23/07/2026

O inventivo cinema queer de Matheus Marchetti

Tuna Dwek, em Verão Fantasma, hit na plataforma Filmicca (Crédito: Divulgação)

Aos 10 anos de idade, o paulistano Matheus Marchetti teve de mudar de escola. Com os novos amigos e uma câmera de sua mãe, fez uma versão cinematográfica de O Fantasma da Ópera. É curioso como esse episódio, que ele relembra se divertindo, em entrevista ao Cineweb, resume bem a filmografia do jovem cineasta, formado em cinema pela FAAP: o gosto por subverter o terror e o amor por fazer cinema na garra, de maneira quase artesanal.

Os dois longas e dois curtas do cineasta, disponíveis na plataforma Filmicca, também dão uma boa ideia de sua obra, que se torna cada vez mais conhecida e marcante. A presença dos filmes no streaming é a chance dele chegar a um público maior, até agora restrito ao circuito de festivais.

“Os catálogos de streaming estão ficando muito limitados e muito parecidos, por isso é uma comemoração estar
na Filmicca, que tem uma filmografia muito particular, e, melhor ainda, poder disponibilizar meus filmes para o mundo. Isso é muito importante, eu nunca tinha saído dos festivais”, comemora.

Num dos longas da plataforma, As Núpcias de Drácula, por exemplo, há, novamente, a essência de sua obra: releitura de cinema de gênero com um elemento de estranhamento e criaturas típicas de filmes de horror. “Eu cresci vendo terror, em especial os clássicos dos anos de 1930 e 1940, que era o que minha mãe me deixava ver.”

Ele sempre quis fazer uma versão da história do vampiro, mas achava que só com muito dinheiro seria possível. Seu cinema de guerrilha, no entanto, prova o contrário. Com impressionante direção de fotografia e de arte, assinadas por João Paulo Belentani e Alice Tassara, respectivamente, ele prova que a criatividade dribla as limitações financeiras.

“Nunca nenhum projeto meu foi aprovado em edital ainda, mas isso não me impede de fazer cinema, embora eu continue os inscrevendo, e espero ser contemplado em algum momento. Ainda assim, consigo fazer um cinema de baixíssimo orçamento e trazendo elementos queer.”

Matheus Marchetti, no set (Crédito: Divulgação)

Verão Fantasma, seu outro longa na plataforma, um hit no serviço de streaming, estando entre os mais vistos da Filmicca, foi feito graças ao crowdfunding, o que lhe permitiu um orçamento um pouquinho maior. O filme foi rodado durante a pandemia, numa casa emprestada em Ubatuba, no litoral de São Paulo, onde elenco e equipe ficaram isolados por um mês.

Ele aponta que não apenas o baixo orçamento é um desafio para se criar arte. Num Brasil mergulhado no conservadorismo, ele conta usar a homofobia como “um alimento para criar”. “É muito importante encarar e trazer à tela a temática LGBTQIAPN+ para que não haja um apagamento.”

Com trabalhos também no teatro, o cineasta confessa que procura trazer ao realismo do cinema a artificialidade do palco. “No passado, o cinema queer foi bem mais experimental e de vanguarda. Hoje tento manter esse espírito experimental, brincando com elementos tanto do terror como do musical, que, aliás, são para mim gêneros muito próximos.”

O terror, para ele, no entanto, não é bem para assustar, mas serve como o espaço da observação do outro, na figura dos monstros. Marchetti encontrou no cinema de gênero a maneira de se expressar, mas, mesmo seguindo algumas regras, ele ainda encontra espaço para subverter, como introduzindo um elemento queer na história de Drácula, ou combinando slasher e musical, como é o caso de Verão Fantasma. “O que me importa no cinema é expressar quem eu sou, e fazer filmes do jeito que eu quero.”

Para isso, ele conta com uma equipe recorrente, e também atores e atrizes que estão na maioria de seus filmes, como é o caso de Bruno Germano e Tuna Dwek. “Eu preciso me cercar de pessoas em quem confio, para que possa haver espaço para uma criação conjunta, pois trabalho com a aproximação e liberdade.”

Atualmente, Marchetti tem dois longas praticamente prontos: O Labirinto dos Garotos Perdidos, definido como “um conto de fadas urbano”, e uma adaptação de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, que, ao contrário de As Núpcias de Drácula, será uma adaptação bastante fiel.“O livro é uma obra queer muito marcante e importante, foi usada até contra o próprio Wilde, quando ele foi julgado por ser homossexual. Passei muito tempo estudando o texto, e também trabalhando com o elenco.”