Ator Bastien Bouillon decifra a escolha radical de seu personagem em "Mãos à Obra"
- Por Neusa Barbosa
- 07/12/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
Bastien Bouillon, ator de "Mãos à Obra" (Crédito: Neusa Barbosa)
Ator versátil, Bastien Bouillon estrela dois filmes que integram a programação do Festival de Cinema Francês do Brasil - a comédia O Segredo da Chef, de Amélie Bonin, e o drama Mãos à Obra, de Valérie Donzelli. Em 2025, o festival transcorre entre 27 de novembro e 10 de dezembro em todo o Brasil.
De passagem por São Paulo, que visitou pela primeira vez no final de novembro, o ator concedeu entrevista exclusiva a Neusa Barbosa, do Cineweb, em que comentou em profundidade os desafios da interpretação de Paul Marquet, protagonista de Mãos à Obra, vum fotógrafo que abandonou a carreira pela literatura e não hesita em mergulhar na pobreza ao abraçar trabalhos precários por pura sobrevivência para não ter que parar de escrever.
Em“O segredo da chef”, você vive um personagem completamente diferente do de "Mãos à Obra". No filme de Amélie Bonin, seu personagem é expansivo, irreverente. No filme de Donzelli, é um papel muito interiorizado, minimalista. Como você se aproximou dele?
Na verdade, o próprio filme tem uma essência. Esse personagem tenta estar próximo de sua verdade a cada momento e tenta, também, não ensinar aos outros como se deve fazer ou se desenvolver. Ele não tenta se colocar mais alto, tenta se colocar numa boa posição, no seu lugar, o mais próximo de si mesmo. Para mim, para meu trabalho, era preciso que eu fizesse o mesmo, que não fizesse nada de performático, de demonstrativo. Então eu me guiei pela essência mesma da proposta.
Bastien Bouillon, em cena de "Mãos à Obra" (Crédito: Divulgação)
E ele não quer pedir ajuda a ninguém, nem aos amigos, nem aos parentes.
Sim. E mesmo que ele venha de um ambiente social mais privilegiado, há uma frase muito bonita no próprio livro que o define: “Pode ser que eu não seja um invisível, mas agora eu vejo os invisíveis”. Porque de repente ele tem que olhar a sociedade e, para ela, agora ele não é uma figura importante. A grande questão nesse filme é que esse personagem escolheu a precariedade. Porque a precariedade, em geral, nós a suportamos, a pobreza, nós a sofremos. Mas, no caso de Paul Marquet, ele sabe porque a escolheu, é mais fácil. É seu caminho, enfim. Ele poderia voltar a ser fotógrafo, ou tornar-se outra coisa. Mesmo que não achasse mais trabalho como fotógrafo, poderia trabalhar numa loja de fotografia, fazer outras coisas. Mas ele queria escrever e não conseguia sobreviver como escritor. Portanto, deveria encontrar outra solução. E, mesmo sem ser um voyeur, eu penso que ele tinha um lado curioso (uma curiosidade) para fazer todas essas coisas que ele faz, esses pequenos trabalhos. Ele tem um tipo de apetite humano. Ele os olha, os ajuda, os observa e aí está também o olhar do escritor.
E assim ele descobre todo um mundo que não conhecia, esse ambiente do trabalho precário, em que vivem os imigrantes, os refugiados.
Sim e ele se dá conta de que a economia pode ser feita em todos os sentidos, na comida, na qualidade do sabão que se usa para se lavar. Ele não pode mais nem mesmo parar para tomar um café como antes. É preciso economizar em tudo, tudo mesmo. E finalmente vemos no filme de Valérie que foi essa experiência que lhe deu a força de escrever esse livro.
E ele descobre nesse processo uma solidão bastante radical, que nem seu próprio pai, nem seus antigos amigos compreendem.
Aí eu acho que não houve uma escolha. Ele escolheu a precarização, mas o isolamento social foi algo que ele não havia previsto, mesmo que nessa profissão de escritor seja preciso saber estar só. Quem escreve sabe que é preciso uma solidão para o trabalho. Mas esta é uma solidão frequentemente muito satisfatória quando se consegue escrever. A solidão que ele descobre de repente vem dessa incompreensão dos que lhe eram próximos do modo como ele vive, nessa pobreza na qual ele se apaga. Mas há também uma ambivalência de sentimentos, porque alguns o invejam porque não seriam capazes do mesmo, outros que não o compreendem de modo algum. De maneira que ele se torna uma espécie de objeto de estudo.
Ele nos desafia um pouco, realmente. É uma forma de dignidade radical a dele. E muito comovente.
Ele é como um espelho. Ao olhá-lo, seus velhos amigos são obrigados a confrontar o modo como eles mesmos vivem.
