequentadores de motel correspondessem à realidade, havia várias outras razões para ir para um motel, que somavam milhões de estadias por ano e desafiavam o imaginário popular de uso de motel. Percebi que aí havia algo novo a ser explorado e revelado. Não queria fazer um filme que apenas reforçasse estereótipos.”

Com pesquisadores e pesquisadoras espalhadas por diversas regiões do país, Ellis encontrou figuras muito particulares que lhe chamaram a atenção e toparam participar do longa, seguindo as regras criadas por ela. Ao todo, são 10 noites, cada uma com figuras diferentes que estão no filme, que começa com a própria diretora sozinha, numa cama de motel, questionando-se sobre a experiência das pessoas nesse local.

“Percebi que meu corpo e minha intimidade precisavam estar no filme de alguma maneira e acabou sendo eu sozinha por falta de pessoas com quem mantive relações toparem aparecer. Senti a necessidade de estar disposta a me expor também e me colocar nesse mesmo lugar que estava pedindo aos personagens. Quais foram meus limites? Foi um desafio, mas, ao mesmo tempo, gerou certa excitação com o exibicionismo. E percebi que isso foi algo que compartilhei com os outros personagens em diferentes graus.”