05/06/2026

O afeto como forma cinematográfica no cinema de Leonardo Lacca

Leonardo Lacca, e o avô, protagonista de Seu Cavalcanti (Crédito: Divulgação)

Seu Cavalcanti, novo longa do cineasta pernambucano Leonardo Lacca, que chega aos cinemas amanhã (11/09), é de difícil classificação. Uma combinação de documentário com ficção e encenação, o filme transita entre gêneros nesse retrato que o cineasta começou a fazer de seu avô, que dá título à obra, no começo dos anos 2000, quando ainda cursava comunicação e usava uma câmera da faculdade.

Lacca explica que colocar uma etiqueta de gênero no longa é o que menos lhe interessa. “É um filme sem rótulos. Tem muitas coisas da vida, e também muito de ficcional”, conta em entrevista ao Cineweb. Ele comenta que, a certa altura, na montagem, chegou a cogitar eliminar tudo o que era documental e deixar só as ficções, mas os irmãos Ricardo e Luiz Pretti, que assinam a montagem, convenceram-no do contrário.

O resultado é um filme repleto de afeto e uma observação sobre envelhecimento no Brasil. O protagonista é Severino Cavalcanti, policial aposentado, com pouco mais de 90 anos, muita saúde e curiosidade sobre o mundo e as pessoas. O longa o acompanha em suas andanças por Recife, boa parte em seu carro, seu xodó.

Lacca narra em primeira pessoa e se coloca, também, como uma figura no filme: fala de sua relação com o avô, que foi sua figura paterna – o diretor só conheceu o pai biológico aos 15 anos. O diretor conta que sempre teve uma espécie de fascínio por pessoas idosas – até a adolescência, por exemplo, dividiu o quarto com uma tia-avó –, e isso o fez ter interesse em fazer um filme sobre o processo de envelhecimento, mostrando seu avô em diversos momentos, construindo cinematograficamente essa figura ímpar e repleta de energia. “Com a idade dele, não era obrigatório votar, mas ele fazia questão de votar, de fazer campanha”. No filme, o vemos militar apaixonadamente por Dilma Rousseff, nas eleições de 2014.

Filmado ao longo de 20 anos, Seu Cavalcanti é, também, uma investigação do próprio Lacca e sua relação com as imagens. Diretor de longas (como a ficção Permanência) e curtas (como Modelo Vídeo), o cineasta tem uma carreira diversificada, exercendo diversas funções, como assistente de direção (Bacurau, O Agente Secreto) e preparador de elenco no cinema e televisão.

Segundo ele, Seu Cavalcanti é um filme que espelha sua própria experiência. Há momentos – melhor não revelar, para não estragar o jogo de cena entre verdade e encenação – que são totalmente ficcionais.
Um deles é um momento-chave, que está diretamente ligado a situações muito próximas do diretor.


Seu Cavalcanti comemorando o aniversário entre as filhas, em cena do filme (Crédito: Divulgação)

Há imagens impressionantes por sua beleza plástica e momentos de humor divertidos, como quando Seu Cavalcanti foi protagonista das vinhetas do Festival Janela de Cinema, em 2008, e virou a cara do festival naquele ano. “Foi aí que percebi a potência dele, dessas imagens que poderiam virar um filme.”

Com a ideia de ultrapassar o relato pessoal e tornar o filme algo universal, Lacca chamou os irmãos Pretti para trabalhar na montagem, trazendo um olhar de fora. “O filme foi construído na montagem. Tínhamos novas ideias, íamos e voltávamos o tempo todo. Foram dez anos nesse processo. Minha própria relação com as imagens se modificava graças à presença do Ricardo e do Luiz”.

Trabalhando nesse filme por tantos anos, Lacca atravessou diversos momentos da história do Brasil. Começou pouco antes do primeiro governo Lula, passou por Dilma, Temer, Bolsonaro e, novamente, Lula, e ele vê no longa um processo que polarizou o país e as famílias – inclusive a dele.

“Esse filme só existe, de certa forma, graças ao primeiro mandato do Lula, com seus investimentos em educação e cultura. Foi aí que a faculdade pode ter câmera, e eu consegui fazer imagens do meu avô, sem qualquer pretensão, mas que foi o começo desse filme.”