“A Marvada Carne” volta aos cinemas com seu olhar carinhoso sobre o universo caipira
- Por Alysson Oliveira
- 27/08/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
Fernanda Torres, como Carula, ao lado de seu Santo Antônio no longa (Crédito: Divulgação)
Bem antes de ser indicada ao Oscar porAinda Estou Aqui, ou mesmo ganhar o prêmio de atuação em Cannes por Eu Sei Que Vou Te Amar (1986), Fernanda Torres viveu uma caipira paulista no clássico nacional dos anos de 1980, A Marvada Carne, que volta aos cinemas nessa quinta (28) em cópia restaurada.
“Não seria ela quem faria o papel”, conta o diretor do longa, André Klotzel, em entrevista. “Mas a atriz que estava escalada não pode, e fiquei sem saber o que fazer. Até que o diretor de fotografia do filme, Pedro Farkas, sugeriu a Fernandinha. Ele tinha acabado de trabalhar com ela no primeiro longa dela, Inocência”. Klotzel, que a conhecia só de vista, ficou impressionado quando, depois de ler o roteiro, ela incorporou a personagem com sotaque e tudo.
No longa, ela é Carula uma jovem simples do interior que tem um único sonho: casar-se. Ela encontra em Nhô Quim (Adilson Barros) o par perfeito, pois ele quer apenas duas coisas: comer carne e encontrar uma mulher que cuide dele.
Klotzel conta que o roteiro nasceu de diversas pesquisas sobre a cultura caipira paulistana, desde textos de Cornélio Pires, que ele leu numa cópia com anotações de Mário de Andrade, até Valdomiro Silveira e Amadeu Amaral, além do estudo clássico de Antonio Candido sobre o assunto, Parceiros do Rio Bonito.
“Eu escrevi o roteiro em 3 ou 4 dias, foi muito rápido. Depois das pesquisas e com a ideia pronta, o roteiro nasceu muito facilmente e o inscrevi num edital da Embrafilme. Dos 20 premiados, apenas dois eram de estreantes em longas – e eu era um deles. Depois, contei com o Carlos Alberto Soffredini para trabalhar mais o roteiro, em especial os diálogos. Ele havia acabado de fazer no teatro Na Carrêra do Divino, que se passava nesse mesmo universo do caipira paulistano.”
Foi da peça de Soffredini, também, que veio o protagonista Adilson Barros, estreante em cinema. “Eu não queria, a princípio, ninguém da peça no filme, pois achava que traria vícios, não criaria um personagem com frescor. Mas fiz diversos testes e não achava um ator para o papel. Até que não teve jeito e ele assumiu Nhô Quim com naturalidade”.
Klotzel conta que Barros serviu como uma espécie de consultor informal, já que havia nascido em Sorocaba e conhecia a fundo a cultura retratada no filme. Mas ele não foi o único a servir nessa função. O longa foi rodado na região de Jequitiba, em São Paulo, e a população local não só acompanhou as filmagens, como ajudou na direção de arte e fotografia.
Uma das coisas que mais chamam a atenção no longa é seu olhar carinhoso sobre a cultura caipira. O filme não ri dela, mas ri com ela. “Foi uma preocupação nossa desde o começo, de não fazer chacota, de ressaltar a beleza do jeito de falar, da ingenuidade dos personagens.”
No Brasil, o longa fez sua estreia no Festival de Gamado de 1985, de onde saiu consagrado com mais de dez prêmios, entre eles, melhor filme, diretor, atriz, roteiro e fotografia. Mas a trajetória do filme não foi tão simples, como o sucesso pode aparentar. Klotzel relembra das peripécias que ele e o produtor Claudio Khans tiveram de enfrentar para conseguir, inicialmente, finalizar o longa.
“Primeiro, depois de ganhar o edital, a própria Embrafilme demorou a assinar o contrato. Depois, durante as filmagens, eu sabia que o dinheiro não seria suficiente, e tivemos de parar antes de concluir o filme. Nesse meio tempo, fomos montando o que já tínhamos e inscrevemos o filme em Gramado”.
O festival gaúcho aceitou o longa, mesmo sem ver a versão finalizada, que acabou exibida em competição e consagrada. Depois de tudo isso, o filme premiado ainda levou um ano para chegar ao circuito. “A Embrafilme demorou para lançar, e todo mundo perguntando onde estava o longa que foi um estouro em Gramado? Quando, finalmente, resolveram lançar, queriam colocar em três cinemas em São Paulo, pouco antes da Copa de 1986. Não deixamos.”
Deste modo, o filme chegou ao circuito mais de um ano depois de Gramado, e se tornou um sucesso. Klotzel conta que agradou não apenas ao público intelectual dos cinemas da região da Paulista, mas também ao público do interior, que se viu retratado na tela. “É um filme para a família toda”.
Agora, Klotzel, que tem no currículo obras como Reflexões de um Liquidificador, termina seu mais recente trabalho, Sem Pai Nem Mãe, que rodou em 2017, que traz Alexandre Nero no papel principal. “Eu precisava de recursos para finalização, e só agora consegui. Precisava de dinheiro para o direito das músicas, que não são poucas, e isso é caro. Agora, trabalho na finalização.”
